A Rosa entre Espinhos
Capitulo XVI
Por Josiane Veiga
Perpetua voltara do vilarejo de York afobada. Logo que se aproximara do castelo, avistou ao longe a carruagem de Milord Ian, e como não gostava que o seu patrão soubesse que ela tinha uma vida pessoal, tentou se apressar antes que ele notasse sua ausência da mansão.
Incitando os cavalos, ela parou a carroça próxima à entrada dos empregados. Chamou um dos meninos que cuidava das baias para recolher os animais e correu para a cozinha. Respirando com mais calma ela começou a arrumar o chá para levar até onde estava Ian, demonstrando eficiência, mas um barulho vindo da ala dos empregados chamou sua atenção.
Já fazia quase um ano que somente ela e o velho mordomo usavam aquela ala. Os outros empregados moravam em casas localizadas nas terras do duque e a jovem órfã que dormia no quartinho próximo ao porão já havia ido embora há algum tempo.
O que James fazia lá àquela hora? Louca para dar uma reprimenda no mordomo, ela foi à direção dos quartos frios. Mas não podia ser o mordomo que revirava algo, pois o som vinha do quarto que fora abandonado. Pegando uma tora de madeira, ela esperou que o visitante saísse do aposento. O ladrãozinho iria ver uma coisa!
Quando a porta se abriu, ela ainda levantou a madeira. Mas logo a baixou.
-Mairi!
Perpetua tomou um grande susto ao ver a menina que viu crescer saindo do quarto. Era a empregada sem família, que se criou na cozinha com ela e que fora embora expulsa do castelo pela Lady Dorothea sem ter para onde ir, que vasculhava seu antigo dormitório.
-Senhora Perpetua. Fico feliz em lhe ver.
A jovem sentiu os dedos formigarem com o livro na mão, lutando para aparentar calma.
-Você voltou?
A pergunta era boba e Mairi até sentiu vontade de rir. Por acaso a governanta pensava que ela era um fantasma?
-Sim... – disse sorrindo.
Mas a reação da governanta não foi bem o que ela esperava. Ao invés que sorrir e lhe abraçar, a mulher parecia nervosa e preocupada.
-Filha, por que voltou?
O tom era maternal, era bondoso, mas algo estava estranho. Perpetua sabia que Mairi não tinha para onde ir, portanto o lógico não era ela ficar aliviada pela moça, que agora tinha um teto?
-Voltei porque me casei, senhora.
-Casou-se?
-Sim, com Lord Ian.
Perpetua sentiu-se como se os pés tivessem abandonado o chão, e ela agora flutuava pelo sombrio corredor. Baixou os olhos e notou o ventre proeminente da moça.
-Ele violentou você, não é?
Mairi tomou um susto. Como ela sabia? A afirmação foi feita com tamanha segurança que por um momento, a ex-empregada sentiu como se Perpetua tivesse presenciado tudo.
-Não... –ela mentiu numa estranha tentativa de defender Ian.
Ou a si mesma...
Era vergonhoso que as outras pessoas soubessem o porquê dela se encontrar naquele estado. Já bastavam aqueles que diretamente viveram sua tortura: Allan, Emily, Ian e ela própria.
-Não – ela repetiu tentando sorrir - a senhora sabe que nós nos amamos... – ela completou, numa mentira descarada.
-O que sei é que Milord saiu do castelo odiando você, voltou amargurado, como se tivesse cometido o pior dos pecados e agora você surge na minha frente grávida e recém casada. Sou apenas uma governanta, mas não sou simplória, Mairi.
Os olhos da moça se encheram de lágrimas, mas ela as segurou. Chorar já havia sido algo que fizera muito na vida, mas não queria lamentar mais o que já não tinha volta.
-O que importa é que ele se casou comigo e reparou seu mal...
O que estava dizendo? Por que de repente se importava em defender a honra daquele homem? Por que não queria que Perpetua pensasse que Ian era um desgraçado, se era exatamente isso que ele era?
-Não sabe o que diz, criança – disse Perpetua devagar.
O clima entre elas ficou tenso. Mairi sentiu que os pêlos do braço se arrepiavam.
-Está frio aqui. Vou subir. Com licença – ela disse a governanta.
Perpetua lhe abriu passagem.
Sentiu-se tola por quase correr até o corredor que levava a cozinha. Do nada, ela sentiu um medo angustiante. Algo estava errado. Muito errado.
ººººººººººº
Alguns dias depois...
Victoria Webster ouviu o vaso chinês caríssimo, que ficava exposto em um belo móvel no centro de sua sala, espatifando-se. Os gritos de Annie a encontraram. Assustada ela saiu correndo.
O eficiente mordomo, como se prevendo sua chegada, abriu a porta da sala de visitas. A distinta Lady ficou chocada ao ver sua preciosa e doce filha atirando todos os adornos de porcelana no piso.
-Annie Webster, o que pensa que esta fazendo?
A moça olhou a mãe tremendo de ódio. Por algum momento, Victoria pensou que sua menina havia enlouquecido.
-Mãe! A culpa é sua! Sua!
-Do que esta falando?
A loira puxou um pedaço de papel e mostrou a Lady.
-Sabe o que é isso?
-Não tenho idéia. Mas gostaria muito que você me dissesse.
-É uma carta de Perpetua.
-De quem?
-Da governanta dos McGreggor! – ela esbravejou.
Victoria puxou o leque e começou a se abanar, como se estivesse quente, em pleno inverno.
-E o que tem isso, Annie?
-Ian se casou! – ela gritou com todas as forças.
Victoria sentou-se numa atitude de tal dramaticidade que parecia algo teatral. Encarou a filha com os olhos arregalados, não sabendo o que dizer.
-Não é possível – ela murmurou.
-É possível sim! Eu pedi a senhora para ir até York, mas negou-me a viagem. E por causa disso perdi a chance de conquistar Ian.
-Não seja tola! O que faria em York como visita, agora que Dorothea enlouqueceu?
-Eu poderia mentir dizendo que estava doente, que precisava do ar do campo, recomendações médicas, o que for! Poderia inventar mil e um motivos para ficar em York e ter a chance de fazer Ian perceber que eu sou a pessoa certa para ele! Mas a senhora me impediu! E agora? O que farei? Não posso viver sem ele!
Victoria ergueu as sobrancelhas perfeitas duvidando muito daquele amor que sua filha dedicava ao Lord McGreggor. Conhecia Annie perfeitamente para saber que era o dinheiro e posição que sua loira com rosto angelical almejava. Não duvidava que o corpo másculo fosse uma cereja no bolo para Annie, mas ela nunca se apaixonaria de verdade.
-Você irrita-se com muita facilidade. Para tudo há solução!
-Casamentos não são anuláveis facilmente, mamãe. E eu jamais poderia me casar com um homem divorciado! –ela começou a chorar.
-Annie Webster! Recomponha-se!
A filha percebendo o estado em que se encontrava, sentou-se em frente à mãe.
-Há algum tempo atrás, você também gritava de ódio por causa do casamento de Ian com Eleanor- recordou Victoria – e não ocorreu uma solução? O que impede de a nova esposa de Ian também vir a falecer?
Annie estremeceu.
-Acha que eu teria tanta sorte?
-Tenho certeza. – respondeu ela segurando a mão de sua adorável filha.
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Ian retornara mais tarde que de costume.
Mairi abriu os olhos e ouviu o barulho vindo do quarto dele. Os passos mostravam que ele ia até o aposento do banho. Como trabalhara muito tempo em York, sabia que todos os Lords homens que ali viveram se banhavam a noite, para desespero dos empregados que precisavam trabalhar até mais tarde. Ouviu mais passos. Provavelmente os servos trouxeram a água, despejaram na tina e saíram de lá. Imaginou Ian tirando a roupa e entrando na água.
“Pare com isso, sua tola” – ordenou a si mesma.
Deitada na cama, ela pensou que o casamento até que não era de todo mal. Nesta última semana, mal vira Ian. Ele levantava-se cedo, tomava o café da manhã antes dela e de Allan, e saia pela propriedade. Só voltava quando todos já estavam deitados.
E então a imaginação dela começava a trabalhar.
Cada noite era igual. Ela fantasiava o ritual que ele realizava para tomar banho e recriminava-se pela infantilidade. Mas mesmo as auto reprimendas não a impediam de visualizar ele molhado, deslizando o sabonete de lilás pela pele morena, a espuma cobrindo os negros pêlos do peito e o cheiro de homem invadindo o quarto.
Pouco tempo depois ouviu mais um barulho. Ele devia estar se secando. Do nada sentiu um desejo enorme de vê-lo naquele ato íntimo.
“Burra, burra, burra!!”
Mas não conseguia evitar fechar os olhos e imaginar o corpo musculoso dele sendo esfregado pela toalha. Ian sempre teve a musculatura firme, os ombros avantajados, e o tórax definido.
Quando namoravam, ela uma vez lhe tocara a barriga. Queria saber se era tão firme quando aparentava e estranhamente sentiu que ele adorou aquele atrevimento. Realmente, o corpo dele parecia de aço... E ela sentiu bem como o aço machucava no dia mais tenebroso de sua vida, quando ele lhe tomara a força.
Lembrar-se disso fez com que a raiva que sentia, voltasse. Mas estranhamente, não com a mesma intensidade. Assustada, percebeu que realmente o ódio por ele estava diminuindo, dando lugar a um desejo estranho, algo que ela nunca sentira antes.
Jogando as cobertas para longe, Mairi se levantou. Pelo pequeno vão debaixo da porta de ligação percebeu que havia luz no quarto dele. Aproximando-se da porta, pensou onde havia deixado a chave.
Então a lucidez voltou! Estava louca! Como se permitia imaginar abrindo aquela porta, e ir ter com ele? Era seu marido, mas aquilo que viviam era um casamento de mentira, destinado ao terrível fracasso.
Sem pensar, ela correu na outra direção, abriu sua porta do corredor e foi até a porta de Allan. Que sorte! Estava aberta.
-Allan...
O loiro dormia tranqüilamente, mas abriu os olhos imediatamente ao ouvir seu nome.
-Mairi, o que houve?
-Me tira daqui Allan... – ela disse fechando a porta do quarto e indo se sentar na cama do advogado.
-Por quê? O que aconteceu? Ian tentou algo?
-Não Allan, ele não tentou... Mas não posso viver aqui. Tenho medo...
Allan começou a rir e esfregou os olhos.
-Estou com sono Mairi. Não vai começar a acreditar em fantasmas agora, não é?
-Não seja idiota! –ela ralhou - não é de fantasmas que tenho temor! Tenho medo de Ian!
Sorrindo ele lhe puxou levemente e fez com que ela se deitasse do seu lado, a abraçando.
-Fique tranqüila. Ian já fez algo horrível com você, mas foi um ato isolado. Ele nunca mais fará nada de mal.
Por alguns segundos houve silêncio entre eles. Allan fechou os olhos certos de que convencera aquela teimosa.
-Allan...
A voz dela estava longe...
-Eu ainda amo Ian... –ela reconheceu.
Novamente ele abriu os olhos e a encarou incrédulo.
-Tem certeza?
-Não. Não tenho certeza de mais nada. O odeio pelo que ele fez comigo. Sinto o sangue ferver ao me lembrar que ele me tomou como um animal, que ele me acusou de coisas que não ouso pronunciar... mas também sinto algo muito forte... não sei o que fazer...
Allan tocou o rosto dela com a ponta dos dedos. A relação de fraternidade entre eles havia sido abalada pelo beijo que trocaram na última vez que estiveram em Londres, mas a confissão de Mairi fazia tudo voltar a ser como era antes.
Num misto de surpresa e gratidão, Allan percebeu que estava aliviado.
-Dê tempo ao tempo, minha amada... –ele disse baixo fechando os olhos novamente.
Mairi continuou olhando para ele esperando que Allan abrisse os olhos. O que não aconteceu.
-Não acredito que vai dormir quando eu quero tanto conversar.
Ele riu, mas não abriu os olhos.
-Allan Hatton – ela disse, dando-lhe um safanão no braço.
Nada. Ela sabia que ele estava acordado porque se mexia com as risadas travadas. Pegando um travesseiro, começou a bater nele com o objeto macio.
Mal se deu conta quando começou a gargalhar. Allan abriu os olhos e começou a revidar os golpes com o travesseiro. Bateram-se até cansar. Então Mairi saiu da cama e foi à porta.
-Boa noite, Allan Hatton! Nunca mais falo com você! –disse brincando.
-Restrinja este comentário à hora do meu precioso sono. –ele rebateu exausto e sorrindo. – agora me dê um beijo e suma do meu quarto, antes que o mordomo de Ian ache que estamos fazendo alguma coisa errada.
Ela tapou a boca com a mão tentando segurar o riso, ao imaginar James escutando atrás da porta, mas correu até ele, beijou-lhe a bochecha e saiu.
O exercício pelo menos lhe aliviou a alma, e cansada, ela logo adormeceu.
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Ian retornara de mais um dia exaustivo de trabalho. Percorreu toda sua terra, falou com os arrendatários e planejou uma reforma na escola do condado. Precisava se manter ativo e totalmente ocupado, para não correr o risco de invadir o quarto da mulher que dormia ao seu lado, beijar-lhe e lhe fazer amor...
Depois do banho, ele vestiu o roupão e sentou-se com um livro nas mãos. Estava se preparando para começar a leitura quando ouviu um barulho. A porta do quarto de Mairi se abriu.
Ian saltou da própria cama e nervoso ele foi até a sua própria porta, espiando por uma fresta, a viu cruzando o corredor e entrando sem bater no quarto de Allan.
Eram amantes?
Não! Já desgraçara sua vida duvidando deles, e não podia cometer o mesmo erro novamente. Mairi e Allan ficaram meses sozinhos em Londres e com certeza eram muito amigos. Mas o que uma mulher casada ia fazer a noite no quarto de um homem solteiro? Não importava. Allan era um homem de caráter e Mairi era honesta! Confiava nisso!
Fechou sua porta, caminhou até a cama, mas logo se viu no corredor.
“Seguro morreu de velho”, ele pensou tentando se desculpar.
Colou o ouvido à porta de Allan, e tentou escutar o que conversavam.
“Eu ainda amo Ian...” – ele ouviu dito num tom firme, mas angustiado.
Era Mairi. Deus, ela o amava! Ela ainda sentia por ele o mesmo que sentia anteriormente? A resposta dela dita mais tarde, falando de sua duvida deixou claro para ele que o sentimento não era mais igual, mas algo ainda existia.
Existia uma chance para ele!
Percebendo que parara de ouviu após a confissão dela ao melhor amigo, colou novamente o ouvido na porta. Risadas e o som de algo se chocando fizeram o ambiente. Mairi e Allan estavam brincando! Era possível? Dois adultos, uma mulher linda e um homem jovem! Num quarto, completamente sozinhos brincavam despreocupadamente sem nenhuma malícia.
Realmente, aqueles dois eram pessoas fora do comum!
Ian quase riu com o pensamento, mas com medo de ser pego em flagrante voltou para seu próprio quarto. Mal havia fechado sua porta e percebeu que Mairi novamente cruzava o corredor.
Correndo levemente até a porta de ligação, ele a ouviu deitar-se na cama de molas e todo som cessou.
Ela dormira!
E ela o amava!
Se ele pudesse gritar de felicidade ele assim o faria! Que mulher abnegada que ainda o perdoava quando não havia mais esperanças de uma desculpa!
Bem, na verdade Mairi ainda não havia lhe perdoado, mas já admitira que ainda sentisse amor por ele. Isso já era um começo. Ele poderia voltar a ter a confiança dela novamente e de quebra, ainda reconquistar a amizade de Allan. Mas Ian precisaria fazer tudo direito. Sem conseguir dormir mais ele deitou-se na cama e ficou planejando o que faria a partir do dia seguinte.
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Allan serviu-se de café e pegou um pedaço de pão, colocando-o no prato.
-Leite, senhor?
Uma jovem e risonha empregada o auxiliava na difícil tarefa de comer. Ele estava achando tudo muito divertido. A moça parecia apaixonada e jogava todo o charme que achava ser possível para o advogado, mas não conseguia mais que um olhar dele.
-Não, obrigado. Não bebo leite.
Ela iria se desculpar quando Perpetua entrou na sala. Despachando a infeliz rapidamente ela postou-se ao lado da mesa.
-Lamento Sr. Hatton por essa sonsa estar atrapalhando seu café da manhã. –disse ríspida, deixando claro que nem ligava se Allan se sentia bem ou não.
-Ora, não estava, Sra. Perpetua. É muito divertido ter uma carne jovem por perto. Meche com o libido de um homem.
A resposta maliciosa e mordaz a chocou. Ela arregalou os olhos e pediu licença para buscar os frios.
Uma mulher saia, e outra entrava. Mairi cruzou com Perpetua na porta, a cumprimentou, mas não recebeu mais que um murmuro de resposta.
-Ficou maluco ao dizer aquilo para a Sra. Perpetua, Allan? – ela disse assim que se sentou à mesa.
-Oh, então anda ouvindo atrás da porta, Milady? – ele respondeu rindo.
-Cheguei na hora que trocavam delicadas farpas.
-Não se preocupe. Ela não deve nem saber o que é um libido de homem.
-Por que diz isso? Perpetua é uma mulher bonita. Tenho certeza que um dia algum homem já a desejou.
Allan fez uma careta.
-Você anda muito atrevida. Olha só o que fala pra mim!
-Ora, desculpe se o ofendi demonstrando que tenho conhecimento, pelo menos teórico, nos anseios masculinos.
-Não, não é nisso que me ofende! Na verdade, me senti insultado por ter insinuado que um macho pode sentir alguma vontade de coabitar com aquele tipo de mulher.
Mairi atirou o guardanapo nele com força, Allan gargalhou.
-Estou brincando. Não sou o tipo de homem que me sinto atraído apenas pela aparência. Mas Perpetua é quase sombria. Ela dá medo.
Mairi então baixou os olhos para o colo, estranhamente triste.
-Ela me criou. Bom... Não foi como uma mãe, pois nunca me deu amor. Mas me educou, cuidou de mim quando eu ficava doente. Enfim, sinto carinho por ela. E percebo que ela é assim, porque algo em sua vida aconteceu. Talvez uma dor inexplicável.
-Será que ela já foi casada?
Ela não respondeu. Ian entrou na sala com os cabelos molhados e o cheirando a sabonete. Tanto Allan quanto Mairi se surpreenderam ao vê-lo entrando. Ele nunca tomava café com os dois.
-Bom dia. –ele os cumprimentou tranqüilamente.
Mairi olhou para Allan, e os dois responderam acanhados ao cumprimento. Por alguns momentos, houve silêncio total. Apenas o som do vento que batia na janela se fazia ouvir. Mas Allan Hatton detestava momentos assim, então logo puxou assunto.
-Mas há que demos a sua presença iluminada nas trevas de nossas míseras vidinhas? – ele perguntou a Ian que sorriu.
-Dormi muito tarde e perdi a hora. Mas não achem que eu não dividia a mesa com vocês por falta de vontade, era apenas por falta de tempo.
Virando o rosto, olhou Mairi e surpreso a viu manejando os talheres com destreza.
-Eu a ensinei. – disse Allan.
Ian enrubesceu na hora. Como Hatton podia sempre adivinhar seus pensamentos?
-Sim, Allan me ensinou a me portar na mesa, Ian. Então não precisa temer que eu vá comer com as mãos, atirar os pratos na sua cabeça ou subir em cima da mesa e dançar.
Agora essa! Os dois ficavam cada vez mais iguais nas piadinhas.
-Ora, seria muito interessante lhe ver dançando em cima da mesa. – flertou descaradamente Allan.
Para surpresa de ambos, Ian começou a rir. Se não tivesse ouvido a conversa da noite anterior talvez, ficaria possesso de ciúme, mas sabendo o que Mairi sentia por ele e conhecendo o tipo de relacionamento que ela e Allan viviam, ele adquiriu uma óbvia confiança.
O silêncio voltou a reinar, mas agora de maneira mais amena e calma. Comeram tranqüilamente, mas antes de se levantar, Ian perguntou a Allan:
-Soube que Steph Morris está em York?
-Morris aqui?
-Ele esta investigando o assassinato de Eleanor.
-Sim, eu sei. Esperamos que encontre algo.
A reação de Allan foi quase imperceptível, mas Mairi percebeu algo errado. Ele parecia incomodado.
-O que houve, Allan? – ela perguntou.
Ele a encarou.
-É este Morris. Por algum motivo, que desconheço no momento, ele não me suporta.
-Nunca percebi isso em Londres – retrucou Ian.
-Você não percebeu muitas coisas em Londres. – Allan se dirigiu ao irmão mais novo com o tom de voz carregado de segundas intenções.
O clima voltou a ficar tenso entre eles. Mas foi Allan que novamente quebrou o gelo.
-Perdoe-me Ian. Perdi o controle.
O loiro parecia sincero e Ian voltou a sorrir.
-Não se preocupe Allan.
Mairi então colocou o guardanapo em cima da mesa e se levantou. Sentiu os dois pares de olhos em cima de si, e apenas arqueou as sobrancelhas explicando:
-Bom, os senhores me dão licença, pois tenho trabalho a fazer.
-Trabalho? – perguntou Ian.
Ele quase se levantou e explicou a ela que não admitia que sua mulher trabalhasse. Mas antes de abrir a boca, ela despejou:
-Sim, vou cuidar da sua mãe.
E saiu deixando os dois incrédulos, se encarando na sala.
Continua...