- Não acho que seja necessário, senhor. - falou Rin fracamente, corando pelo estado que se encontrava. Há tempos sonhava com esse momento, só que quando ele finalmente chegou, não sabia o que fazer... O que falar.
Ele não a escutou. Ajoelhou-se e esgarçou a manga do kimono, revelando as feridas que deixavam filetes de sangue escapar, assim como os olhos de Rin deixaram as lágrimas deslizarem pela pele pálida, mais cedo. Mas agora não era o coração que doía. Não, ele não mais.
As mãos do dai-youkai eram hábeis e rápidas. Rin sentia arrepios estranhos cada vez que a pele morna de Sesshoumaru tocava a sua, um pouco fria pelo medo anterior - o que não passou despercebido pelo youkai, que se sentia incrivelmente satisfeito com as emoções que causava na jovem inocente.
- Eu realmente tenho que ir. Kaede-baa-chan deve estar preocupada com meu-... – começou a falar, mas foi interrompida pelo olhar fulminante que Sesshoumaru lançou acima de sua cabeça.
- Rin, está tudo bem? – perguntou uma voz conhecida à garota. Era Kohaku.
- Kohaku-kun? O que faz aqui? – admirou-se Rin, que se levantou para ir de encontro ao amigo, mas as mãos férreas de Sesshoumaru seguraram o seu pulso em uma corrente inquebrável, obrigando-a a sentar novamente.
- Vim te buscar para levar-lhe para a sua casa. – ressaltou a última palavra, se aproximando um pouco.
Sesshoumaru ergueu sua cabeça em direção ao garoto, que estremeceu ao encontrar o olhar ameaçador do youkai. O olhar tinha uma espécie de ar lúgubre – que assustou ainda mais Rin.
- Ela não irá a lugar algum. – a voz de Sesshoumaru soou em tom mediano, mas que faria qualquer um temê-lo. Ele era assim quando queria, pensou Rin nervosa pelo o que poderia acontecer. – Então não precisa perder seu precioso tempo conosco.
Kohaku fechou a expressão, pensando fortemente em o que deveria fazer. Era insano enfrentar um dai-youkai sendo um Taijiya tão insignificante, mas também não desistiria de Rin fácil. Se havia que brigar, brigaria.
Rin sabia que a última palavra a pertencia, e já possuía a resposta.
- Kohaku, é melhor voltar para a vila. Mais tarde peço para que Jaken me acompanhe até lá. – falou em sua voz calma e suave, capaz de amolecer ossos.
O Taijiya virou-se enfurecido, indo em direção a floresta e voltando para a vila. Realmente estava contrariado, só que em sua mente ele havia apenas perdido a primeira batalha. A guerra mal começara.
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Rin acomodou-se no emaranhado de mantas que lhe haviam dado para descansar. De onde estava tinha uma visão extraordinária do céu estrelado e com uma lua minguante, que logo a fez lembrar que não estava sozinha.
Jaken fora incumbido de avisar Kagome e Kaede que Rin decidira passar a noite na floresta e que estava tudo bem – mesmo que a jovem nem suspeitasse que o pequeno youkai verde havia sido ordenado anteriormente que sumisse da região por Sesshoumaru.
- Setembro. Foi o último mês que o vi há três anos. Quando me deixou sem dizer por que. – sussurrou Rin apenas para que a potente audição de Sesshoumaru demorasse a captar o recado.
Ele se mexeu desconfortável em seu lugar, estava a alguns metros da fogueira que ele próprio montara para aquecer Rin, encostado em uma árvore. Matinha certa distancia dela, com medo que sua aproximação lhe causasse algum ataque de choro – que estava realmente sendo reprimido. Essa era a vontade da ex-pequena menina: chorar.
Uma brisa quente envolveu Rin, levando seu cheiro doce de canela às narinas de Sesshoumaru. Com os movimentos das árvores, uma pequena florzinha caiu sob o colo de Rin.
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O que eu não sabia naquela época era que a cada segundo desperdiçado seria muito precioso em meu futuro condenado. Só a sensação de saber que eu podia tê-lo ao meu lado, acalentava meu coração medroso.
Era o final de Setembro. Você sempre foi frio, assim como o inverno e o mês em que estávamos. Assim como eu sabia que seu coração estava sozinho, brilhando em um céu cinzento.
Eu estava mudada. Mas já não importava o quanto eu tinha aprendido com tudo aquilo. Eu estava morrendo. Eu estava deixando minha última chance de ser feliz ao lado dele voar como uma folha em uma brisa forte.
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O cheiro forte de óleo queimado despertou Rin. Fazia frio, mas mesmo assim ela não o sentiu. Um cobertor a esquentava.
Uma dor de cabeça insuportável quase bloqueava a visão da garota, que aos poucos sentia os reflexos de uma noite, quase em claro, chorando. Ela sabia que Sesshoumaru a velara de perto, sabendo que a cada lágrima que ela derrubava era por sua grande culpa e que se naquela hora em que Rin hesitara em escolhê-lo era também sua culpa.
A brisa quente mexeu sutilmente os fios de cabelo negros de Rin, deixando-os um pouco mais bagunçados do que já estavam. Sesshoumaru levantou o olhar assim que tomou consentimento de que a garota acordara.
- Bom dia, Sesshoumaru-sama e Jaken-sama. Como passaram a noite? – perguntou Rin como costumava fazer antigamente; e como antigamente, não houve resposta, mesmo que a garota nem ligara. – Parece que o peixe não vai fritar em tanto óleo, Jaken-sama.
Rin ajudou o pequeno youkai a fritar o peixe que alguém pescara antes que despertasse. Ela mal se lembrou que fora abandonada por três anos; o passado voltara como se nunca tivesse partido.
Jaken terminou de comer o último peixe. Estava mais do que cheio – e sua barriga demonstrava também -, se Rin não estivesse tentando bloquear as lembranças ruins, pensaria que o pobre youkai não comia descentemente a um bom tempo. Ocupava-se em ajeitar tudo para quando Sesshoumaru levanta-se e ordenasse que os seguisse.
- Vou me banhar. – avisou Rin com um sorriso. Pegou um kimono limpo – que Jaken possivelmente pegara na noite anterior -, uma toalha para se enxugar e um óleo para banho. Partiu sem nem ao menos olhar para trás; não precisava, ele estava ali.
A floresta, excepcionalmente naquela manha, parecia mais alegre; os cantos dos pássaros pareciam mais melodiosos; as diferentes flores possuíam cada qual sua beleza extraordinária; até as pedras tediosas e silenciosas pareciam emitir uma sensação agradabilíssima. E enquanto a jovem caminhava por entre as árvores centenárias, tentou absorver cada detalhe, decorando cada curva, cada deformação na paisagem – o motivo nem mesmo ela sabia.
À medida que se aproximava do riacho podia escutar o barulho da água se movendo rapidamente. Apertou o passo, notando que a trilha que seguia se abria cada vez mais, deixando os raios de sol tocar sua pele clara como marfim, mas de um modo agradável.
- Bom dia, passarinhos. – falou calidamente se referindo aos beija-flores e rouxinóis que voavam alegremente em sua volta.
Quando finalmente chegou, despiu rapidamente o kimono e adentrou a água gelada. Causou-lhe um frio repentino quando emergiu o corpo todo no rio caudaloso, começando usar o óleo de canela que tanto gostava; assim não percebeu que ao longe, um par de olhos atentos lhe guardava atentamente.