A Rosa entre Espinhos
Capitulo XIX
Por Josiane Veiga
Jane recriminou-se pela falta de coragem. Nunca despertaria a admiração do Sr. Allan se continuasse a agir como uma boba em frente a ele. Mas como ser corajosa no quarto da falecida Eleanor McGreggor? Todos no castelo morriam de medo só de cruzar a porta, imagine estar ali dentro, revirando as roupas da finada!
Mas a nova esposa de seu Lord não parecia tão preocupada com a vingança do espírito de Eleanor. Mairi trabalhava com afinco, e sorria ao falar que algumas das roupas roídas pela traça podiam ser consertadas antes de dá-las a caridade.
A empregada que não era boba nem nada, já notara os olhos brilhantes que o advogado que ela própria desejava, lançava a sua senhora. Mas da parte da Lady Mairi, não parecia haver retribuição da lasciva. Mesmo assim, sabia que eles se amavam. Mas Jane nunca havia conhecido um amor assim, entre um homem e uma mulher, sem sexo. Era estranho, mas compreensivo, já que Mairi era esposa de um homem extremamente viril e bonito.
Coçando a cabeça, ela percebeu que Ian também não parecia ter um relacionamento normal com a própria esposa, já que dormiam em quartos separados, mesmo tendo tão pouco tempo de casados. Bom... dormir em quartos separados até que era normal naquele meio social, mas todas os dias ela percebia que as duas camas estavam desarrumadas, deixando claro que nenhum ia ao quarto do outro a noite.
Ah, mas se fosse ela nunca que deixaria um homem daqueles dormir sozinho! Talvez se Allan Hatton não resolvesse de uma vez se a queria ou não, daria uma visitinha ao patrão. Isso poderia lhe dar boas chances de conseguir ser mais bem tratada na casa.
Mas quando olhou a mulher agachada próxima a uma pilha de roupa, ela expulsou a idéia. Lady Mairi era muito boa e tratava todos com tanta consideração que não merecia uma traição.
-Milady, vamos embora daqui. Por que não esquece este quarto?
-Pare de tremer, Jane! – disse Mairi, aliviando as palavras ásperas com um sorriso – fique tranqüila. Eu conheci Eleanor. Mesmo que o espírito dela estivesse aqui, Eleanor ficaria feliz que suas roupas pudessem ajudar outras pessoas.
A revelação surpreendeu a outra mulher.
-A Senhora conheceu a finada?
-Sim. Eu trabalhei nesta casa.
Jane ficou tão pasma com o que Mairi lhe dissera, que se sentou na cama, a olhando com os olhos arregalados.
-Milady já foi uma empregada?
-Sim, trabalhei de empregada neste castelo desde que nasci. Você não me conheceu porque veio há pouco tempo para cá. Eu e Ian nunca havíamos nos encontrado antes, pois ele foi estudar fora. Anos depois, nos conhecemos, nos apaixonamos e cá estamos.
Mairi quase riu com seu discurso de “contos de fadas”. A história nunca poderia ser resumida desta forma, mas ela não considerava Jane tão confiável para lhe contar tudo. Ainda não...
-É uma história de amor tão linda – disse Jane com os olhos brilhantes.
-É apenas uma história – corrigiu Mairi com um suspiro triste – estou com sede Jane. Poderia buscar um suco para mim?
A empregada ergueu-se
-Mas a senhora vai ficar sozinha aqui?
-Sim. – e vendo a empregada abrir a boca para protestar, continuou – eu não acredito em fantasmas. Mesmo que existissem, Eleanor nada teria contra mim. Pode ir agora.
Ainda um tanto contrariada, Jane se retirou.
Quando a jovem saiu do quarto, Mairi sentiu um arrepio. Por mais que falava a verdade quando dizia que não acreditava em fantasmas, era humana e também temia algo. Mas não Eleanor. Era a lembrança da morte da mesma que a fazia estremecer. Quem a matou e por quê?
Bom... mesmo que fosse boa com suspeitas e investigações, esse não era um papel para ela. Pelo que ouvira de Ian, Steph Morris era o melhor investigador da região e com certeza estaria atrás do culpado. O que ela devia fazer agora era cuidar do quarto. Trabalhar!
Indo em direção ao roupeiro, ela lamentou não ter trazido um machado junto. Aquele móvel estava velho e cheio de cupins. Devia destruí-lo e colocar uma pequena cômoda no lugar. Ficaria um quarto maior, mais confortável e até esteticamente mais bonito.
Ficando de joelhos na frente do roupeiro, ela pegou o resto de roupas que estavam no fundo. Como Eleanor tinha vestidos! Já havia tirado de lá o suficiente para aquecer praticamente todas as mulheres pobres da cidade.
De repente os dedos tocaram um pedaço da madeira que estava descolada. Surpresa, ela percebeu que era um compartimento secreto do móvel, quase um cofre, para se guardar documentos e dinheiro. Levantando um pouco mais o pesado pedaço de pau, ela viu um livro. Temendo algum rato ou barata, ela puxou-o aos poucos do lugar.
Coberto de pó e teias de aranha, Mairi surpresa constatou que o mesmo era um diário. O diário de Eleanor...
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-Por que você não se senta a aproveita a tarde livre para ler um pouco?
Ian encarou Allan com um olhar quase mortal. O loiro curvou as sobrancelhas e resolveu ficar quieto.
Não entendia o porque de Ian estar tão bravo apenas porque Mairi insistira em não aceitar ajuda para organizar o quarto da falecida.
-Se você não parar de andar de um lado para o outro, vai fazer um buraco no meio da sala. –avisou o loiro.
-Ela fez de propósito! – esbravejou Ian – ela sempre faz de propósito. Adora me contrariar. Deve sentir um prazer enorme cada vez que me vê zangado.
-Devia subir lá em cima e bater nela. Pra mostrar quem manda!
-Cale esta boca Allan!
-Só quis ajudar – disse o advogado levantando as mãos em sinal de impotência – mas se você não dá conta dela...
Então Ian parou no meio da sala, como se estivesse preocupado.
-E se ela se machucar? Vou subir lá em cima. –e saiu da sala.
Allan levantou-se fazendo um pouco de esforço. Já notara um leve resfriado no dia anterior, e ter saído da casa para o vento frio, quando foi ver os cavalos naquela tarde, só aumentou a sensação de doença.
Quando Ian chegou perto da escada, viu Jane descendo com uma bandeja.
-Deixou Mairi sozinha? – perguntou o moreno, nervoso.
-Milady me avisou que continuará o trabalho amanhã. Disse que se cansou por causa da gravidez e foi para o quarto. Nem quis tomar o suco que me mandou preparar.
Os dois homens se encararam e logo após saíram correndo escada acima.
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Por alguns instantes Mairi encarou o grosso diário sem coragem de o abrir. Levantou-se da cama com ele nas mãos, mas logo voltou ao leito. O depositou no colchão enquanto tentava fazer as mãos pararem de tremer.
Poderia ler algo tão íntimo de Eleanor?
Mas Mairi tinha consciência de não ter o direito à ética num momento como aquele. O que tinha nas mãos podia dar uma pista certa do verdadeiro assassino.
-Mairi!
Ela levou os olhos a porta. Ian batia descontroladamente. Havia acontecido algo errado?
-O que foi? Estou de roupa de baixo – ela mentiu
Queria se livrar dele o mais rápido possível e nem percebeu o que tinha dito.
-Roupa de baixo? – perguntou Allan – o que esta fazendo de roupa de baixo a esta hora da tarde?
Mairi então percebeu que devia ter inventado qualquer outra coisa.
-Estou com calor. – ela tentou consertar.
-Calor em pleno inverno?
Maldito seja Allan Hatton que parecia adivinhar quando ela faltava com a verdade.
Olhando em volta do quarto, Mairi pensou onde guardar o diário dos olhos curiosos dos dois homens até que conseguisse se livrar deles para ler os escritos de Eleanor em paz.
-Abra esta porta, Mairi. – a voz de Ian estava claramente nervosa.
-Já vai. Estou me vestindo. –ela respondeu.
-Não importa como está! Abra de uma vez – era a voz de Allan e parecia preocupada.
No corredor, Ian olhou para Allan chocado.
-Como assim “abra como esta”? Ela pode estar indecente.
-Não seria a primeira vez que eu a veria nua. – ele provocou.
Ian enrubesceu de raiva e deu um passo em direção a Allan. Iria atacar, quando Mairi abriu a porta.
-O que estão fazendo? Não posso descansar um minuto? Parecem duas babás!
Os dois a encararam.
-Você esta bem? – Ian aproximou-se dela – nunca a vi descansando no meio da tarde... fiquei preocupado.
Ela sentiu o coração saltar no peito. O olhar de Ian era o mesmo que aquele de tanto tempo atrás, quando o amor deles não conhecia a maldade.
-Antigamente eu não tinha uma barriga do tamanho do mundo. Agora me canso com mais facilidade. Tudo que queria era tirar um cochilo, mas é impossível com vocês dois discutindo na minha porta.
Quando Mairi falou assim, Ian lembrou-se de Allan.
-Ele já a viu nua? –Ian perguntou e apontou o dedo para o loiro
Mairi quase riu. O marido parecia uma criança magoada que havia descoberto que a mãe dera um doce para o irmão e não para si.
-Sim, Ian. Ele já me viu nua. – ela foi sincera.
Ele parecia angustiado.
-Allan e eu temos uma relação que você não entenderia – ela continuou, tentando se explicar.
Ele sabia que tipo de relação os dois possuíam, mas não poderia admitir isso sem que os dois ficassem sabendo que ele os escutara atrás da porta.
-Tudo bem – ele tentou parecer o mais resignado possível – já que está bem vou ao escritório trabalhar.
Ele cruzou por Allan, que mantinha as mãos no bolso, e sumiu de vista.
-Ian ficou enciumado – o loiro comentou com a amiga.
-Você tinha que ter dito para ele que me viu sem roupa? – ela perguntou de supetão.
-É mentira por acaso?
Mairi iria responder, quando percebeu algo no amigo. Allan estava pálido. Dando um passo a frente, ela tocou com a mão no rosto dele.
-Esta febril. Por que não me disse que se sentia mal?
-Estou ótimo! –ele reagiu contrariado. – Vou deixa-la dormir.
Mas Allan sabia que agora que ela percebeu que ele pegara um resfriado, não o deixaria em paz. Por isso que ele sempre fingia que estava tudo bem, mesmo quando não estava.
-Você precisa descansar.
O puxando pelo braço, ela praticamente o arrastou até o quarto.
-Mairi, é só um resfriado. Me solta, Mairi!
Mas quando se deu conta, já estava na cama. Os sapatos postos ao lado do móvel e as roupas sendo arrancadas. Ele quase riu. Sempre imaginou ela arrancando suas roupas! Mas não daquele jeito e com um olhar severo. Logo foi vestido com um pijama como se fosse uma criança.
-Só para lembra-la, seu filho é o que esta na sua barriga.
-Não é à toa que Ian e você são irmãos. Dois teimosos que não admitem quando precisam de ajuda. Não quero você fora desta cama!
-Por que não desce lá em baixo e conta pra ele de uma vez – disse irritado com a maneira natural com que ela falou do segredo – quem sabe Ian não corre aqui em cima e me chama de maninho.
Erguendo os ombros, Mairi fez pouco caso com a evidente irritabilidade de Allan.
-Pois eu acho que iria acontecer isso mesmo. Você defende tanto Ian, mas tem medo de falar a verdade para ele.
-Não posso Mairi. Nunca mais poderia ser amigo dele. Você tem razão quando diz que eu o temo. Sinto pavor só de pensar que ele possa chegar a conclusão que eu só me aproximei dele para tirar vantagens.
-Este pensamento é um absurdo! Vocês eram praticamente crianças quando se conheceram!
De repente Allan se sentiu muito cansado. Era um abatimento físico, mas também psicológico. Viver uma mentira e amar tanto alguém como ele amava Ian, sem poder lhe falar que eram irmãos, sempre foi algo difícil. Depois se apaixonar pela mulher que se casou com o mais novo. Tudo parecia uma teia embaçada de sentimentos desencontrados.
Mairi pareceu perceber esta reação em Allan e cobrindo-o com o cobertor, deu-lhe um beijo na testa.
-Descanse querido. Agora é a minha vez de cuidar de você. Ficarei atenta a qualquer barulho. Só não ficarei no quarto porque reconheço que sou tagarela e não resistiria a conversar.
Ele sorriu ao vê-la sair.
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A capa era áspera pelo pó que se acumulara lá nos quase dois anos em que o diário ficou escondido.
Usando um pedaço de pano velho Mairi limpou o mesmo. Sem mais nenhum motivo para tardar a abertura do diário, ela enfim ganhou coragem.
A primeira página que abriu era uma das primeiras do grosso volume.
“Hoje irei morar na casa dos McGreggor. Ian, meu futuro marido, ainda se encontra em Londres e provavelmente não virá me conhecer até próximo ao noivado. Sei que posso me apaixonar por ele, mas algo me diz que não acontecerá assim. Não quero este casamento... quero ser livre... liberdade é tudo que anseio...”
Mairi fechou os olhos por um momento. Quase podia enxergar a jovem Eleanor chegando na casa. Lembrava bem deste dia. Era uma moça de estatura mediana que parecia assustada com a nova vida. Quando os olhos das duas se encontraram, a loira sorriu. Ninguém nunca havia sorrido para a empregada antes...
Pulando algumas páginas (mais tarde ela leria tudo com calma), Mairi avançou no diário.
“A menina dos olhos cor de mar se chama Mairi. Fora Perpetua que me contara, mesmo deixando claro que não poderia falar com ela. Fiquei triste, pois gostaria de me tornar amiga da linda moça... Sinto pena de nós duas”.
"Nunca vi Mairi sorrindo... Será que ela possui algum problema na boca?”
Pousando uma das mãos nos lábios, Mairi chorou silenciosamente. Como poderia sorrir se naquela época a felicidade era algo surreal dos livros de Scott?
“Aconteceu algo tão estranho. Olhava as nuvens pela janela quando vi uma carroça aproximando-se do castelo. Observei Mairi correndo em sua direção e pegando legumes de lá. Uma cena comum se não fosse pelo rapaz que desceu da carroça e falou com ela. Quem será que era? Era pobre, pelas roupas deixava isso muito claro. Mas tinha uma beleza incomum. Os cabelos eram tão negros e cacheados, e o porte altivo. Mairi tem sorte em ter um namorado tão bonito... Será Ian belo assim?”
Surpresa Mairi se surpreendeu em perceber que Eleanor a considerava uma rival pelo amor de Benjamin. Quão longe isso estava da verdade! Ela se apaixonara por Ben, era verdade, mas nunca tentou nada com ele. Como Eleanor, que era presa pelas circunstancias, ela não tinha o direito de amar, presa pela miséria.
“Ele não namora Mairi! E se chama Benjamin... conversamos por alguns minutos próximo a porta da cozinha. Desci especialmente para vê-lo. Ben é tão lindo que dói o coração... estou apaixonada por ele... como pode ter isso acontecido?”
As páginas seguintes desenrolavam o que devia ter sido uma linda história de amor. Eleanor contou sobre a perda da virgindade e até descreveu algumas vezes em que eles se deitavam juntos, tanto na mata quanto em um hotel barato da cidade. Mairi se surpreendeu com aquilo, pois na única vez em que ela se deitou com um homem, não gostara nada da experiência. Mas Eleanor parecia ficar fascinada.
Mas então após uma pausa nas datas, algumas páginas pareciam suplicantes... apenas palavras desencontradas..
“Eles querem que eu mate meu bebê... não farei isso... não me importa o que aconteceu no passado... nunca me importará!”
“Benjamin e eu iremos fugir. Sei que ele me ama... esta apenas sendo... sei que ele também quer o filho... nós vamos fugir e iremos ser felizes com nosso bebê...”
“As vezes sinto medo do que podem fazer...”
“Hoje é meu casamento... Benjamin não quer fugir. Disse que poderemos viver as custas do dinheiro de Ian e sermos amantes. Ele me quer, mas não quer compromisso... e quanto ao bebê, para ele é algo certo que irei matar a criança. Não vou abortar! Estou grávida a tão pouco tempo... posso fingir que Ian é o pai”
As demais páginas que se seguiam estavam em branco.
Céus! Eleanor estava grávida. O monstro que a matou, matou não apenas a ela, mas também ao filho que ela esperava.
Como podia existir tamanha crueldade no mundo?
Eleanor deixava claro que “eles” exigiam que ela abortasse. Uma destas pessoas poderia ser Benjamin, e o conhecendo, Mairi sabia que ele queria isso para não ter que assumir filho nenhum. O jovem era inconseqüente, irresponsável. Mas isso não o tornava assassino da amante?! Ou tornaria? Mas por que ele mataria Eleanor se ela já estava certa de fingir que o pai era Ian?
E quem era a outra pessoa?
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Ian levantou-se ao ver Mairi chegar a sala. O jantar estava pronto já há alguns minutos, e era a primeira vez que ela se atrasava.
-Onde esta Allan? – perguntou a ela gentilmente.
-Está resfriado. Teve febre à tarde, mas já esta bem melhor. Só precisa descansar. Mais tarde levarei uma sopa para ele.
Ele assentiu.
-E você?
-Estou bem – ela respondeu.
Mairi serviu-se das batatas ao molho de espinafre. Tentava encontrar um jeito de abordar o assunto com Ian. Decidiu ser direta.
-Ian. Encontrei o diário de Eleanor hoje enquanto limpava o antigo quarto dela.
O moreno quase engasgou com a revelação.
-Um diário?
Por alguns momentos ele pareceu absorver a informação.
-Sim. Vou entregá-lo a polícia. Talvez ajude de alguma forma. Você sabia que ela estava grávida?
Ele arregalou os olhos.
-Não. Meu Deus! Foram dois assassinatos ao invés de um!
-Sim... muito triste esta situação. Agora que estou grávida, compreendo melhor os sentimentos de Eleanor.
-Como assim?
-O fato de ela não querer ficar longe de Benjamin e não querer abortar a criança. Um filho do homem que se ama é a coisa mais importante da vida de uma mulher.
Ian mal podia acreditar no que seus ouvidos escutaram. A mulher a sua frente era a mesma Mairi que tímida e inocentemente lhe declarara seu amor há tanto tempo atrás. De repente Eleanor grávida e assassinada ficou em segundo plano. Todo o passado parou de existir. A única coisa importante era os dois, juntos, conversando na sala de jantar.
-E nosso filho? É a pessoa mais importante da sua vida?
-Sim, é o filho do homem que sempre amarei.
Mairi não poderia dizer a si mesma que as palavras escaparam. Ela pensou para falar. Não queria mais se esconder atrás da fingida indiferença. Uma parte dela se culpava pela declaração, mas outra estava aliviada. Era desgastante ficar fingindo que o odiava. E pra quê? O que ganhava com isso?
-Também sempre amarei você Mairi...
Ela lhe sorriu. Isso fez com que Ian se tornasse mais ousado para tirar dúvidas da sua mente.
-Acha que um dia poderemos voltar a ser um casal normal?
Ela sabia exatamente o que ele queria dizer com “um casal normal”.
-Não sei, Ian. Tenho medo. Foi horrível da primeira vez.
-Aquilo não foi um ato de amor, mas sim uma agressão, uma brutalidade. Mesmo que eu viva mil anos nunca poderei me desculpar o suficiente pelo que fiz.
-Já o perdoei. –ela disse sinceramente.
-Mas é importante que saiba que podemos ter uma vida normal se me der uma chance de...
Ele não terminou a frase. Perpetua entrou na sala para buscar os pratos e servir o café. Mairi estava completamente enrubescida, mas Ian não poderia parar agora que tivera coragem de tocar num assunto tão delicado com ela.
Assim que a governanta saiu, ele voltou a atenção para a esposa, segurando-lhe as mãos.
-Mairi, precisamos tentar...
Ela lhe olhou assustada.
-Não consigo. Tremo só de pensar. Entendo o que diz, quando fala que o que houve não foi algo normal. Mas a verdade Ian é que houve um ato sexual e este ato é o que me apavora.
-Nós podemos começar desde o início...
-Do que esta falando?
-Podemos fazer amor sem a penetração.
Mairi ficou completamente vermelha e Ian viu que foi longe demais. Mas precisava falar senão iria enlouquecer. Já abria a boca para pedir desculpas quando a voz dela o surpreendeu:
-E existe uma forma de fazer isso?
Ele achou que fosse explodir de tanta felicidade. Então Mairi também queria ter um relacionamento normal entre eles?
Sim, ela queria! Mairi tremia de vontade de tocar Ian, abraça-lo. Fora seu primeiro amor e seu relacionamento enquanto ela era empregada no castelo lhe deu uma amostra do caráter dele. Era um bom homem! A respeitou naquela época. A respeitaria agora.
-Existe sim.
Foram interrompidos mais uma vez. Mas quem entrava na sala agora era Jane com uma bandeja.
-A senhora gostaria que eu levasse a sopa ao Sr. Hatton?
Ian sentiu vontade de abraçar a empregada pela ótima idéia. Mal podia se agüentar para subir ao quarto com a esposa, e, além disso, Jane faria uma ótima companhia para Allan.
-Não, eu farei isso. – Mairi interrompeu seus pensamentos.
Ele quase amaldiçoou o melhor amigo, mas percebeu que seria muita infantilidade. Acompanhou com os olhos Mairi se retirando e indo dar comida a Allan. Com os cotovelos na mesa, ele segurou a cabeça com as duas mãos. Essa mulher o deixaria louco!
-Senhor... Se sente bem?
Levantou os olhos e viu Jane posta a sua frente.
-Me sinto ótimo. Vou dormir.
Ian retirou-se da sala deixando a empregada sozinha. Ele não parecia doente, pensou ela. Mas estava estranhamente desanimado.
Retirando as xícaras de café que ainda estavam na mesa, ela foi até a cozinha terminar de limpar as coisas. Ainda precisava ir para casa. Lógico que podia dormir no castelo, mas tinha medo das assombrações que lá existiam.
-Acho que será uma longa noite... –ela suspirou.
E acertou. Seria, definitivamente, uma longa noite.
Continua...