MEMÓRIAS
Nina Neviani
Beta-reader: Chiisana Hana
Capítulo II - O início da jornada
"Existe sempre um motivo pelo qual vale a pena amar
E, como conseqüência, também valerá a pena sofrer." (1)
1990
Ele olhava fixamente para o mar como se o movimento das ondas pudesse trazer a solução para o seu problema. Fazia a mesma coisa há alguns dias, já estava cansado de procurar uma maneira de alcançar o seu objetivo e falhar.
- Por quê, Seiya? - Perguntou para o dono da casa onde estava.
Seiya, que nos últimos dias andava tão pensativo quanto Shiryu, deu de ombros e respondeu:
- Porque tentamos ser mais fortes do que eles. E conseguimos.
Shiryu abandonou a janela e sentou-se em uma das cadeiras. Abaixou a cabeça e segurou-a entre as mãos.
- Esse foi o pior castigo que eles poderiam ter nos dado. - Shiryu declarou.
- E foi justamente por isso que esse foi o escolhido. - Seiya explicou ao ouvir o amigo repetir mais uma vez a frase que freqüentemente dizia nos últimos dias.
Shiryu, o sempre calmo Cavaleiro de Dragão, estava inquieto. Levantou-se e começou a andar pelo pequeno apartamento de Seiya. Ainda não conseguia acreditar que lhe tinham arrancado a sua Shunrei.
O seu tormento tinha começado menos de uma semana atrás, quando saíra do hospital. Na ocasião, ele e todos os outros cavaleiros de Athena receberam uma mensagem de própria deusa explicando que os deuses tinham decidido que, como punição, eles, os Cavaleiros de Athena, seriam afastados das pessoas que mais amavam. Justificavam o ato como uma forma de preservar a existência deles, mas nenhum dos cavaleiros entendeu o que eles queriam dizer com isso e nem como o fato de estarem próximos das pessoas que amavam pudesse comprometer a existência dos deuses. Por fim, Athena tinha dito que não haveria mais nenhuma guerra envolvendo os Cavaleiros de Athena e que, de nenhuma forma, os mortais dos quais se separariam seriam prejudicados.
Shiryu, a princípio, pensara que aquilo fosse apenas algo da sua imaginação, um delírio ou qualquer outra coisa que estivesse muito longe da realidade. Apenas quando se encontrara com Seiya e ouvira do amigo o mesmo relato foi que entendera que estava separado da pessoa que mais amava no mundo, Shunrei. Shiryu sofria por outra causa também: por nunca ter dito a Shunrei que a amava e por nunca ter dito que ela era a pessoa mais importante do mundo para ele. Desconfiava que a garota soubesse, mas nunca expressara os seus sentimentos por ter medo de que a pequena Shunrei sofresse por conta do seu amor. A ironia era que os deuses conheciam todos os seus sentimentos, até mesmo aqueles que ele não revelava, e tendo conhecimento do seu amor pela jovem chinesa, e buscando castigá-lo, separaram-na dele.
- Onde ela está, Seiya? Onde?
Seiya novamente ergueu os ombros, num gesto de impotência que se tornara corriqueiro ultimamente.
- Nesse mundo, Shiryu. Em algum lugar desse mundo. E viva. Athena nos disse que eles estão vivos. Na verdade, ela disse que "os mortais envolvidos" não seriam prejudicados, o que quer dizer que eles não foram mortos, não é?
- Sim, eu interpreto as palavras dela dessa mesma maneira. - Shiryu novamente começou a andar de um lado para outro. - É o fato de desconhecer o lugar onde ela está que me desespera. Eu não sei se ela está realmente bem ou não. Se tem fome, frio, abrigo. Acho que vou enlouquecer.
- É compreensível. - Seiya disse - Quando eu imaginava o nosso futuro, sempre via você e ela em Rozan, com várioschinesinhos brincando na cachoeira.
Seiya sorriu e foi acompanhado por Shiryu que disse:
- Eu também imaginava a mesma coisa.
Um longo silêncio se seguiu. Shiryu voltou para o seu lugar na janela, de onde observava o porto. E Seiya continuou sentado olhando fixamente para a parede. Ambos buscavam uma resposta e estavam, aparentemente, muito distantes de encontrá-la.
Shiryu foi quem falou primeiro, e quando o fez o tom de voz estava determinado.
- Não vai terminar assim. Eu já fui mais forte do que eles. Posso muito bem ser de novo. E serei. Eu vou encontrar a Shunrei.
Seiya não queria diminuir as esperanças do amigo, mas se viu na obrigação de relembrá-lo de alguns fatos:
- Como, Shiryu? Não somos mais cavaleiros, assim não temos mais as nossas armaduras. Somos pessoas normais. Somos como qualquer garoto de 18 anos. Não temos nem mesmo a Fundação Graad para nos auxiliar. E nem mesmo a Saori. Aliás, ela também está em algum lugar que eu não sei onde é. Por minha culpa.
- Não é culpa nossa, Seiya. Não mesmo! - Shiryu assegurou quando Seiya o olhou desconfiado - É tudo culpa dos deuses. Eles que começaram tudo. Não se esqueça que foram eles que tentaram subjugar a Humanidade. E nós tivemos que interferir. Além do mais, nós não pedimos para sermos Cavaleiros. Mas fomos. Então agora, por puro despeito, eles nos impõem esse castigo. Pois bem, eu não o aceitarei! Sei que não tenho dinheiro e que nem sou mais um cavaleiro de Athena. Mas isso não me deterá. Nem que eu tenha que perguntar pela Shunrei para cada pessoa que existe nesse mundo e nem que eu só a encontre no último dia da minha vida. Mesmo assim, eu a procurarei e a encontrarei.
Seiya, comovido com as palavras do amigo, levantou-se e abraçou Shiryu.
- Eu tenho certeza de que você vai conseguir, Shiryu. Tenho certeza absoluta. Eu não vou fazer o mesmo que você porque não sei se o melhor para a Saori é ao meu lado. Vou continuar pensando que ela está bem e melhor do que estaria ao meu lado. Acho que é a única maneira de não ficar louco. Mas conte comigo sempre que precisar. - Sorriu - E quando não precisar também. Pretendo arrumar um emprego e seguir a minha vida aqui.
- Você é quem sabe. E muito obrigado. Me deseje boa sorte.
- Boa sorte! Mas você terá toda a sorte do mundo, porque você é forte o bastante para fazer a sua própria sorte e não depender de um Deus ou do destino.
- Obrigado. Vou arrumar as minhas coisas, que, felizmente, são poucas.
- Eu te ajudo.
Poucas horas depois...
Shiryu já estava pronto para iniciar a sua jornada em busca de Shunrei. Levava apenas uma grande mochila nas costas que continha tudo o que ele julgava necessário para sobreviver enquanto durasse a sua mais nova missão. Procurava se consolar dizendo para si mesmo que aquela seria a primeira vez que sairia não para destruir um inimigo, pelo contrário, dessa vez não pretendia ferir ninguém, e sim encontrar o seu amor e dizer tudo aquilo que deveria ter dito já há algum tempo.
- Shiryu, eu tenho uma coisa para lhe dar e gostaria que você aceitasse. - Seiya falou.
Shiryu olhou intrigado para Seiya e quando viu o amigo tirar do bolso um pequeno maço de dinheiro começou a recusar, mas Seiya foi mais incisivo.
- Não é muita coisa. Eu tinha guardado antes de começarmos as nossas batalhas e durante todo esse tempo nunca precisei usar. E agora ele é muito mais útil para você do que para mim. Eu tenho a minha casa, Shiryu. Você vai passar os seus próximos dias sem ter um lar fixo e precisando se alimentar, dormir e outras tantas coisas. Por favor, aceite. Pela Shunrei. Quem sabe com essa ajuda, mesmo sendo pouca, fique mais fácil de você encontrá-la.
Shiryu não teve outra saída a não ser aceitar a ajuda de Seiya, deu um último abraço forte no amigo e começou a sua viagem.
Continua...
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(1)"C'è sempre un motivo per cui val la pena di amare
e di conseguenza varrà anche la pena soffrire"
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Trecho da música "Cri", do Nek, que vocês já estão cansados de saber é o meu cantor preferido. A letra completa da música estará no meu blog.