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[Originais]Guardians

Capítulo 14


Autor: ~Tsuru-chan

Categoria: Misc/Originais

Gênero: Ação, Aventura e Luta / Mistério / Romance e Novela. / Shoujo-Ai

Tags: guardiões, youkais, signos

Personagens: Sofie, Hikari, Mau, Mic, Anne, Shermmie, Ryan, Maire, Sniper, Hayato, Qiang, Live, Eric

Classificação: 16+

Adicionado em: 20/07/08

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Capítulo catorze - Amor proibido


Enquanto despertava, antes mesmo de abrir os olhos, Micaela começou a tatear o chão ao lado de sua cama, à procura de seus óculos. O ombro, ferido, ainda doía, mas bem menos do que no dia anterior. A cabeça era o que doía mais. Por qualquer razão que ela não saberia explicar, quase não conseguira dormir, pois sua mente esteve ocupada demais, re-lembrando de antigos fatos. Fatos estes que, no momento, ela tornava a visualizar.

Ela estava com cinco anos de idade. Sentada no chão, usava uma chave de fenda para abrir um rádio antigo e, em seguida, começou a tirar cuidadosamente cada uma das peças e a espalhá-las no chão à sua frente, onde já estava a caixa de ferramentas de seu pai.
Parou o que fazia quando avistou um par de sapatos parando diante de si. Subiu com os olhos, até avistar o rosto de seu pai. Sorriu para ele, que, tentando manter uma expressão séria, abaixou-se diante da filha.
-Mic, che cosa fare?
-Papà! ...Estou consertando o rádio para o senhor!
-Mas ele não está com defeito.
Ela coçou a cabeça e olhou para todas as peças espalhadas pelo chão.
-...Agora está! – E sorriu, inocentemente.
Enzo Angeli não mais agüentou e deixou-se sorrir diante da cena. Não restava dúvidas de que sua única filha fosse uma criança especial. Diferentemente das demais, ela não ligava para televisão ou brinquedos convencionais: sua maior diversão era desmontar aparelhos eletrônicos. Aos cinco anos de idade, já sabia fazer contas simples e demonstrava afinidade com cálculos. Sentia-se bem no meio de adultos e não dava muita atenção a outras crianças.
-Sabe que sua mãe não gosta que você desmonte os aparelhos de casa.
-Mamma não está aqui.
Ele deixou de sorrir, ao notar a tristeza na voz da menina.
-Ela logo estará de volta.
-Eu sei. – Ela começou a mexer nas peças menores, separando-as em um mesmo canto – Ela foi pro Japão pra fechar a barreira dos youkais e não deixar que eles venham pro nosso mundo.
-É. E sabe por que ela fez isso?
A pequena Micaela esboçou um leve sorriso e respondeu, sem tirar os olhos do que fazia:
-Porque ela me ama e não quer que nenhum monstro me machuque.
-Exatamente.
Os olhos de Micaela ficaram marejados.
-Mas eu também amo a mamma. Por isso sinto a falta dela. – Uma lágrima ameaçou vir à tona, mas Mic rapidamente passou as costas das mãos pelos olhos, impedindo-a.
Enzo tocou levemente o queixo da filha, levantando-lhe o rosto e, assim, fazendo-a olhar para ele.
-Ela quer que você seja uma menina corajosa e não chore. Logo ela estará de volta.
Mic moveu a cabeça, numa afirmação. Então, sussurrou, como quem conta um segredo:
-Não conta pra ela que eu quase chorei!
-Pode deixar! – Ele também sussurrou e os dois riram, juntos.
-Então, o que acha de sairmos para tomar um sorvete?
-Mamma não gosta que eu tome sorvete antes do jantar.
-Mas a mamma não está aqui. – ele, novamente, sussurrou – pode deixar que esse será outro segredo nosso.
Ela, rapidamente, levantou-se e abriu um largo sorriso, gritando:
-Si!!!
Enzo virou-se, deixando que a menina subisse em suas costas. E, assim, levantou-se e caminhou até a porta. Quando a abriu, entretanto, ficou paralisado ao deparar-se com uma mulher loira, carregando duas malas. Era Gabrielle Angeli, sua esposa.
-G... Gabi? – ele sussurrou, surpreso.
Micaela olhou por cima do ombro dele e sua surpresa ao ver aquela mulher também foi grande.
-Mamma?
Aflita, ela pulou das costas do pai e correu até a mãe. Gabrielle largou as duas malas e abaixou-se no chão, abraçando fortemente a filha. Segurando-a com força, levantou-se com a pequena nos braços.
-Mic... – Disse Gabrielle, antes de cair no choro. Enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto, ela soluçava incontrolavelmente. Afinal, passara um ano e três meses sem ver sua filha.
-Mamma! ...Mamma, eu fui uma menina corajosa e não chorei! – Contou a pequena, orgulhosa.
Gabrielle sorriu, em meio às lágrimas. Trocou um olhar com seu marido, antes de ele se aproximar e beijá-la. Um beijo aflito, também carregado pela saudade de mais de um ano. Então, ele abraçou as duas e também chorou.
Micaela sorriu, feliz. Depois de tanto tempo, era muito boa aquela sensação de abraço em família. De estar junto de seu pai e de sua mãe.


Micaela pegou os óculos e colocou no rosto. Levantou-se da cama e caminhou até um canto do quarto, onde havia deixado os comunicadores que andara consertando nos últimos dias.

*****
Minutos antes...

Quando Maire chegou à cozinha, encontrou Maurício lá, sentado diante da mesa. Ele a olhou e sorriu.
-Bom dia.
Maire correspondeu ao sorriso, respondendo ao cumprimento, enquanto puxava uma cadeira ao lado do brasileiro e se sentava:
-Bom dia, Mau. Está melhor?
-Ah... Isso? – ele colocou a mão nas costas, onde, por baixo da camisa, estavam os arranhões causados pelo youkai na noite anterior – Não foi nada.
-Mesmo? Esse veneno dói bastante.
-Certo, confesso que doeu mesmo. Mas depois que você passou o antídoto, melhorou bastante. ...Mas, e a Angeli?
-Na Mic o ferimento foi bem profundo. Ela vai precisar ficar de repouso por, pelo menos, três dias. Espero que não seja teimosa e respeite isso.
Mau olhou para Maire, reparando que os olhos dela pareciam tristes, preocupados.
-Você... Se preocupa demais com ela, não é?
-Claro. Assim como ela se preocupa comigo.
-Mas você parece... Não sei... Se importar mais. ...Não que ela não goste de você, não estou dizendo isso, mas é que... Você parece ser mais preocupada com ela do que o inverso.
Maire sorriu.
-Não é bem assim. Mic é um pouco mais calada, apenas isso, mas... Ela se preocupa tanto, que às vezes eu me sinto até um pouco egoísta por, de certa forma, me “aproveitar” disso.
-Como assim?
-Sabe... Como quando eu insistia para irmos ao cinema, mas ela precisava estudar para alguma prova importante. Ela sempre ia. Às vezes ela gravava, com a própria voz, algumas fórmulas em um gravador, e ficava, durante o filme, com os fones no ouvido. Sabe, ela assistia ao filme, ao mesmo tempo em que estudava. A Mic consegue prender a atenção em várias coisas ao mesmo tempo, mas seria bem mais cômodo para ela ficar em casa estudando. Mesmo assim, ela sempre ia comigo... Apenas porque eu pedia.
Maire debruçou-se sobre a mesa. Seus olhos vagavam pelo nada, como se visualizando os fatos que narrava:
-Sabe, Mau, a Mic estuda demais. Ela lutou muito para conseguir uma vaga na Universidade de Madri e, quando conseguiu, sempre estudou bastante para manter as melhores notas. Para ela, isso é importante. Mas ela sempre fez o possível para passar o maior tempo possível ao meu lado. Nós estamos juntas há três anos. Moramos juntas há dois anos. Mas, às vezes, parece que tem muito mais tempo. Eu conheço absolutamente tudo sobre ela e ela conhece tudo sobre mim. A Mic é a pessoa mais importante da minha vida. – Ela abaixou o rosto por alguns instantes. Então, respirou fundo e tornou a levantá-lo e a olhar para o Mau, abrindo um sorriso – Desculpe por ficar te contando essas coisas.
-Er... Não... Sem problemas.
Ela percebeu que ele, embora tentasse disfarçar, estava aparentemente incomodado.
-Eu sei que esse tipo de história incomoda um pouco.
Ele percebeu o que ela quis dizer com aquilo.
-Não, Maire, não tem nada haver com isso.
-Entendo que, para quem não está acostumado, um romance entre duas mulheres soa desagradável... Bizarro... Ou até nojento, sei lá.
-Pára de falar isso, Maire. Não tem nada haver. Eu não acho nada disso de vocês.
-...Mesmo?
Mau forçou um sorriso e movimentou a cabeça, afirmando. Abriu a boca para dizer algo, porém, nesse momento Micaela chegou à cozinha.
-Mic! – Maire levantou-se, preocupada – Por que levantou da cama? Eu disse que precisa fazer repouso!
Micaela ficou em silêncio por longos segundos, olhando fixamente para Maurício. Ele sustentava o olhar dela, perguntando-se o que Maire poderia ter visto nela. A ele parecia óbvio que os sentimentos da ruiva a faziam enxergar coisas que não existiam. Angeli não podia ter outra ‘face’, era apenas aquela pessoa que ele já conhecia bem: possessiva, seca, arrogante e chata... Bastante chata, aliás.
Então, Micaela tornou a olhar para Maire e adentrou a cozinha, deixando três comunicadores sobre a mesa. A irlandesa olhou, curiosa, para aquilo.
-Terminou os comunicadores?
-Sí. O sistema antigo já contava com rastreamento de youki. Eu aperfeiçoei, colocando também um localizador de guardiões.
-Como assim? – Indagou Maire, pegando um dos comunicadores onde, atrás, estava desenhado o símbolo do signo de Libra.
Micaela pegou o aparelho com o símbolo de seu signo e o usou para explicar:
-São treze comunicadores: um para cada guardião, mais um para uso de Gautier, e estão interligados por um sistema de rastreamento. Assim, cada um de nós poderá saber onde os outros doze estão, para evitar de fazermos rondas na mesma área e deixar alguma região grande sem nenhum Guardião a postos. E, também, será útil para, no caso de algum de nós precisar de ajuda, os outros conseguirem nos encontrar.
Maire sorriu levemente.
-Fantástico, Mic.
-Deixei os outros comunicadores para Gautier, ela se encarregará de entregá-los.
-Ótimo. ...Agora, por que não volta para o quarto? Precisa de repouso.
-Vou sair para a ronda.
-Não pode, Mic! Precisa de descanso para esse seu ferimento cicatrizar.
-Já estou ótima, Maire. Não vou ficar na base enquanto há youkais sugando energia de pessoas pela cidade.
-...Teimosa. ...Mas, se é assim, eu vou ficar de olho em você para que não se exceda.
-Eu vou sozinha. – Micaela deu meia-volta para sair da cozinha, mas Maire a segurou pelo braço.
-Mic, espera! Por que isso agora?
-Eu apenas quero ficar sozinha, Maire.
-Mas... Mas...
-Não se preocupe, Maire, você não ficará sozinha. Tenho certeza de que o “Mau” fará questão de te acompanhar.
Maire tomou fôlego para responder, mas Micaela não lhe deu tempo para isso e saiu da cozinha. Maire, então, olhou para Maurício e suspirou, tristemente.

*****
-Hm... O número da massa é representado pela letra A, e é igual à soma do número de prótons, representado pela letra Z, e do número de nêutrons, que é a letra N. Sendo assim, A é igual à Z mais N... Então, pra resolver isso eu tenho que pegar esses números aqui, e...
Enquanto falava sozinha, com um livro de Química à frente do rosto, Hikari ia caminhando de um lado a outro pelo corredor que levava aos quartos. Neste dia, não participara da ronda. Tinha ido ao colégio, já que estava em período de provas. Tinha chegado à base há poucos minutos e ainda nem tirara o uniforme escolar.
-...Então, somando aqui, nós teremos... Aaaarg! Pra que eu tenho que estudar Química? Isso nem vai ser útil pra minha vida!
Dando meia-volta para fazer o caminho inverso, Hikari esbarrou em alguém. Quando levantou o rosto para ver quem era, foi surpreendida pelo flash de uma máquina fotográfica.
-Aaaai... Que isso? – Ela colocou a mão diante dos olhos e, quando os flashs finalmente pararam, conseguiu ver quem estava fazendo aquilo – Sniper-kun, o que deu em você?
-Miss Kari... Você é uma japinha colegial! *-*
-Sou, né!? ¬¬’ E daí?
-Quando voltar pra Inglaterra, preciso mostrar aos meus amigos que conheci as famosas japonesas de uniforme colegial. *-*
-Sei... É mais um dos tipos idiotas de fetiche masculino, né?! ¬¬’
-Talvez o maior de todos! ^-^
-...¬¬’ Não me desconcentra. Eu preciso estudar! ...Estou ferrada, sabia? Perdi muitas aulas com essa história toda de barreira. E, agora, vou me dar mal nas provas.
-Hm... Está em provas?
-Hai. Amanhã eu tenho duas: Química e Inglês. ...E ainda nem estudei para Inglês. – Ela olhou para Sniper e sorriu – Ei, você poderia me ajudar!
-Poderia, é?! O.o Why?
-Porque você é inglês ¬¬’.
-Oh, yeah... É verdade! Então, eu serei seu professor! ...Sabe qual é a melhor maneira de aprender? Usando música! Faça-me um favor, sim? Vá até o meu quarto e pegue meu I-Pod. Está em algum lugar no meu armário. Enquanto isso eu vou para a cozinha fazer um lanche, estou faminto.
-Hai. Te encontro lá na cozinha, então.
Assim, Sniper seguiu para a cozinha, enquanto Hikari entrava no quarto, apressada. Parou diante do guarda-roupa de seis portas, perguntando-se qual daquelas seria a de Sniper. Jogando na sorte, abriu as duas primeiras portas à esquerda e encontrou uma pilha de roupas dobradas.
-Mas aqui só tem roupas. Cadê o tal radinho?
Ela começou a olhar entre uma peça e outra, e logo percebeu que aquelas roupas não faziam o estilo do inglês.
-Acho que são do Li...
Ela ia fechar as portas. Porém, seus dedos – que estavam entre uma peça e outra – esbarraram em algo duro. Por curiosidade, Hikari levantou as roupas e deparou-se com uma fita de vídeo. Ela piscou, ainda mais confusa.
-Uma fita de vídeo? ...Hm... Ainda que eu fosse uma intrometida e quisesse saber o que tem aqui, seria impossível. Quem, hoje em dia, ainda tem um videocassete?
Ela estalou os dedos, quando a resposta lhe veio em mente.
No quarto de Toshihiko, havia um videocassete.

*****
Saindo de uma das ruelas de um bairro noturno, Micaela parou ao se deparar com Maurício, sentado sobre a mureta de divisória de um bar para a calçada. Passada a surpresa inicial de encontrá-lo ali, ela tornou a caminhar, indo até ele.
-O que está fazendo aqui? Deixou Maire sozinha?
Mau ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo sobre a pergunta. Por que Angeli estaria tão preocupada em ele deixar Maire sozinha, de ELA mesma havia feito isso horas antes?
Finalmente, ele respondeu:
-Ela é bem crescidinha e forte também. Não há a necessidade de andar com alguma pessoa em tempo integral.
Micaela continuou encarando-o.
-Se queria fazer ronda sozinho, então deveria ter ido para uma área não vigiada. O rastreador instalado nos comunicadores serve exatamente para isso.
-Eu sei. E foi por isso mesmo que o usei para te encontrar. Queria levar um papo contigo.
-...E que assunto eu teria com você?
-Eu quero saber por que está tratando a Maire mal.
-O que você tem a ver com isso?
-Ela está sofrendo com isso.
-E te incomoda ela estar sofrendo?
-Mais do que qualquer coisa.
A sinceridade da resposta deixou Micaela sem fala. Ela permaneceu em silêncio por quase um minuto, olhando para o Guardião de Touro como se o analisando. O rapaz sentiu-se incomodado com isso, se perguntando o que poderia estar se passando pela mente dela.
Por fim, Micaela sentou-se na mesma mureta onde Maurício estava, porém, a uma distância de cerca de um metro dele. Ainda ficou quieta por alguns segundos, olhando fixamente para o nada, até que disse, com a voz determinada:
-Pusilânime... Eu quero que você fique com a Maire.

*****
Ela estava parada na rua, nos arredores do prédio onde ficava a base subterrânea. Já fazia algumas horas desde que retornara do colégio, mas ainda não havia tirado o uniforme. Não teve tempo para isso depois que fora buscar algo (que ela nem lembrava mais o que) para Sniper no quarto e acabara, acidentalmente, mexendo nas coisas de Qiang Li. Encontrara uma fita de vídeo e, não tão acidentalmente assim, quando se deu conta já estava usando o vídeo cassete do quarto de Toshihiko para assisti-la. As imagens que viu a deixaram bastante impressionada.
Não entendera uma única das palavras ditas em mandarim, mas, pelo tom com que eram pronunciadas, deu para perceber que vinham de pessoas felizes.
Quando sua mãe lhe contara a respeito da filha adotiva de Li Yin, não imaginara que, ao crescer, essa se tornaria, para Li Qiang, mais do que uma simples irmã.
No vídeo, os dois deviam ter por volta de dezessete anos. Ziyi era uma jovem muito bonita, embora sua doença já desse alguns sinais: ela já se locomovia por cadeira de rodas e, em alguns trechos, parecia que sua visão estava começando a ficar debilitada. Mas a surpresa maior de Hikari foi Qiang. Ela ainda custou para reconhecê-lo nas imagens. Não pela aparência, ele não havia mudado tanto assim, mas... Pelo comportamento. Ele era extremamente carinhoso e atencioso com a garota, além de estar, constantemente, sorrindo. Hikari nunca poderia imaginar que Qiang já fora capaz de sorrir. O vídeo mostrava cenas cotidianas, do casal tomando café juntos ou passeando num parque.
Desvencilhou-se de seus pensamentos quando avistou Qiang se aproximar. O horário da ronda diurna já havia terminado há quase três horas, mas ele não se importava muito com horários. Sempre excedia o seu “turno”.
Ele passou direto por ela, demonstrando total indiferença. Hikari o seguiu, caminhando ao seu lado. Ficou em silêncio por algum tempo, apenas observando-o, até tomar coragem de perguntar:
-Sente muito a falta dela, não é?
O chinês a olhou com o canto dos olhos, e ela, então, explicou:
-A menina da foto que minha mãe lhe entregou outro dia. “Ziyi”, não é?
Ele respondeu com a voz indiferente de sempre:
-Você não é digna de sequer pronunciar o nome dela. – E apressou o passo.
Não se dando por vencida, Hikari correu até alcançá-lo, tornando a caminhar ao seu lado.
-Escuta, só porque você perdeu uma pessoa que você amava, não significa que tenha que odiar a todos ao seu redor. Certamente não era isso o que ela queria. ...Ela parecia ser uma boa garota.
-Do que é que você sabe?
-Eu... Sei que cometi um erro. Sou muito intrometida, assumo, mas foi a forma que encontrei de tentar te entender melhor. ...Eu... Mexi nas suas coisas e encontrei uma fita de vídeo com...
Ela não conseguiu terminar a frase. Foi surpreendida quando Qiang, num movimento brusco, a empurrou contra um muro, forçando o antebraço contra o seu pescoço
-Quem você pensa que é? – Ele indagou, encarando-a com profundo ódio – Que direito acha que tem para se meter na minha vida?
Abrindo um dos olhos, Hikari se assustou ainda mais ao notar o ódio que transbordava do rosto de Qiang. Juntando todas as forças que tinha, ela conseguiu empurrá-lo. Então, começou a tossir para recuperar o fôlego.
-O mesmo direito que você acha que tem para querer tirar a minha vida. ...O que eu fiz contra você?
-A minha vingança não é com você.
-Eu sei. É contra a minha mãe, não é? Quer me matar para se vingar dela. Só que ela também não fez nada contra você. Pare de tentar jogar a culpa em alguém. O que aconteceu com Ziyi foi uma fatalidade. Mesmo que Yin estivesse viva, não ia conseguir evitar o inevitável.
-Se a maldita Yin tivesse cumprido sua palavra e voltado para casa, Ziyi não teria sofrido tanto. Talvez ela ainda estivesse viva.
-A “maldita” é sua mãe. Ela fez tudo o que pôde e apenas descumpriu sua palavra para honrar com seu papel de Guardiã.
-Para o inferno com o “papel de um Guardião”.
-Ela quis proteger o mundo, e tenho certeza de que fez isso por você e pela Ziyi.
-Pode ser. Mas nada altera o fato de Ziyi ter sofrido porque Yin não voltou para a China. E se Yin não voltou foi porque uma Guardiã não cumpriu com o seu “papel”. E é dessa Guardiã que pretendo me vingar. Farei Sofie Gautier sofrer o mesmo que eu sofri.
-Sabe o que eu acho? Que vai perder o seu tempo. Minha mãe me ama, do jeito dela, mas acho que esse amor não é tão forte a ponto de causar nela tanta dor assim. Sabe o que vai acontecer, Li? Ela vai chorar pela minha morte por um dia, ou quem sabe por dois ou três... Mas ela vai seguir a vida dela. E, então, do que terá adiantado a sua vingança? O sofrimento que você vai causar a ela não irá amenizar o seu e nem, muito menos, trazer Ziyi de volta.
Dizendo isso, ela seguiu em direção oposta à base. Qiang a seguiu com os olhos, pensativo.

*****
Maurício levantou-se, em choque.
-Do que você está falando?
-Você gosta dela, não é?
-E o que isso importa, se é de você que ela gosta?
-E se eu disser que não gosto dela?
-Eu não acredito.
-E se eu disser que... – Ela esboçou um leve sorriso zombeteiro – que a Maire, para mim, foi só uma aventura? Uma rebeldia de juventude, um desejo estúpido de ser diferente, de chamar a atenção? Mas... Passou. Cansei de brincar de gostar de meninas.
Maurício ficou ainda mais revoltado ao ouvir aquilo.
-Se a sua relação com a Maire foi apenas uma “brincadeira”, então por que está tão preocupada em deixá-la com alguém quando você der o fora?
-Ela é uma boa pessoa. Não quero que ela sofra, apenas isso.
-Vai ter que dar uma desculpa melhor, Angeli. Porque eu ainda não acredito no que está dizendo.
Mais um longo silêncio. Micaela ficou séria e pensativa, refletindo sobre a melhor maneira de dizer aquilo. Afinal, não tinha mais motivos para contar mentiras. Se queria pedir aquilo para Maurício, precisava ser sincera com ele. Sendo assim, respirou fundo e começou:
-Somos Guardiãs. Devemos passar isso adiante.
-...Do que está falando?
Ela finalmente o encarou:
-Pusilânime! Estou falando de filhos.
-...E daí?
-Uma mulher com outra mulher... Duas mulheres... Não podem... Quer que eu desenhe?
Mau piscou, finalmente entendendo o que ela estava querendo dizer. Ficou momentaneamente sem resposta e, então, Micaela continuou, tornando a olhar para frente.
-Maire é louca por crianças, sei que dará uma ótima mãe. Ela merece ter uma família.
-Mas... Como assim? E você?
-Posso ter uma também. Já gostei de caras, sabia? ...Caras idiotas, caras errados... Quem sabe um dia ache algum mais ou menos certo.
-E vocêS?
-Não existe “nós”. Existe um sentimento... Existe uma ilusão... Nós duas sempre soubemos que isso, em algum momento, teria um fim. E decretamos esse momento: ao término da missão.
-Vocês determinaram isso?
-Pode achar que fomos insanas em ir contra tudo e todos para vivermos um amor com data determinada para terminar.
-“Insanas”? Imagina! – ele bufou, ironicamente. – Do que vale começar um relacionamento com data prevista para terminar?
-Do que vale? – Micaela ficou pensativa por mais alguns segundos – Meu pai morreu ano passado, brigado comigo. Minha mãe praticamente me enxotou do velório, disse que eu era a culpada, que preferia que fosse eu dentro do caixão... Que preferia uma filha morta a uma filha lésbica. A mãe de Maire não aceitou, mas não a rejeitou... O pai, ao contrário, teve uma atitude parecida com a de meus pais. Ela sofre muito com isso... Maire é tão sensível...
-Passaram por tanta coisa, lutaram contra tudo e todos... Para desistirem desse amor?
-Vivemos pelo tempo que durou. Esse era o trato, desde o início. Sabíamos o sofrimento que nos esperava, mas optamos por isso para sermos felizes juntas, pelo tempo que fosse possível. Quer saber do que vale viver um relacionamento assim? ...Acho que, se pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo. Valeu à pena cada dia que passei ao lado de Maire.
Maurício tornou a se sentar, apoiando os cotovelos sobre as pernas e descansando o rosto entre as mãos. Respirou fundo, tentando organizar todas aquelas informações em sua mente e, com isso, entender o que levava Micaela a pedir que ele ficasse com Maire. Era muito estranho buscar coerência naquilo. Abrir mão da pessoa que se ama, por amor? Aquilo era paradoxo demais para fazer sentido.
-Angeli, me diga... Por que está pedindo isso para mim?
Micaela levou alguns segundos para responder, como se fosse difícil, para ela, declarar aquilo:
-Sou obrigada a confessar que você é um bom sujeito. Percebi isso desde que vi o jeito com que tratou aquela garota colombiana. Em você eu confio. Sei que cuidará bem da Maire, sei que gosta dela de verdade. É por isso que quero que você fique com ela.
O brasileiro piscou, mal acreditando que Angeli pudesse ter-lhe feito algum elogio. Passada a surpresa inicial, ele respondeu, com ainda mais revolta:
-Quem deve decidir com quem quer ficar, ou SE quer ficar com alguém, é a Maire.
-Eu só estou tentando facilitar as coisas.
-Está sendo intrometida, como sempre.
Micaela levantou-se, exaltada:
-Pusilânime! Quem você pensa que está chamando de intrometida?
-Você! A senhorita chata, irritante, e metida a sabe tudo. É intrometida, sim!
-Você é que, além de pusilânime, é um insolente!
-Até pra xingar você tem que falar difícil.
-Você é que é um ignorante!
Os comunicadores de ambos, guardados nos bolsos das calças, tocavam, emitindo o sinal de presença de youki. No entanto, os dois estavam tão concentrados na discussão que sequer ouviam ao “bipe”.
-Sabe que eu não consigo entender o que a Maire pode ver em você? Você é muito insuportável!
-E você é um... – Ela se distraiu da briga, começando a olhar ao redor, preocupada – Youkai...
-Agora você ofendeu! ¬¬’
-Não, seu pusilânime! Não está sentindo?
-Agora que você falou... Realmente, dá pra sentir um youki... E que barulho é esse?
Micaela pegou seu comunicador e mexeu nos comandos que mostravam a localização de youkis, juntamente a dos guardiões.
-Não pode ser... – Ela murmurou, aflita.
-O quê? – Quis saber Maurício, preocupado.
-Está se aproximando...
Maurício olhou ao redor.
-Por onde?
-...Por baixo.
-Hein? Por baix...
-CUIDADO!
Após o grito, Micaela empurrou Maurício para trás, saltando, de costas, em direção oposta. Ao centro dos dois, bem no local onde eles estavam segundos antes, uma cratera se abriu. Dela, saiu uma garra e, em seguida, outra. Então, surgiu o rosto disforme de um youkai.
Micaela apressou-se em manifestar sua energia e disparar uma rajada amarela contra o monstro. Sua surpresa foi grande quando o viu estender a mão, repetindo o gesto dela. Achou que ele fosse contra-atacar, mas, ao invés disso, o que ele fez foi refletir a energia, devolvendo-a para a Guardiã de gêmeos.
Atingida pelo próprio golpe, Micaela foi arremessada à distância. O impacto foi tão grande que seus óculos caíram no chão e ela caiu desacordada.
-Angeli! – Disse Mau, preocupado.
Mau olhava a cena e tentava controlar-se para pensar no que deveria fazer. Logo chegou à conclusão que chamar os outros seria a solução mais viável. Assim, colocou a mão no bolso onde deveria estar o comunicador; mas, para sua surpresa, não encontrou nada lá. Avistou o aparelho ao pé do Youkai. O monstro, após encarar o taurino, pisou no comunicador, espatifando-o.
Não havia muita saída para Maurício. Ele sabia que não poderia correr para chamar os outros, deixando Mic sozinha. Na verdade, ele nunca faria isso nem se houvesse essa escolha. Depois do que acontecera com Maria, não havia escolha para ele, a não ser lutar.
Ele avaliou o youkai que estava a sua frente; tinha estrutura humanóide: cabeça, tronco e membros, mas suas feições eram monstruosas. Unhas que rivalizavam com a unha de qualquer felino, assim como os caninos inferiores desenvolvidos e um olhar demasiadamente vermelho, como se apenas houvesse sangue em seu globo ocular. Além de ter, cobrindo todo o seu corpo, crostas do que parecia algum metal disforme, porém com uma superfície refletora.
Mau não mais se conteve em observações. Assim, forçou a mão direita. Fez uma nota mental de que a força que pretendia aplicar causaria em si mesmo um hematoma leve depois. Porém, sua condição física não iria importar amanhã... Tudo que importava a ele naquele momento era liquidar aquele youkai e proteger Micaela.
Então, num súbito movimento, projetou o corpo antes de seu punho direito, investindo contra o youkai rapidamente. O próprio monstro ficou paralisado com a explosão de movimento do Guardião; tanto que, por muito pouco, não conseguiria escapar do golpe, desviando seu rosto para o lado. O soco acertou um muro, que, com isso, ganhara um buraco que poderia ser, no mínimo, considerado um acidente de carro.
O Youkai ficou prensado contra a parede, com o rosto a poucos centímetros de onde ainda estava o punho do Guardião de Touro. Ainda esboçou alguma reação de um contra-ataque, mas não teve tempo, pois Maurício logo desferiu outro soco, com um acúmulo maior de energia em seu punho. Dessa vez, o golpe foi certeiro no rosto do monstro, o que o fez, com o impacto, ser arremessado parede adentro, forçando passagem no estabelecimento, que se tratava de um bar. Por sorte, o local estava fechado para reformas e não havia pessoas por lá.
Mau pretendia segui-lo, mas deteve-se ao olhar para Micaela, que ainda estava caída no chão, desacordada. Não poderia deixá-la no meio da rua. Voltou até ela e a segurou nos braços, carregando-a para a entrada de um beco. Assim, deixou-a entre uma lata de lixo e a parede.
Ela esboçou alguns movimentos. Sua consciência parecia estar voltando. Entreabriu os lábios para tentar dizer alguma coisa, mas o que saiu foi um gemido de dor. O ferimento em seu ombro doía mais do que nunca.
-Psiu. – Fez Mau, levantando-se – Fique quieta ai, eu vou ver se esta tudo acabado. Uma coisa que eu aprendi é não deixar nada pela metade.
Ele não esperou a resposta e foi para a parede destruída do bar, por onde o youkai entrara. Ao entrar, estava na área principal do bar, onde havia várias mesas e o balcão a sua esquerda. Estava tudo muito silencioso. Porém, ele sabia que não podia se afastar muito da saída, afinal, Micaela era um alvo fácil. E se acontecesse algo com ela, ele jamais se perdoaria; nem por ela, nem por Maire. O youki daquele monstro estava impregnado no lugar. Mesmo se ele quisesse não poderia saber exatamente onde ele estava. Micaela, provavelmente, o teria achado.
Sem perder a sua atenção, Maurício começou a tirar os tênis e as meias sem abaixar, apenas com os próprios pés. Após ter tirando seu calçado, ele fechou os olhos, se colocou com as pernas arqueadas e pôs-se a emanar sua energia. Nisso, sentiu algo como uma vibração pesada, que provocara mínimas ondas de impacto vindas de seu lado esquerdo. Não houve hesitação e nem medo; Mau reunira toda a energia que estava dispersa em seu corpo, aplicando ao seu punho e atacando em direção ao ar. Ele acertou algo, ao mesmo tempo que sentiu que aplicara o disparo certeiro.
O que ele acertara caiu pesadamente no chão. Mau olhou para o youkai, que estava com um enorme buraco no abdômen.
-C-Como... Você... Sabia...? – indagou o Youkai, enquanto cuspia uma farta porção de seu asqueroso sangue.
-Sentido sísmico – Maurício começou a dizer, enquanto re-colocava os tênis – a cada movimento que faz, você aplica uma força; a terra dispersa esse movimento. Tive que harmonizar minha energia com o meu elemento para sentir seu ataque, e o resto você já sabe.
-Jogada... Perigosa... M-muita chance... de e-erro...
-Eu não tinha o direito de errar. – Mau voltou para a rua, indo em direção a Micaela. Deixou para trás o youkai, que começou a se desintegrar.
Abaixando-se ao lado da italiana, Maurício se preocupou ao ver a profundidade do ferimento no ombro dela. Ao pensar sobre o que deveria ser feito, apenas uma idéia lhe veio a cabeça: precisava chamar alguém. Maire! Claro! A irlandesa, certamente, saberia o que fazer. Não gostaria de preocupá-la, mas sabia que ela tinha noções de primeiros socorros, além de ser a pessoa de confiança de Micaela. Quando ela acordasse, ele não teria o menor jeito para lidar com ela, definitivamente.
Assim, ele procurou pelo comunicador dela. Para sua frustração, quando o encontrou, constatou que também havia se quebrado, certamente no impacto que teve quando ela caiu.
-Droga... – Ele murmurou.
Seus olhos avistaram, ao longe, os óculos de Micaela caídos no chão. Foi até lá para pegá-los. Então, ouviu alguns baixos gemidos de dor e, quando voltou-se para Mic, a viu se levantar, com esforço, sentando-se no chão.
-Ei... – Ele correu até ela, abaixando-se ao seu lado – Fique quieta, não pode fazer esforço.
Mic, no entanto, não deu qualquer atenção às palavras do brasileiro. Com a cabeça abaixada, os olhos fechados e respirando pesadamente, pediu:
-Fique com ela... Per favore.
-Angeli... Eu não posso fazer o que você está me pedindo.
-Mas o que você tem a perder? Disse que gostava dela.
-Sim, eu gosto. E é exatamente por gostar que respeito os sentimentos dela.
-Se não for com você, ela vai acabar nos braços de um idiota qualquer.
-Será que você não entende que é nos SEUS braços que ela quer ficar?
Ainda caída no chão, Micaela cerrou os olhos, não se importando mais em tentar conter as lágrimas e os soluços que vieram à tona. Por qualquer razão, não sentia vergonha em chorar diante daquele rapaz e não se importava com o que ele pudesse pensar a seu respeito. Nada mais valia à pena... Nem mesmo seu orgulho próprio. A única coisa que importava e que ainda lhe restava na vida estava prestes a lhe escapar por completo: o amor de Maire.
Ela se assustou a sentir uma mão tocar o seu rosto. Abriu lentamente os olhos. Sua visão, embora turva e embaçada, conseguiu identificar, ainda que disforme, o rosto de Mau diante do seu. Tão próximo que conseguia sentir sua respiração.
Por um momento, Maurício viu-se hipnotizado por aqueles olhos. Seriam mesmo os de Micaela Angeli? Os óculos de grau que ela sempre usava não deixavam que ninguém reparasse aquelas pupilas de cor verde-água, as quais as lágrimas daquele instante deixavam ainda mais brilhantes. Aquilo o surpreendia, tanto quanto o olhar dela, em si... Incrível acreditar que a “senhorita irritante e metida à sabe-tudo” pudesse ter um olhar tão frágil e assustado. Então, ele finalmente entendeu que aquela era a ‘Mic’, por quem Maire se apaixonara.
Ele, enfim, entendeu.
Micaela, por sua vez, mal conseguia enxergá-lo e não poderia nem fazer idéia do que se passava pela cabeça dele. Nisso, levou um certo susto ao perceber que o rosto dele se aproximava mais do seu... Lentamente. Então, fechou abruptamente os olhos quando sentiu seus óculos sendo delicadamente colocados de volta ao seu rosto. Quando tornou a abrir as pálpebras, então conseguiu, finalmente, enxergar o rosto de Mau. Ele lhe sorriu, com carinho. Então, os lábios dele começaram a se mover, e sua voz se fez ouvir:
-Lute por ela.
E ela não reagiu quando ele a puxou para junto de si, abraçando-a com força e sussurrando-lhe próximo ao ouvido:
-Lute por ela. Lute pelo amor de vocês.
E Micaela desabou, num choro ainda mais forte. Até que, num determinado momento, seu choro cessou-se por completo. Mau sentiu todo o peso do corpo dela cair sobre o seu e então, começou a chamá-la, preocupado.
-Angeli? ...Angeli, fale comigo. ...ANGELI!

*****
O sol ainda não tinha nascido quando Maire retornou de sua ronda. Como de costume, quando chegou à base tudo estava no mais absoluto silêncio. O turno do dia ainda não devia estar acordado, bem como o da noite ainda não deveria ter retornado.
Maire parou, ainda no salão, para dar uma checada no comunicador. Pelo localizador de Guardiões, viu que Mau e Mic já se encontravam na base.
Pensou em Micaela. Horas antes, viu pelo comunicador que um youkai atacara a área em que ela se encontrava. Por qualquer motivo, Maurício também estava lá. Maire poderia imaginar os motivos daquilo. O brasileiro havia saído para a ronda determinado, garantindo a ela que tudo ficaria bem com ela e Mic. Não era de se estranhar que ele tenha ido procurar a italiana para conversar com ela. Maire, então, pensou em como Maurício era uma boa pessoa... E um ótimo amigo.
Concluindo isso, ela seguiu pelo corredor. Quando parou diante da porta do quarto, esta se abriu abruptamente e Live saiu, tão apressada que acabou esbarrando em Maire.
-Ei... Cuidado, menina! – Brincou a ruiva.
Então, deixou de sorrir quando notou o rosto de preocupação da indiana.
-Live... O que aconteceu?
-Tia... A Micaela...
-O que tem a Mic?
-Está muito ferida.
Maire sentiu seu coração doer e uma súbita falta de ar. Então, entrou no quarto, aflita. Encontrou Micaela desacordada, deitada na cama de casal. O braço do ombro ferido pelo youkai no baile estava enfaixado, juntamente com o ombro e toda a região do tórax. Também havia um curativo na face esquerda. Ao lado da cama estavam Maurício e Sofie. Maire se aproximou, preocupada.
-Mic? ...Mic, o que aconteceu com você? – Fitando a loira, os olhos de Maire começaram a transbordar. Então, ela sentiu uma mão repousar em seu ombro e olhou para aquele que fizera aquilo – Mau... O que aconteceu com a Mic?
-Fique tranqüila, Maire. Ela vai ficar bem.
Maire tornou a olhar para Micaela. Mas não conseguiu se tranqüilizar em vê-la naquele estado.

*****
No dia seguinte...
Finalmente, Micaela abriu os olhos. Como primeira visão, reconheceu, embora embaçado, o rosto de Maire. A irlandesa estava sentada ao seu lado, na cama de casal. Mic notou que ela a fitava com preocupação, apesar de tentar disfarçar abrindo um sorriso.
-Até que enfim, dorminhoca! Achei que fosse dormir por uma semana inteira.
-Maire... – murmurou Micaela, com cansaço – Por quanto tempo eu dormi?
-Vinte e três horas e alguns minutos. Você está muito ferida e cansada, eu sei... Mas... – O sorriso de Maire estremeceu – Eu fiquei preocupada... Mas isso não importa. O que interessa é que você acordou e está bem, não é?!
Maire pegou os óculos de Mic e tentou colocá-los nela, mas a loira a impediu.
-Eu não quero colocar isso.
-Mas... É sempre a primeira coisa que faz quando acorda. Por que não quer colocá-los?
-Porque sem eles eu não posso ver bem os seus olhos. E, assim, é mais fácil de falar o que eu quero.
Maire mordeu o lábio inferior, tentando conter a vontade incontrolável que teve de chorar. Então, deixou os óculos na mesa de cabeceira e olhou para Micaela. Esta, após respirar fundo, começou:
-Eu venho sendo uma idiota com você. Desde o início, eu precisava ter sido honesta contigo, e não ter te tratado da maneira como tratei.
-Esquece isso, Mic. Já passou. Como eu já disse, o que importa é que você está bem e que está aqui, ao meu lado. Está tudo bem agora.
-Não, Maire. Não está tudo bem.
-Para mim está tudo bem, Mic!
-Não está. Eu sei que você sofre todos os dias pelo jeito que a sua família encarou tudo isso.
-Eu posso conviver bem com isso.
-Poder, até pode, Maire... Mas... Será que deve?
Maire abaixou os olhos, ainda lutando para conter o choro. Após uma breve pausa, Micaela prosseguiu:
-Apesar de eu sempre dizer que está tudo bem, é uma dor insuportável lembrar que meu pai morreu me odiando e saber que minha mãe me culpa por isso. E o que eu menos quero nesse mundo é que você também sinta essa dor.
Maire tornou a olhar para Micaela, determinada:
-Mic, não sei por que você está falando sobre isso agora. Nós já tivemos essa conversa antes e tomamos nossas decisões. Por que está querendo adiantar isso?
-Talvez adiar seja pior.
-Não! Não é! Tudo o que eu quero agora é esquecer do tempo que nos resta juntas e viver cada instante possível ao seu lado. Estarei preparada para sofrer quando o momento chegar, mas não estou preparada para isso agora.
Foi a vez de Micaela sentir seus olhos começarem a ficar marejados. Maire continuou o que dizia:
-Nem que nos reste apenas uma semana, um dia ou um minuto, que seja, quero aproveitar cada segundo ao seu lado, Mic. Ti voglio tanto bene. Sei la mia vita.
E Maire sorriu, ainda contendo as lágrimas. Rindo, bufou:
-É, eu sei no que deve estar pensando... Meu italiano é horrível, né?!
Micaela esboçou um leve sorriso:
-Não é pior do que o meu espanhol.
-É... Isso não é mesmo.
As duas riram e, então, Maire afastou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto de Mic. A loira deixou de sorrir e, olhando para Maire, murmurou:
-...Que droga.
-O que foi? – Indagou a irlandesa, preocupada.
-Eu ainda consigo ver os seus olhos.
Maire não mais agüentou e deixou os soluços virem à tona. Então, debruçou-se sobre o corpo de Mic e a abraçou, descansando a cabeça em sua barriga e chorando.
Micaela chorou junto.

*****
Guardião de Virgem, sexto signo do zodíaco, regido pelo elemento terra, Ryan Mckay, se apresentando!
Anne-san está tão triste... Entendo que sofre por não ter informações sobre sua mãe e que se sente perdida por não ter certeza de que é mesmo uma guardiã.
Eu não sei o que poderei fazer para ajudá-la, mas... Tenho que fazer alguma coisa.

Próximo capítulo: Lembranças e investigações


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Capítulo ilustrado em: http://fic-guardians.blogspot.com/2007/12/captulo-catorze-amor-proibido.html


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