Estava eu debruçada no balcão, meio cochilando, o atendente já acostumado com a minha incomoda presença em seu estabelecimento porco, fétido e falido já nem ligava mais para o que eu estivesse a fazer ali.
Sasuke sentou-se ao meu lado, nenhum de nós dois havíamos consumido álcool algum, o que tornava a hipótese de uma conversa algo meio distante de nossas realidades, mesmo assim ainda arrisquei uma palavra qualquer, presumindo a fúria que se abateria sobre mim e a destruição daquele maldito casamento.
- Desculpa... – meus olhos se mantinham presos numa sedutora garrafa de uísque que me chamava num delicado encantamento, quase que em sussurros mórbidos.
- Não se sinta culpada! – estranhamente não esperava ouvir isso dele, na verdade não entendia nada de Sasuke, não sabia nada dele. A única coisa que tinha certeza é que ele era ótimo na cama e isso não ajudava muito no momento.
- Não sei o que dizer, achei que era certo! – gostaria de me afogar naquela garrafa tão tentadora, mais um porre e todos os meus problemas iriam para o espaço. Era incrível como eu achava que tudo poderia se resolver com copos e mais copos de alguma substância que me lavasse a alma e me arrancasse o juízo.
- Eu já tinha falado com ela... Acho que só descontou a raiva em você... – ele pareceu impassível como sempre, com seus orbes ônix que se perdiam num túnel escuro e sem fim, dava pra compreender o que Sakura via nele, era tragada por aqueles olhos. Era fácil se perder em Sasuke.
- Com razão! – disse isso para as paredes porque ele já desaparecia pela porta, deixou alguma coisa para me pagar à bebida que não me acompanharia, só larguei o dinheiro ali e fui embora.
Estava um breu do lado de fora, uma noite gelada de outono e o único som que escutava era dos meus próprios passos. Queria não ser tão patética. Agora, iria para casa afogar minhas mágoas num litro idiota de vodca escondido atrás do armário ignorando o fato de amanhã acordar com uma ressaca idiota que vai me perseguir como uma sombra ao longo do dia.
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Pude escutar pelos cantos das ruas as inúmeras considerações pelo fim do noivado, óbvio, muita gente especulava traição, mas muito embora eu merecesse nada foi mencionado sobre mim.
- Ei, Tenten! – ouvi uma voz que há tanto tempo não escutava, enquanto rodava pelo mercado, no meu carrinho inúmeras guloseimas gordas da qual não me orgulhava por comer.
Olhei para aqueles olhos azuis, para aquela loira escultural e senti uma ponta de inveja, uma ponta é pouco, me corroí de inveja por ela ser linda, ser tão magra e sustentar em seu ventre uma criança que seria tão perfeita quanto ela.
- Olá Ino! – acenei, fingindo um sorriso, na verdade não estava muito disposta a conversas exaustivas sobre suas técnicas imbatíveis de beleza e o que fez o kazekage se atirar aos seus gloriosos pés de uma loira poderosa.
- Fiquei sabendo sobre o fim do casamento da Sakura! – me olhou como se quisesse arrancar do fundo da minha alma a verdade, contudo já sabia que ela era uma das confidentes favoritas de Sakura e minha falta de bom senso e acumulo de álcool no corpo já tinha sido denunciada a ela.
- Uma coisa inesperada! – tentei esconder com desespero um bolo pronto coberto e de aparência engordurada, mas isso seria em vão, afinal não era sobre meus maus hábitos alimentares que ela pretendia falar e sim sobre meus maus hábitos de vida.
- Não precisa fingir... Ela já me disse! – não me fiz de surpresa apenas segui com a cabeça centrada em encontrar a lata mais calórica de leite condensado que pudesse achar. Garota deprimida mais problemas que não se resolvem é igual ao consumo exacerbado de gorduras saturadas.
- Quando nasce? – perguntei, sem qualquer interesse, aquela criança linda, rica, forte e cheia de atributos que seus pais lhe forneceriam era causadora da mais profunda angustia que poderia abater alguém.
Não era o fato de não estar feliz por ela, mas em mim tinha certa aversão ao fato de ser mãe. Neji jamais aceitaria isso, nunca colocaria no mundo uma criança que pudesse viver o que ele viveu, nunca colocaria na face dessa terra um desafortunado Hyuuga desprezado e fadado a ser meramente um servo. Se por algum instante havia uma ponta de vontade de sentir dentro de mim o crescer de uma vida, isso morria involuntariamente nos olhos frios e perolados dele.
- Mês que vem! – Ino deu um breve sorriso exibindo seus lindos dentes de porcelana e acentuou ainda mais a minha irritação diante de sua presença. Ela ainda sussurrou algo para si e voltou a me falar. – Ela me disse que contou pessoalmente. Apesar de irritada, Sakura é incapaz de odiar alguém... Ainda mais você!
Eu sorri dessa vez não era mentira, deveria me lembrar do feitio doce e meigo de Sakura, ainda não tinha coragem de lhe dirigir a palavra, mas aliviava meu peito saber que ela não estava rancorosa quanto ao meu erro fatal e voluptuoso, remetida então ao pecado original cheio de luxúria e vago de sincera atenção.
- Senti medo que me odiasse pelo resto da vida...
- Não seria capaz, e imagino que tenha algo extraordinário para falar sobre isso, uma desculpa plausível e aceitável que nos fará cair em lágrimas em seu favor. - vi Ino observar meu carrinho e fechar os olhos desaprovando o que via, como uma kunoichi experiente poderia se alimentar de junkie food da pior espécie.
- Se soubessem... – talvez não caíssem em lágrimas ao meu favor, mas saberiam que não havia qualquer toque de sobriedade ou lucidez naquela Tenten que se auto degradava para apagar o desprezo e o descaso das noites ao lado de Neji.
- Imagino. Acho que você precisa de alguém que te ame, deveria tentar... Quem sabe encher esse ventre com algo mais do que comida ruim! – ela piscou e se foi, me deixando ainda pior do que estava quando a encontrei.
Era mulher, isso me remetia a recaídas e a vontade de ter um sopro de vida abrigando-se carinhoso dentro de seu ser. Ora, por que negar a mim mesma, não era infrutífera, mas sabia bem que se um deslize desses me ocorresse seria largada a própria sorte e minha cria arrancada me mim num corte profundo e doloroso. Não era uma idéia viável.
xXx
Estava atirada contra o sofá, exausta, na casa nem vestígio de minha sujeira acumulada por tanto tempo, nem mais uma lata velha e vazia de cerveja jazia nos cantos solitária, assim como sua dona. Recém saída do banho não me dei ao trabalho de me vestir, fiquei atirada de roupas íntimas em meu velho e fedorento sofá.
Ouvi-o caminhar após pular minha varanda, soturno e silencioso, mas ainda assim reconhecia pelo seu cheiro de creme de barbear. Amava aquele cheiro. Vi sua sombra inundar a pouca luz do abajur e me permiti por alguns poucos instante abrir meus olhos e encará-lo, a máscara da ANBU foi largada sobre minha mesa de centro.
- Não vai se vestir? – ele pareceu indignado pelo fato de estar seminua em minha casa, como se houvesse em mim algo que ele nunca tivesse visto. Era apenas hipocrisia conservadora, conhecia como ninguém cada parte de meu corpo.
- Por que deveria? Não há nada aqui que ainda não tenha visto... – resmunguei mais para mim do que pra ele, depois de ver Ino aquela tarde estava muito mais mal humorada do que qualquer outro dia. Ela e sua irritante felicidade.
- E se não fosse eu? – estranhamente ele estava sendo gentil e falando com doçura, desde nossa última conversa sobre minhas idiotices e meus pedidos sinceros e desesperados de perdão não o via.
- Quem mais seria? – ri da ingenuidade dele, deveria saber que ninguém mais pulava minha janela e caminhava sorrateiro, como se eu não fosse capaz de percebê-lo. Neji deveria saber que sou capaz de senti-lo à distância. Uma coisa percebe seu dono.
- Não sei... – fitamo-nos por infindáveis segundos que duraram uma pequena eternidade, parte de mim não compreendia a visita. Mas quando foi possível entender o que se passa na cabeça do gênio Hyuuga?
Ele me abraçou, sem que eu pedisse ou recorresse aos meus tão usuais pesadelos, apenas por que queria. Percebi que cheirava meus cabelos, percebi que buscava em mim alguém que pudesse afogar-se por completo. Entorpecida demais para evitar afaguei-lhe os cabelos e o deixei sentir minha cintura, como uma criança inocente a procura do conforto do colo da mãe.
Não havia nada de inocente em nossos encontros. Certa vez ouvi que amar é a eterna inocência, pensando assim não havia nem um pingo de amor em nós. Mas, íamos sempre aos extremos, não amávamos, fazíamos amor. Com toda a nossa volúpia corrompida nos refugiávamos no outro a fim de esquecermos por completo quem éramos.
- Deixe-me cuidar de você... – as palavras vazaram por minha boca, sem pretensão alguma, apenas queria sentir toda aquela necessidade que ele tinha de mim. Quando exatamente nos tornamos tão dependentes dessa droga tão deliciosa que era o perfume do outro?
Beijei-lhe a testa, o nariz, seus lábios, prosseguindo delicadamente numa trilha tola de carícias. Sentia-o estremecer lentamente em meus braços, quem diria que um gênio se entregaria tão facilmente a meros toques femininos.
- Não... Deixe que eu cuide de você! – ali quem mais precisava sem dúvida era eu, precisava de braços fortes que me abrigassem da minha própria incapacidade de resolver problemas pessoais, precisa de um corpo quente que me envolvesse e me fizesse esquecer do nada que eu era.
Tomou-me nos braços, me deitou na cama e admirou o que via, acho que antes disso jamais havia vislumbrado meu corpo realmente, a única coisa que fazia era apalpá-lo desesperado. Beijou meus pés, meus tornozelos, minhas pernas e se deteve na inevitável dádiva de dedicar-se a dar prazer a outro.
Teve-me como sempre deveria ter sido, calmo, amoroso, carinhoso. Não era como se eu fosse um objeto ou coisa parecida, pela primeira vez me tratou como uma mulher que merecia mais do que saciar-se na forma carnal, mas que precisava de uma presença a quem pudesse afogar-se por completo.
Acordei assustada, mais um de meus pesadelos que tinha na infância. Lembro-me de recorrer aos abraços e sussurros de meu pai quando isso ocorria sempre me dizendo que tudo estaria bem, que sempre haveria alguém por mim. Estranhamente Neji ainda estava ali, abraçando minha cintura e me olhando. Amei-o por isso, amei-o por estar ali.
Certa vez ele disse que quando eu dormia não era sensual nem nada desse tipo, era uma garotinha inocente transpirando pecado, acho que por isso nunca gostei que ele me olhasse dormir, preferia quando adormecia ali e eu podia ver seu peito se erguer e voltar a se colocar no lugar, numa respiração profunda e pesada. Mas naquele instante não me importei de me deparar com seus olhos perolados sobre mim, iluminando meus sonhos.