Sentei na cama do Neji, estava naqueles dias de fúria e o treino com Sasuke não havia o feito melhorar, na verdade só havia me deixado ainda mais nervosa e explosiva. Neji estava ocupado com assuntos familiares, os Hyuugas costumavam gastar o tempo deles com reuniões intermináveis sobre o futuro da família e a atual desilusão de Hinata estava criando certo pânico.
Estava meio cansada de esperar, abri a porta e percorri esguia pelo corredor. Segui soturna por um breve período até ouvir a voz máscula e forte de Neji, parei a porta e fiquei ali, parada, minha curiosidade é maior do que meu senso de privacidade ou de meus escrúpulos.
-... É necessário que se case. Um homem casado deve assumir o clã, minhas filhas não são... – não conseguia entender muito bem o final da frase, mas algo ficou em alto e bom som, a palavra casamento. O sonho de todas as mulheres estava dito bem diante de mim.
- Não pretendo me casar! – eu senti uma ponta me atravessando, as pernas bambearam e o ar faltou, o chão rodava sob meus pés e nunca imaginei que teria esse tipo de reação. Eu o conhecia bem, bem o suficiente para saber que dele poderia vir qualquer coisa, além disso, não era a garota ideal para se falar em matrimônio, mas mediante aquilo não sei por que era como se o mundo tivesse perdido a cor e no escuro só ouvisse a voz de Neji me dizendo não.
- Você compreende que está recusando a oportunidade de liderar o clã? – Hiashi parecia tão irritado quanto eu estava sem o norte.
- Compreendo que não vou me sujeitar uma decisão minha a vocês! Não vou me casar e já está decidido. – eu andei para trás, encarei o corredor e corri por ele. Nem ao menos parei para pensar, Neji sabendo que eu estava atrás da porta havia atirado isso na minha cara. Então me vi chorando enquanto corria, chorando lágrimas tão doídas que beirava a ser sangue. Nunca me imaginei chorando por isso.
Pulei uma janela qualquer e corri para o mais longe que pudesse, não voltaria para casa, nem iria até Lee ou Sakura, lugares onde me achariam com facilidade. Queria estar em qualquer lugar se implicasse não estar perto de Neji. Meu peito queimava, sofria como uma tola apaixonada e não haveria copo que afogaria tal magoa. Uma tola, como já diziam, porque o amor é para os tolos e quem disse isso tinha razão.
xXx
Quando dei por mim não acreditei inteiramente no lugar onde estava, a casa do Uchiha se estendia a meus olhos e nem ao menos sabia como havia chegado lá. Fiquei estática no portão, os olhos úmidos e inchados, corada e sem ar. Qualquer abrigo seria bom o bastante, qualquer lugar.
Fiquei ali simplesmente parada no portão, já era alta madrugada e uma garoa fina começava a cair, pensei em chamar, mas a voz não saiu. Não tardou para que a chuva aumentasse, lavando meu orgulho, minha honra e minha vontade de viver, tudo escorrendo por mim num banho maldito, minha alma se esvaia nas gotas de chuva.
- O que faz aqui fora? – Sasuke surgiu do nada, não havia reparado na presença dele ali, distraída demais comigo mesma. Ele ficou me olhando sem compreender qualquer motivo que pudesse me levar até ele e eu também não era capaz de entender as razões que me levaram ali, sabia que meu instinto de sobrevivência havia me guiado.
- Eu... Eu... – desatei a chorar, entre soluços enormes e palavras inaudíveis ele deixou para lá maiores explicações e me levou para dentro, encharcada e enlameada, por dentro e por fora.
- Você está bem? – Sasuke correu a me buscar uma toalha e roupas secas, de maneira até amável e me senti digna de pena por estar sendo tratada assim. O banheiro dele era minúsculo, um tanto menor do que o meu, mas extremamente organizado, podia ouvi-lo perguntar coisas do outro lado da porta.
Sai de lá e só ai me dei conta da situação, eu estava realmente na casa dele, usando roupas dele e encarando aqueles olhos de túnel que nos sugavam para dentro dele, nos abrasava com sua frieza mórbida e infantil.
- Desculpe o incômodo, eu vou... – pensei em voltar atrás e evitar qualquer situação constrangedora, evitar qualquer ato que me fizesse me arrepender depois.
- Hei! Você veio até aqui no meio da madrugada debaixo de chuva. Não vai embora assim, não sem me explicar o motivo disso. – os olhos dele me tragavam de tal modo que já não podia fugir, não queria fugir. O cheiro de criança se espalhava por todas as partes, me contaminando, estava impregnada daquele inebriante perfume.
- Desculpe... Eu... – as lágrimas escorreram involuntárias e me senti uma grande cretina, aquela que acredita em tudo, aquela que realmente acreditou que tudo ficaria bem, que tinha direito ao final feliz.
- Neji? – a chaleira apitou na cozinha e ele me indicou o caminho com a cabeça, eu estava tão perdida em pensamentos que a cada instante a cena se repetia na minha cabeça, cada vez mais dolorosa e mais real, como se na primeira vez tudo não passasse de um sonho e só agora fosse de verdade.
- É... Ele... Eu... – nem Hinata havia conseguido gaguejar tanto, formulava na minha cabeça explicações, mas elas não saiam, as palavras estavam todas engasgadas na minha garganta, arranhando, mas sem serem evidentes.
- Não precisa falar se não quiser! – ele me serviu um chá e ficamos em silêncio por todo o resto do tempo, remoendo dentro de nós nossas próprias dores, muito embora fossemos tão distantes e diferentes, algo nos era comum, a aptidão para sofrer.
xXx
O sol bateu no meu rosto me fazendo perceber que já era dia, demorei um pouco para perceber onde estava. Havia adormecido no sofá, mas acordei na cama, algumas cobertas gentilmente colocadas sobre mim foram empurradas para o lado e vislumbrei Sasuke dormindo sentado numa cadeira.
Fiquei com certo receio de que estar ali quando ele acordasse e numa tentativa quase que frustrada me levantei da cama, ele dormia calmo, a respiração seguia linear e na sua face uma aparente tranqüilidade transpassava. Achei engraçado que uma pessoa tão perturbada fosse capaz de dormir com os anjos.
- Isso incomoda! – ainda de olhos fechados ele retrucou alguma coisa e me arrancou um sorriso forçado dos lábios.
- Achei que estava dormindo. – fiquei sem graça, ele abriu os olhos negros e profundos, que contrariavam os meus rasos que queimavam na superfície tudo o que eu era e me privava de mistérios.
- Por isso decidiu ficar me olhando... – sentei na cama e encarei meus pés, pensativa, o dia já estava alto, já podia ouvir o rebuliço das animadas ruas de Konoha.
- Desculpe! Você parecia tão tranqüilo. – só agora percebi o quão doce ele havia sido de dormir numa cadeira, velando meu sono. Quem faria isso por mim? Nem ao menos Neji havia alguma vez tido esse cuidado.
- Ao contrário de você. – eu era inquieta, tinha pesadelos e nunca conseguia dormir efetivamente, há muito tempo eu realmente não dormia uma noite sem sonhos.
- Eu agradeço Sasuke, pelo que fez ontem... Eu não sabia o que fazer!
- Está tudo bem. – meu primeiro instinto era de ir lá e abraçá-lo, mas me contive, apenas peguei minhas roupas já secas.
Troquei-me, agradeci ainda mais uma vez e sai, tentando ser o mais discreta possível. Queria ir para casa, tomar um banho e voltar a dormir, Tsunade que me perdoasse, mas me recusava a fazer qualquer outra coisa.
Sentia a dor tão latente e real em mim, meu peito sufocava em uma mágoa que não se esvaia, atrelada a mim de tal forma que sempre me remetia àquela voz na escuridão. A solidão é mais triste que a escuridão, mas agora estava presa nas duas. Acorrentada ao meu maior sofrimento e sofrendo por algo que nunca me imaginei capaz de me importar.
Abri a porta, exaurida e chorosa, os olhos ainda inchados encontraram Neji sentado em meu sofá, encarando a porta. Bati a porta a minhas costas e me recostei nela, pronta a deslizar até o chão, desistindo por completo.
- Onde esteve? – os olhos cintilantes e resplandecente me olhando, num misto de pena e de tristeza, não podia negar que ele estava abatido.
- Não é da sua conta... – a voz faltou fraca e não convincente. Senti-me uma estúpida por não conseguir encará-lo, pela primeira vez não era eu quem tinha feito algo, pela primeira vez não sentia culpa, mas piedade e isso era muito pior.
- Eu queria te explicar...
- Mas eu não quero ouvir! – deslizei lentamente pelo chão, atirada no chão frio e áspero, as pernas junto ao corpo, me balançando lentamente, como uma criança assustada.
- Tenten... – ele parecia tão perdido, por um momento achei que fosse dizer qualquer coisa que fizesse tudo voltar ao normal, mas não disse. Nada poderia ser dito.
- Pára... Eu não quero ouvir, me deixa em paz! – meus joelhos estavam molhados com minhas lágrimas e eu chorava. Apenas isso. Chorava como nunca chorei, desde que perdi minha família nada havia perturbado meu aparente estado de desinteresse, mas estava ali, uma criança buscando ajuda.
Ouvi os passos dele, mas não me voltei para olhar. Suas mãos me levaram ao encontro dele e sem dizer nada me carregou no colo, junto ao seu peito, de encontro com seu coração e ouvi seus suspiros latentes.
Deitou-me na cama e com as costas da mão enxugou meu rosto. Fechei meus olhos e ele se foi. Não era ainda o momento de falar nada, precisávamos de tempo, precisávamos de espaço e de silêncio.