A Rosa entre Espinhos
Capitulo XXII
Por Josiane Veiga
Allan Hatton fechou o sobretudo, demonstrando que estava com frio. Fazia apenas um dia que saíra da cama, onde convalescia, e já enfrentara uma maratona que incluíra um velório e enterro da mãe de Ian. Passou a língua pelos lábios e os sentiu ressecados. Se a febre voltasse, poderia ter problemas.
Virando-se em direção ao homem que sentava em uma poltrona imponente na enorme sala, indagou:
-Tem certeza do que me disse, La Tere?
O médico Brian de La Tere levantou os olhos e encarou o jovem advogado que estava visivelmente impaciente.
-Absoluta.
Os olhos de Allan então deixaram o doutor e foram até a porta. Quase como se adivinhasse que o aguardavam, Ian abriu a porta, acompanhado pela esposa e entrou.
-Ian! – o loiro exclamou – precisamos conversar!
Junto do marido, Mairi levantou uma das mãos, a pousando no peito do amigo.
-Allan, em outra hora, por favor. Acabamos de enterrar Lady Dorothea.
-Mas é urgente...
-Não Allan! – Mairi disse enérgica. –Agora não! Ian precisa descansar. Ele ainda não dormiu. Passou toda a noite velando a mãe.
Olhando ao redor Allan procurou um relógio. Um móvel enorme de madeira mantinha um belo medidor do tempo. Surpreso, Allan percebeu que já era de manhã.
Ainda pensou em argumentar, mas os olhos inchados do irmão denunciavam que ele estava arrasado.
-Tudo bem... –disse contrariado.
Sentia-se derrotado como nunca antes fora. Precisa falar sobre a descoberta do doutor Brian senão enlouqueceria. Ia tentar persuadir Mairi a ficar na sala e ouvir a conclusão do médico, mas quando abriu a boca, percebeu que os olhos da amiga olharam para o topo da escada.
Seguindo o olhar dela, viu Annie Webster, imponente e com a cabeça elevada, descendo. Estava deslumbrante em um vestido marrom felpudo, que destacava os cabelos loiros e brilhantes. Havia se banhado e estava incrivelmente maquiada. Perto de Mairi, que havia passado a noite em claro, parecia a mulher mais incrível que ele já vira.
Mas somente parecia.
Hatton sabia que aquela arrogante nunca chegaria nem aos pés da amiga.
-Annie Webster... – Mairi murmurou.
Já havia se passado muito tempo desde que vira a moça no castelo. O último encontro fora antes de ela ir embora para Londres. Acreditava que Ian se casaria com a Lady e fugiu. Logicamente a vira de relance e ao longe durante o velório, mas como a moça não participara do enterro, achou que a mesma tivesse ido embora.
-Lady Annie Webster para você, mocinha! – falou como se Mairi não passasse de uma simples empregada - Onde está a sua senhora?
O questionamento foi feito numa total arrogância, e sem o menor respeito. Annie parecia despeitada e raivosa. Chocado Allan percebeu que a loira havia reconhecido Mairi como a empregada que lhe servira há muito tempo atrás na mansão. Ou era isso, ou ela era muito mesquinha e tentou inferiorizar Mairi sabendo do passado da mulher de Ian.
-Webster – ele disse alto, ignorando o título nobre de Annie - quero lhe apresentar Mairi McGreggor, esposa de Ian.
A boca da loira abriu-se e ela tentou fingir surpresa, mas a interpretação foi tão amadora, que Allan irritou-se. Iria a recriminar, mas Ian o interceptou.
-Annie e sua mãe ficaram conosco durante alguns dias... – a voz do moreno elevou-se um pouco. Era como se ele acabara de perceber que havia outras pessoas na sala – agora, se vocês puderem me dar licença...
Retirando a mão de Mairi de seu braço, ele subiu a escada indiferente aos que ficavam para trás. Ao passar por Annie, fez uma rápida reverência e foi em direção ao quarto sem nem sequer olhar em direção a esposa.
Mairi quase segurou as lágrimas de raiva após o a atitude do marido. Ele parecia envergonhado de sua presença e tentasse escapar de alguma forma. Ela podia tentar justificar sua atitude pelo drama que acabara de viver, mas Ian em nenhuma vez durante o velório e enterro a afastou como acabara de fazer, na presença da outra mulher. Levantando os olhos, Mairi percebeu que a outra sorria. Segurou-se no braço de Allan para impedir a si mesma de subir as escadas e esbofetear a loira.
Mas o que estava acontecendo? Nunca antes reagira assim! Reconheceu o ciúme. Respirando fundo tentou se acalmar. Estava com os nervos em frangalhos e era muito provável que Ian nem percebera o que fizera. Também estava nervoso.
-Mairi, precisa entender que o doutor Brian tem algo muito sério para falar com você e Ian.
A voz de Allan a tirou do devaneio. Enrubescida, notou que ele já lhe falara algo antes, mas ela não prestara atenção.
-Mas Ian está cansado...
-Você também, mas é urgente...
Com os olhos claros ainda fixos em Annie, Mairi a viu terminar de descer majestosamente a escada. Parecia uma corça flutuando sobre um lado. Como uma mulher conseguia ser tão escandalosamente perfeita? Sentia-se uma pata gorda perto dela. Mas tentou permanecer firme e agir como boa anfitriã.
-Gostaria de comer algo? Posso solicitar a minha empregada para arrumar o café da manhã.
-Tem muito que aprender ainda, não? – disse Annie sorrindo, mas claramente desdenhosa – O café da manhã já devia ter sido servido em meia hora.
Enrubescida, Mairi percebeu o erro.
-Desculpe-me – balbuciou nervosa.
Não sabia mais o que falar. Mas percebendo a situação constrangedora, Allan veio em seu socorro.
-O Café da manhã não estava servido porque a Senhora do castelo não sabia que tinha convidados. E se você reparar bem, perceberá que tivemos um velório ontem e um enterro esta manhã, e Milady ainda nem descansou.
Allan só notou o tom irado da voz, quando terminou de despejar as palavras. Se Annie Webster ousasse retrucar Mairi, ele lhe pegaria pelo pescoço e lhe expulsaria da casa, com um belo chute no traseiro.
Sentiu o sangue esquentar de indignação.
-Perdoe-me se fui indelicada... – a loira disse ainda sorrindo, querendo acalma-lo.
Ela sabia muito bem que o advogado era o melhor amigo de Ian e que muitas mulheres perderam a chance de ter algo mais sério com o moreno, pelo simples fato de tentarem desprezar Allan pela origem simples. Annie não cometeria o mesmo erro!
Tentando apaziguar o ar pesado da sala, o médico La Tere levantou-se da poltrona.
-Milady – disse a Mairi – realmente precisamos conversar, mas sei que a senhora está muito cansada. Se for possível, posso repousar em algum dos quartos e mais tarde conversaremos.
Mairi parecia aliviada perante a sugestão. Mas Allan não.
-Mais tarde? Mas o que o senhor precisa dizer, não pode esperar!
-Milady está grávida, Sr. Hatton. – o médico o lembrou.
Envergonhado Allan virou-se em direção a Mairi. As olheiras dela estavam profundas e sua respiração pesada.
-Me desculpe, meu amor...
Tarde demais ele percebeu do que a chamou. Olhou rapidamente para Annie e viu que ela estava chocada. Droga! Ele sempre a chamava de maneira carinhosa quando estavam sozinhos ou na presença de Ian, mas nunca com estranhos. A mesquinha Lady agora acharia que Mairi e ele eram amantes? Sabendo também que qualquer frase que pudesse dizer, iria complicar mais a situação, Allan apenas beijou a testa da cunhada e saiu.
Totalmente ignorante ao choque dos demais membros da sala, Mairi tocou a sineta. Jane apareceu rapidamente.
-Jane, por favor, acompanhe a senhorita Webster para o café da manhã – e virando-se em direção ao médico, o convidou para acompanhá-la.
Após deixar La Tere em um dos quartos que estava sempre pronto para visitantes, Mairi se encaminhou até a porta de Ian. Quando entrou no quarto dele, percebeu que o mesmo dormia. Aproximando-se da cama, acariciou-lhe a face.
O amava mais que a própria vida. Se pudesse, suportaria a dor por ele.
Deslizando os dedos frágeis por entre os cabelos escuros, Mairi segurou por um instante a respiração. Ian era tão bonito que chegava a doer. Devagar ela traçou a linha de seus lábios com o indicador, e delicadamente fez a curva das sobrancelhas grossas e negras do marido.
Ele nunca poderia saber o quanto ela o desejava. Chegava a doer, tamanha a intensidade dos sentimentos.
E talvez fosse por isso que lhe doera tanto saber que ele convidara Annie Webster e sua mãe para uma temporada em York, sem nem ao menos lhe consultar. Uma parte dela lhe dizia que Ian nada precisava lhe perguntar, porque ela era inferior a ele em nível social, mas um outro sentimento se sobressaia a esse.
Era a mãe do filho dele! E era sua esposa! Era a mulher que a noite lhe oferecia o corpo... para... Envergonhada ela percebeu que não era realmente a mulher de Ian. O fato de ele lhe acariciar intimamente nada lhe outorgava de autoridade.
-Mairi...
Ela sorriu a Ian quando ele abriu os olhos. Sentada ao lado da cama, viu-o pegar sua mão e a beijar.
-Durma querido. Sei que está cansado.
-Não sei bem o que sinto, Mairi.
-Está esgotado, amor. Deixe o tempo fazer seu trabalho, e assim que essa dor passar você vai perceber que tinha sentimentos profundos por sua mãe.
Ian virou-se com a barriga para cima. Com um dos braços atrás da nuca ele olhou para o teto.
-Como o mundo é injusto, não? Você sempre quis ter uma mãe, mas o destino não lhe deu essa felicidade. Eu, no entanto, que tive uma, não lhe dediquei o menor amor. Talvez o que eu sinta agora seja culpa.
-Não diga isso. Foi um bom filho. Cuidou de sua mãe como pode. Não se culpe se Lady Dorothea não se permitiu amar. Agora acabou. Tenho certeza que as últimas semanas serviram para que você e sua mãe demonstrassem amor um ao outro. Tudo que podia ter feito por ela, você o fez. Agora não a mais nada a ser feito.
Suspirando, ele mudou de assunto:
-O que Allan queria?
-Não tenho idéia. Subi logo atrás de você. Quando estiver melhor, vamos procurá-lo para saber.
Mairi esfregou uma mão na outra e acariciou o vestido. Sabia que devia sair do quarto e deixar Ian descansar, mas não teria paz antes de conversar um assunto importante com ele.
-Ian, fiquei magoada pelo fato de ter convidado as Ladys Webster sem me consultar.
Ele virou os olhos e a observou. Mairi parecia envergonhada de trazer o assunto a tona num momento como aquele.
-Desculpe, mas precisava lhe dizer isso. A idéia de que nosso casamento fosse real foi sua.
-Nosso casamento é real! – ele afirmou veemente.
-Nosso casamento nunca será real enquanto você não me possuir. – ela disse, quase engasgada.
-Um relacionamento não se baseia apenas em sexo.
-Obvio que não. Mas sexo é importante, pois liga as pessoas. É o ato que torna dois amantes em um apenas.
Ian molhou os lábios com a língua. A mulher a sua frente teria consciência do quanto ele a desejava? Muitas vezes, naquelas noites em que ele a afagava até vê-la ter orgasmos, quase perdia o controle. Mas ficou firme, pois Mairi era uma mulher marcada pelo estupro, e ele não era tolo ou imbecil para pensar que uma mulher sensível como ela poderia ter sentido algum prazer na primeira relação que tiveram naquela tarde, na casa de Emily.
-Não convidei Annie e sua mãe. Elas se convidaram. Não quis ser indelicado – disse por fim, fechando os olhos e encerrando o assunto.
Sentiu que o peso na cama se estabilizava e adivinhou que ela se levantou.
-Onde vai?
-Vou tomar um banho.
-Depois... Por favor... Banhe-se depois. Preciso de você agora...
Ele ouviu os passos dela se aproximando. Abriu os olhos imediatamente.
-Ian, quero ser sua mulher de verdade.
O pedido foi tão baixo, simples e direto que ele estremeceu. Se ela não parasse com aquilo, ele perderia o controle.
-Não precisa fazer isso para me consolar, Mairi. Satisfaço-me com sua presença.
Ian sentiu o peito se estufar, tamanho seu ego. Sentia-se o maior dos homens por estar abdicando de um direito marital, por amor a ela. Mas quando viu um livro que antes repousava sobre uma mesa, voando contra seu rosto, percebeu que Mairi não era da mesma opinião.
-Vá para o inferno, Ian McGreggor!
E ela caminhou em direção a porta. Quando percebeu que a esposa iria deixar o quarto, ele saiu do estado de torpor que o choque com o livro o tinha deixado, e saltou em direção a ela.
-Mairi, o que houve?
Segurando a esposa pelo braço, notou as lágrimas em seus olhos.
-Não sou tola, Ian! Reconheço que minha aparência nunca foi capaz de enlouquecer um homem. E agora, grávida, gorda e cansada não sou nada perto de Annie Webster. Não é à toa que ela me olha como se eu fosse uma coitada que você recolheu da sarjeta por pena!
Era ciúme! Mairi reagia daquela forma por puro despeito amoroso. E ele adoraria se aproveitar daquela situação, mas não sabia ao certo se poderia fazer aquilo.
-Não diga asneiras! – seus olhos maliciosos abrandavam as palavras duras – você é a única mulher que quis na vida...
De repente toda a determinação de não possuí-la caiu por terra. Claro que o fato de Mairi aproximar-se e encostar seu quadril ao dele rebolando contribuiu bastante para ele perder totalmente o domínio sobre si mesmo.
Abraçando sua esposa, a encostou à porta. A boca desceu a dela, e maravilhado, viu Mairi retribuindo o beijo. As línguas dançaram uma contra a outra, numa ânsia inexplicável.
Mairi gemeu quando Ian lhe segurou as nádegas e lhe apertou contra ele. Imediatamente reconheceu o volume firme contra si, mas ao contrario de tudo que imaginou, não sentiu medo, nem nojo. Abraçando mais forte os ombros fortes de Ian, ela sentiu uma pulsação forte na pélvis e maravilhou-se com a própria feminilidade que se permitia amar aquele homem maravilhoso.
-Me ame Ian...
-Eu já amo, sua tola... – ele riu.
Puxando o vestido para cima, ele segurou as coxas nuas e a ergueu. Mairi percebeu imediatamente sua intenção e enroscou as longas pernas na sua cintura. Assim que a teve presa, ele a levou até a cama.
Como ela estava dominada pela fome da paixão, não notou que ele tentava desesperadamente ir com calma.
-Pare Mairi. Se continuar assim, não vou conseguir nem tirar a roupa.
Ian imediatamente lembrou-se da vez em que a possuiu vestido, sem dar-lhe carinho, a tratando de qualquer forma, menos da maneira como ela merecia. Desta vez tinha que ser diferente.
-Se você quer tirar a roupa, tire de uma vez...
Gargalhou ao ouvir a voz zangada dela. Puxando o vestido de Mairi para cima ele maravilhou-se com o corpo perfeito, mesmo com a barriga enorme.
-Os meses se passaram e logo você vai ganhar nosso filho.
Mairi passou os dedos rapidamente pelos botões da camisa dele.
-Se você quiser conversar agora, nos podemos parar, mas acho que não estarei tão animada para bater papo.
Ele segurava-se para não rir. Era hilário assistir ao desejo dela, saltando as vistas. Mas precisava falar se não iria pular em cima dela e a possuir sem nenhuma preliminar. A conversa o segurava! Estava forte demais a atração que os envolvia.
-Pode parecer ridículo... mas estou começando a temer que podemos machucar nosso filho.
Percebeu então que ela riu. E ver os seios dela, subindo e descendo, o levou a loucura.
-Você nem parece ... – ela parou imediatamente a frase. Quase havia dito a palavra “irmão”, mas conseguiu impedir de contar o segredo a tempo. Respirando fundo, continuou – nem parece amigo de Allan Hatton. Ele me contou que leu em algum livro que o sexo para uma mulher grávida, ajuda na própria gravidez, dando conforto a criança.
Ian acompanhou a risada, deliciosamente. Descendo a boca até um dos seios dela, comentou.
-Eu devia sentir ciúmes de saber o tipo de assunto que você e Allan conversam.
-Allan e eu somos dois desavergonhados. – ela gemeu ao sentir que ele lhe mordiscava o seio.
Se marido esperava que ela se lubrificasse para lhe possuir, já estava passando da hora, porque Mairi já apertava as próprias pernas, uma contra a outra, tentando aliviar o desejo descomunal que a invadia.
Terminando de tirar as próprias roupas, Ian lhe segurou as pernas. Colocando-se na entrada da esposa, ele a beijava com desespero. Gemendo, Mairi levantou os quadris, mas ele se afastou imediatamente.
-Calma Sra. McGreggor!
-Ian, não suporto mais... por favor...
Olhando nos olhos dela, Ian começou a possuí-la. Era tão devagar e com calma, como se pedisse autorização para cada investida. Quando a completou, parou e esperou. Ela o encarou sorrindo.
-Não doeu... –ela parecia maravilhada com o fato.
-Não amor..não doeu agora e não vai doer nunca mais...
Recuou um pouco, mas após avançou. Mairi abriu a boca e soltou um gemido rouco. Deitando a cabeça nos ombros dela, ele também se entregou. Começaram a dança sensual de duas almas apaixonadas.
Ian sentiu os dedos firmes dela nas suas próprias nádegas e adorou a ousadia. Iria desmaiar de tanta paixão e desejo. Começou a se movimentar mais forte e então, cada parte do seu próprio corpo começou a ficar sensível ao dela. Os bicos dos seios firmes da mulher nos pêlos de seu peito, as pernas que se enroscavam nas suas, a pele molhada que de tão unida que estava a sua, misturava-se ao próprio suor.
Quando chegaram ao clímax, tudo que ele pensou foi no quanto a amava. No quanto esperou por aquele momento e o tanto que era irônico que o momento acontecia após um enterro de sua própria mãe.
Quando sentiu o orgasmo o inundando, Ian a deixou atingir o ápice primeiro. E só após ouvir o ultimo suspiro delicado dela, ele saiu de dentro da esposa, mas deitando-se ao seu lado, a puxou contra ele.
-Ian...
-Eu sei, foi muito bom. – ele disse, satisfeito consigo mesmo. – obrigado...
Apertando o moreno com toda a força de que era capaz, ela gemeu.
-Ian...amo você... amo muito.
-Eu também, amor... agora descanse...
E fechando os olhos, os dois descansaram da noite em claro e do momento de amor ao qual participaram juntos.
ººººººººººººººº
-Por favor, se acalme! – Jane disse pela quarta vez naquela tarde.
-Os dois não desceram para o almoço, e já estamos no final da tarde! – Allan esbravejou – eu preciso expor a eles o que sei!
Se não estivessem com visitas na casa, Allan já teria subido ao quarto de Ian e lhe obrigado a ouvir. Desconfiava que Mairi já se encontrava lá, mas não ficou magoado pela falta dela em não lhe contar que os dois voltaram as boas. Tudo naquelas últimas semanas aconteceram tão rapidamente, que provavelmente ela não achou um tempo disponível.
Um barulho chamou sua atenção, o tirando do devaneio.
-Graças aos céus! – exclamou ao ver o casal descendo as escadas.
Mairi sorriu ao amigo. Estava de braços dados com Ian, e notou que Allan, assim como Brian os aguardavam na sala.
-Ian, precisa chamar aquele idiota do Steph Morris ao castelo! - Allan nem o esperou sentar. Estava tão nervoso que já foi contando tudo que podia. -Sua mãe foi envenenada!
Olhando o loiro como se estivesse louco, Ian sentou-se na poltrona. A esposa se acomodou em um sofá de veludo próximo ao médico.
-Minha mãe teve uma parada cardíaca, Allan. – disse calmamente.
-Lamente Milordy, mas o Sr. Hatton está com a razão. Infelizmente sua mãe morreu envenenada. Pude constatar isso logo após o falecimento.
Ian ficou chocado.
-Meu Deus! E por que não me disseram nada? Deviam ter me contado isso há horas. Vou mandar agora mesmo um mensageiro a polícia.
-Não contei por causa do momento. Achei inconveniente... - desculpou-se o médico.
-Acredito que o assassino de sua mãe seja o mesmo que matou Eleanor. – falou Allan rapidamente.
Ian levantou-se e caminhou até a lareira.
-Mas como alguém envenenaria minha mãe?
-Foi o chá, Ian! – Allan praticamente gritou. – eu desconfio disso há muito tempo, por isso não deixei Mairi beber o chá.
Ian olhou para o médico.
-O senhor encontrou veneno no chá?
-Sim, no bule havia pequenas folhas de cicuta.
-Cicuta? –Mairi gemeu- dizem que foi o veneno que matou Sócrates.
-Mas, porque você e eu estamos vivos? Não foi somente minha mãe que bebeu o chá. – perguntou Ian ao médico.
-A resposta está na quantidade de cicuta colocada no bule. Foi tão pouco veneno que praticamente não nos deu nada, apenas talvez um mal estar, que facilmente confundimos com o sentimento de tristeza pela nossa presença em um enterro. Mas como sua mãe estava muito doente, a planta foi o bastante para matá-la.
-Ou seria o bastante fazer uma mulher abortar... – Allan completou.
Mairi sentiu as pernas bambearam. Levantou-se rapidamente e se aproximou de Allan. Mais uma vez ele lhe salvara. Abraçando o amigo ela sentiu o conforto tão conhecido.
-Meu Deus Allan, estou apavorada! Eu podia ter perdido meu filho...obrigada...
Pousando uma das mãos no ventre dela, ele sorriu.
-Tenho que salvar meu afilhado, não?
Lágrimas brotaram nos olhos claros de Mairi. O que faria se realmente tivesse perdido a criança que já lhe era tão cara?
Um barulho então rompeu pela sala. Steph Morris entrou rapidamente, com James em seu encalço.
-Senhor, tentei impedir o Sr. Morris de entrar sem ser anunciado, mas não consegui. –desculpou-se o mordomo.
-Tudo bem James. Pode sair.
Ian foi até Steph e lhe apertou a mão.
-Pelo jeito já sabe que minha mãe faleceu.
-É por isso que estou aqui! – disse afastando-se do jovem duque.
Caminhando em direção a Allan, o investigador estendeu a mão. O loiro afastou delicadamente Mairi e, apesar de contrariado, levou a mão à de Morris, com a intenção de a apertar. Mas quando as duas mãos se uniram, sentiu algo pesado no pulso.
Uma algema!
-Allan Hatton, o Sr. está preso acusado pelo assassinato de Eleanor e Dorothea McGreggor!
Continua...