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[Original] A Rosa entre Espinhos

Capitulo XXI


Autor: ~JosianeVeiga

Categoria: Misc/Originais

Gênero:

Tags: amor, paixão, assassinato, terror

Personagens: Mairi, Ian, Allan

Classificação: 18+

Adicionado em: 28/04/08

Comentários/Favoritos 9/9

Caracteres: 17.219

Exibições: 188

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Nota: Nota: 5 

 


A Rosa entre Espinhos

Capitulo XXI

Por Josiane Veiga


Perpetua levantou o capuz da capa negra, cobrindo a cabeça e tentando desesperadamente aquecer-se. Respirou fundo e pensou que se ficasse mais um pouco exposta aquele vento gelado, acabaria tão doente quanto Dorothea e Allan.

Caminhando lentamente de um lado para o outro pelas sombras da noite, observou o lugar em volta. De todos os lugares pensados para aquele encontro, ela realmente foi escolher a pior opção. As florestas, com suas copas frondosas estavam cobertas pelos flocos de neve e nem mesmo algum animal noturno havia saído de sua toca.

Mas ela não tivera escolha!

É claro que de tudo que gostaria de estar fazendo nesta madrugada fria, a prioridade seria estar dormindo quentinha na sua cama macia, mas não podia.

-Perpetua, de todas as loucuras que já a vi fazendo, esta foi a maior. Marcar um encontro durante a madrugada, em pleno inverno... –ela ouviu uma voz murmurando.

Reconheceu o som imediatamente e virou-se em direção a figura alta que se encontrava próxima.

-É urgente. Ainda não consegui realizar o plano.

-Às vezes sinto vergonha de você! Como consegue ser tão inútil?

-O problema é Allan Hatton! Durante todo o tempo em que esteve em York, manteve-me sob vigília, impedindo-me de tomar qualquer atitude.

-Hatton está na cama a mais de uma semana! Qual sua desculpa agora?

-A empregada. Antes era Hatton, agora é a tal de Jane que anda nos meus calcanhares.

O vulto suspirou.

-Talvez seja um aviso de Deus para esquecermos tudo. Podemos ir embora de York...

Perpetua viu a figura levantar o braço e o escorar em uma árvore. Aquela discussão já havia sido feita tantas vezes...

-É por Deus que estamos fazendo tudo isso. Não podemos ir embora com o trabalho pela metade. É nossa missão.

O vulto não respondeu. Ela zangou-se.

-Semana passada fui ao quarto de Mairi durante a madrugada, e sabes o que descobri?

-O quê?

-Ela já voltou a freqüentar a cama do marido.

A figura em sua frente estremeceu. A governanta não sabia se havia sido de frio ou medo.

-Temos que acabar com isso de uma vez!

-Ian... –ela tentou sugerir.

-Não! – o vulto gritou – não ouse chegar perto de Ian. Nunca! Já me sinto terrível por saber que ele é apontado como o assassino de Eleanor...

E saiu, a deixando sozinha em meio ao começo da nevasca.

ººººººººººº


Duas semanas após Allan Hatton ser encontrado febril por Mairi, ele descia a escada, ainda frágil pela forte gripe que o abateu. Ao seu lado, a amiga lhe segurava o braço e deixava claro que ainda estava preocupada com seu estado.

Mas felizmente, ele já se sentia muito melhor e disposto a tomar sol e a comer algo sólido. Aliais, estava morto de fome, já que só via a maldita sopa verde, durante este tempo todo. Murmurou algo sobre comida para Mairi e ela lhe acompanhou até uma pequena sala para fazer um lanche.

-O que você quer comer? – perguntou Mairi.

Ele sentou-se numa cadeira estofada e respondeu:

-Qualquer coisa!

-Vou mandar Jane lhe trazer uma sopa então. –disse brincando.

-Lhe atiro o prato na cabeça - ele disse rindo também.

Mairi pegou a sineta e a sacudiu. Em pouco tempo Jane achava-se no pequeno aposento.

-Jane, prepare algo para o senhor Hatton comer. Algo sólido, de preferência.

-Sim senhora. –ela respondeu. Virou-se para sair, mas pareceu se lembrar de algo. – Milady, Lord Ian e sua sogra estão na sala de estar. Ele pediu para avisa-la assim que descesse, para encontra-lo.

Ela olhou para Allan como se pedisse autorização para deixa-lo sozinho.

-Vá logo. Não agüento mais você. Parece que não larga mais do meu pé.

-Achei que gostasse!

-Eu gosto... amo ver uma bolinha de olhos claros pulando em volta de mim.

Ela gargalhou, inclinando-se para beijar a face do loiro. Após, saiu deixando Allan na presença de Jane.

-Você fala com ela com tanta intimidade... – murmurou a empregada.

Allan percebeu uma magoa na voz da outra, mas fingiu que nada notou.

-Tenho essa liberdade – disse simplesmente – Como passou essas duas semanas na vigilância de Perpetua?

-Fiz o possível. A mulher me tocava da cozinha, mas eu fincava o pé, fingindo que tinha coisas pra fazer lá.

Ele sorriu satisfeito.

-E a mãe de Ian, esta melhor?

-A vi apenas de relance quando passei pela sala, mas sua aparência é terrível. Acredito que tenha sido um milagre ela ter sobrevivido a esses dias frios.

Allan fixou os olhos em algum ponto imaginário da parede e parecia pensar. Ian já lhe contara que a peste expandiu-se pela região e algumas pessoas chegaram a falecer, então era provável a simples coincidência de que ele e a esnobe Lady tenham ficado doentes juntos.

-Ótimo. Agora vá e me traga algo bem gostoso para comer.

Curvando-se ela saiu, mas logo retornou. A comida que serviu a Allan não era nobre, compunha-se de pão, queijo e algumas folhas verdes, mas ele comeu com apetite. A mulher manteve-se parada observando aquele belo homem que parecia animado com a perspectiva de que sairia do quarto e voltaria a ter a liberdade que antes, lhe era tão importante.

-E Perpetua? A Viu durante este dia?

A pergunta fez Jane olhar Allan nos olhos.

-Não. O Sr. James disse que ela havia saído. Parece que foi no pomar pegar algumas frutas para preparar a sobremesa.

Allan iria fazer algum comentário, quando James entrou na sala.

-Com licença, sr. Hatton – disse James curvando-se em reverência, mas logo virou-se em direção a mulher, falando em um tom baixo, mas recriminador – O chá que a Sra. Mairi pediu ficou pronto e tive que colocar uma menina da cozinha para servir, já que você sumiu.

-Estava atendendo ao Sr. Hatton – ela tentou justificar-se.

-Seja como for, quando Perpetua não se encontra, você é a responsável pela ordem no castelo e sempre tem de deixar alguém disponível para servir aos patrões.

Allan poderia se surpreender em ver James tão zangado e brigando com uma empregada na sua frente, mas reconhecia que o mordomo era tão impecável, que mesmo a recriminação do velho parecia um galanteio. Não era à toa que o castelo andava tão bem, com alguém como ele no comando, ninguém se faria negligente em suas obrigações.

-Tudo bem, já estou indo servir o chá. –ela disse tentando sair da pressão.

-Não precisa mais! Já foi servido por alguém que não tem experiência. Um absurdo...

E o mordomo saiu da sala, pisando duro.

O olhar o loiro acompanhou os passos do mordomo com os olhos e um sorriso nos lábios. Mas então, o sorriso sumiu.

“O chá que a Sra. Mairi pediu ficou pronto e tive que colocar uma menina da cozinha para servir”

-Jane, você viu quem fez este chá?

-Não senhor... –ela murmurou, compreendendo a mudança na atitude dele – mas não se preocupe. A Sra. Perpetua não se encontra na casa.

Aquilo não o convenceu. Levantando-se com dificuldades, ele saiu da sala. Mal sentia os pés pisando no tapete que adornava o corredor. Precisava encontrar Mairi. Se algo acontecesse a ela, nunca se perdoaria. Jurou protege-la de todo o mal, e agora falhava?

-Sr. Hatton... – chamou a empregada que o seguia.

Ele ficou indiferente ao chamado.

-Onde estão? – ele perguntou a si mesmo.

ººººººººººº


Brian de La Tere era de uma família que abandonou a França por causa da Revolução. Cresceu então na Inglaterra, onde estudou medicina e graças ao dom de seu pai para o comércio, conheceu muita gente e logo se tornou o doutor favorito da nobreza local.

Estava na casa agora de uma dessas famílias que já servia a gerações. O jovem a sua frente era um homem de caráter forte e aparência incrivelmente bela. Ian MCGreggor encantou muitas meninas plebéias na sua infância, mas tinha o casamento marcado com Eleanor, a flor mais linda que York já conhecera.

Por uma maldade do destino, a Lady escolhida pela família fora morta na sua noite de núpcias. Brian nunca se preocupou em conhecer o assassino, mas sabia que o culpado não era, em hipótese nenhuma, o jovem que vira nascer. Obviamente ficava triste pela mancha na reputação do duque, mas não se metia na história.

Virando um pouco o rosto, viu a nova esposa de Ian, Mairi. Ela não era tão linda assim para ser tirada da vida de empregada e ser posta a status de esposa, mas La Tere reconhecia o porque de o duque tê-la escolhido por mulher. Já conversava com ela há vinte minutos e estava encantado. A beleza física desaparece com o tempo (a outra mulher na sala era a prova disso), mas o conhecimento adornava uma mulher para sempre.

-Mas o senhor dizia...? – Ian o tirou do devaneio.

-Oh, sim – ele voltou a conversa com o duque - Sua mãe ainda esta muito fraca, mas vai se recuperar. Precisa mantê-la aquecida e concordo com sua esposa quando diz que lady Dorothea precisa pegar sol com freqüência. –ele falou apontando a mãe de Ian com a cabeça.

-Mairi é apaixonada pelo sol, e acha que ele resolve todos os problemas – o duque disse sorrindo para a esposa.

-Não todos – ela retrucou – mas boa parte. O sol manda para longe a tristeza. Se vencermos este mal invisível que é amargura e a aflição, que talvez sem motivo nos domina, estamos a meio caminho andado para a cura.

-Suas palavras são sábias, Milady. – concordou o médico.

Mairi então levantou o braço e levou a xícara aos lábios. Mas não chegou a encostar a boca na borda, pois uma mão voou em sua direção, quase lhe estapeando, mas errou o alvo, e apenas a louça foi ao chão, espatifando-a em mil pedaços.

Foi tudo tão rápido, mas incrivelmente assustador.

Uma hora ela estava tranqüilamente servindo sua família e convidado, e na outra, alguém tentava agredi-la. Tentou falar, mas a voz engasgou. Olhando em volta, chocada, ela percebeu de quem era a mão. Mas antes de tomar qualquer atitude, Ian se adiantou.

-Allan, você ficou maluco? –ele pegou o loiro pelo colarinho e o sacudiu. – como se atreve a agredir minha esposa? Por pouco você não a estapeou!

Deixando-se ser sacudido por Ian, Allan olhou Mairi.

-Você bebeu o chá?

Assustada, ela apenas moveu a cabeça de um lado para o outro negando. Realmente não havia bebido nenhum gole do liquido, já que quando a moça que veio servir o chá tremia de nervoso, ela a dispensou e se pôs a tarefa.

Allan suspirou aliviado.

-Pare de me sacudir Ian ou vou vomitar em cima de você. Não se esqueça que ainda estou com o estômago fraco.

Ian parou imediatamente. Mas ainda olhava assustadoramente para aquele, que ele desconhecia, ser seu irmão mais velho.

-Por que fez isso?

Allan abriu a boca para respondeu, mas viu atrás de Ian, Dorothea. A xícara postada no colo e a cabeça pendente para frente. A confusão na sala tinha sido tamanha que ninguém notara que a mulher estava morrendo.

-Ian... – ele balbuciou.

-Pela amizade que temos durante todos esses anos é que ainda não estou com minhas mãos em sua garganta, Allan! Fale logo o motivo de ter ido contra Mairi.

-Sua mãe...

-O que tem minha mãe com essa história toda?

As palavras de Allan fizeram Mairi olhar Dorothea. Então ela gritou. Todos olharam em direção a senhora. Por alguns segundos o espanto os fez paralisar, mas logo Ian e Brian correram em direção a cadeira da mulher.

Já estava morta...

ººººººººººº


Tudo que se sucedeu após a morte da mãe de Ian foi muito rápido. Depois da comprovação de Brian de que houve uma parada cardíaca, o velório e o enterro foram providenciados. O episódio na sala entre Allan e Mairi ficou provisoriamente esquecido e os dois permaneceram todo o tempo ao lado de Ian, que parecia abatido e aflito, mas não chorava.

-Quer que eu lhe traga algo para beber? – Mairi perguntou ao marido que estava sentado ao lado do caixão.

-Não...

-Ian, se você quiser chorar não se sinta mal. Nós amamos você e achamos que deve aliviar seu coração – Allan disse baixo, com a mão em seu ombro.

-A Bíblia diz que devemos prantear os mortos, Ian – disse Mairi com calma – Deus nos aconselha sabiamente a isso. Assim de certa forma, boa parte de nossa dor é tirada para fora do nosso coração.

-Chorar? – ele parecia transtornado – Sabia que o mais próximo que estive de minha mãe foi nesta última semana, quando ela esteve doente e você achou melhor que eu ajudasse a fazer companhia para ela não se sentir abandonada? – depois encarou o amigo - Isso foi um relacionamento Allan? Diga-me... Isso é um relacionamento?

O loiro baixou a fronte e não soube o que respondeu. Ian levantou-se da cadeira ao lado do caixão e foi caminhando pela capela, cercada de gente. A maioria daquelas pessoas nem conhecia Dorothea e só estavam ali por respeito ao Lord, e isso era até irônico, já que sua mãe viveu em York durante anos.

Mas ela se achava superior demais as outras pessoas para ter uma amizade com alguém. Bom... talvez nem tanto... Quando seus olhos encontraram a governanta Perpetua em um canto, com os olhos vermelhos, ele soube que Dorothea pelo menos tivera uma amiga... ou assim parecia. Algo sempre uniu a mãe à governanta. Uma relação de respeito mútuo. Nunca vira a irascível Lady levantando a voz com aquela empregada. Sempre pareceram tão... cúmplices...

-Ian! Meu querido! Lamento tanto.

Surpreso ele percebeu que uma mulher jogava-se em seus braços. Sem saída, ele abraçou a dama ricamente vestida e que claramente oferecia mais que suas condolências. Chocado, ele percebeu que era Annie.

Victoria Webster e sua filha chegavam ao velório com toda a pomba de quem tinha sangue nobre. Vestidas de negros, mas adornadas com jóias ricamente trabalhadas, as duas pareciam duas princesas.

-Lamento tanto, meu querido. Sua mãe era como se fosse uma irmã para mim. – disse a mais velha, também abraçando Ian.

Ian sabia que aquilo não era verdade. Durante todo o tempo em que Dorothea ficou doente, ninguém das antigas amizades havia aparecido no castelo. Foi Mairi que cuidou da senhora doente, e somente ela fez aquele trabalho com amor.

-Resolvemos ficar alguns dias na sua casa, querido. Para lhe fazer companhia...

Foi Annie que lhe disse isso, e se ele não se enganou, foi descaradamente um flerte.

-Eu agradeço muito, mas não quero tira-las de seus afazeres.

-Faço questão de estar ao seu lado neste momento tão difícil.

Com os olhos, Ian procurou a esposa e Allan. Adoraria ter a lábia do melhor amigo neste momento, que facilmente se livraria das duas mulheres, mas estava arrasado pelas circunstâncias. Praticamente nem notou o olhar zangado da própria esposa por vê-lo ao lado da loira que tentava conforta-lo.

-Bom, falarei com o mordomo para providenciar as acomodações necessárias. Quanto tempo ficaram?

-Pouco tempo, infelizmente. Logo a primavera virá e com ela a alta temporada em Londres.

-Mas ficarei com você pelo tempo que quiser, Ian. – disse Annie lhe acariciando o braço.

Uma dor de cabeça insuportável começou a se formar, e ele pediu licença as duas mulheres. O ar seco da pequena capela o estava asfixiando, então foi caminhar por entre as árvores.

O que mais angustiava Ian era a desconhecimento dos próprios sentimentos. O que estava sentindo era algo tão forte, mas inexplicável.

-Ela era sua mãe... – ouviu Mairi as suas costas – não precisa se culpar por ama-la.

Olhando a esposa, tão pequena perto das enormes cerejeiras, mas mesmo assim enorme na sua coragem, ele aproximou-se dela e a abraçou, deitando a cabeça em seu ombro.

E foi assim que Allan os encontrou assim, alguns minutos mais tarde...

Continua...


Capítulos de [Original] A Rosa entre Espinhos

[03/12/07] Introdução

[12/12/07] Capitulo I

[17/12/07] Capitulo II

[24/12/07] Capitulo III

[30/12/07] Capitulo IV

[07/01/08] Capitulo V

[14/01/08] Capitulo VI

[21/01/08] Capitulo VII

[28/01/08] Capitulo VIII

[06/02/08] Capitulo IX

[11/02/08] Capitulo X

[18/02/08] Capitulo XI

[25/02/08] Capitulo XII

[03/03/08] Capitulo XIII

[10/03/08] Capitulo XIV

[17/03/08] Capitulo XV

[25/03/08] Capitulo XVI

[31/03/08] Capitulo XVII

[07/04/08] Capitulo XVIII

[14/04/08] Capitulo XIX

[22/04/08] Capitulo XX

[28/04/08] Capitulo XXI

[05/05/08] Capítulo XXII

[10/05/08] Capítulo XXIII

[16/05/08] Capítulo XXIV

[26/05/08] Capítulo XXV

[03/06/08] Capítulo XXVI

[10/06/08] Capítulo XXVII

[18/06/08] Capítulo XXVIII - Final


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