A Rosa entre Espinhos
Capitulo XV
Por Josiane Veiga
O castelo de York emergia bravamente entre as frondosas árvores, mostrando-se capaz de resistir ao tempo e espaço. Era grande, belo, imponente, mas muito assustador. Mairi, felizmente, não temia a mais nada, muito menos aos fantasmas que se escondiam nas sobras por entre os corredores.
Ela sentiu-se emocionada ao avistar o palácio. Fora ali que vivera toda a sua vida e foi ali que descobrira o amor. Olhou pela janela do coque e distinguiu o jardim que adornava as laterais do castelo, se surpreendendo ao permitir que a imaginação a levasse até a árvore que presenciara o seu primeiro beijo.
E foi um primeiro beijo lindo.
“Pena que a pessoa beijada não o merecesse”, ela pensou olhando o homem a sua frente.
Por um momento os olhos de Ian a encontraram. Mediram-se, testaram-se. Mas ele logo recuou, abaixando a cabeça. Ela ainda o observou por alguns momentos, (tempo suficiente para perceber que ele parecia envergonhado em sua presença), mas logo também mudou de direção, olhando novamente pela janela.
Sentiu uma mão quente sobre a sua. Allan anunciava que estava presente, que não a deixaria sobre o poder de Ian. Eles apertaram-se os dedos mutuamente por alguns segundos, num gesto mudo de força, mas logo afastaram as mãos, tentando evitar qualquer situação constrangedora que poderia acontecer.
-Chegamos...
A voz de Ian estava baixa e tensa. Ele não pode evitar ver o casal a sua frente trocando um ato de total cumplicidade. Allan e Mairi pareciam companheiros e isso o deixava possesso de raiva e ciúme. Ciúme? Ele não tinha esse direito. Quando ela lhe era fiel e totalmente leal, lhe atacara com a maior brutalidade que um homem pode ter para com uma mulher. Agora recebia sua recompensa pela maldade.
Naquele momento Ian percebeu que nada é sem retorno.
Ele saiu do coche e estendeu a mão a Mairi. Achou que ela pudesse se negar a receber ajuda, mas viu que agora a moça tinha uma segurança desafiadora. Encostou a mão sobre a dele, apoiando-se e saiu do coche. Mairi não recuava. Ela o enfrentava de frente, como se louca para vencê-lo. Fora assim na igreja. Seria assim para sempre em suas vidas?
-Não mudou nada... –ela balbuciou referindo-se ao castelo.
-Na verdade, mudou sim. – Ian disse devagar.
Havia mudado tudo! Ela voltara. Mesmo que nunca mais lhe perdoasse e agisse como a antiga Mairi que ele beijava secretamente pelos corredores, com quem ele trocava livros e com quem conversava sobre os mais diversos assuntos, Ian já era grato apenas por tê-la por perto.
Eles caminharam em direção a porta principal. James, o reservado e útil mordomo a abriu e não pode evitar arregalar os olhos ao notar quem passava pela porta. Eram uma comitiva no mínimo estranha: Ian, um Lord amargurado, Allan, o amigo que não era mais amigo e Mairi, a antiga empregada.
-Como vai, Sr. James?
Ele sorriu. Mairi estava muito bem. A pele estava rosada e havia ganhado um pouco de peso. Antes a moça era tão magra que dava dó. Ele quase a abraçou de emoção, mas então notou as roupas, simples, mas obviamente caras e a capa de veludo que nunca poderia ser comprado por uma moça que limpa o chão.
-Mairi... –ele balbuciou.
-James, solicite que alguns empregados peguem a bagagem da Milady e do Sr. Hatton e coloquem nos quartos que eu pedi que fossem preparados.
O velho olhou para fora e viu que a carruagem tinha malas no seu teto. Mas onde estava a Milady? Logo percebera o que aconteceu.
-Milady? –ele perguntou a jovem.
-Sim, James.
-Mas...
Ela fez um gesto com a cabeça demonstrando que não continuasse a indagação. Mairi estava esgotada, física e psicologicamente e não queria explicar nada agora. Mais tarde ela falaria com o amável senhor James.
Caminhando em direção ao porão, ela estancou de repente. Não mais moraria no quartinho ao lado da parte baixa da casa. Agora era a esposa do dono. Mas nunca aceitaria dormir no quarto de Ian.
-Onde irei dormir?
Ian a encarou.
-Me acompanhe.
Mesmo não sendo convidado, Allan, que estava quieto desde que saíra da igreja, foi atrás dos dois. Subiram as escadas e entraram no corredor em direção ao quarto principal, que era ocupado pelo moreno.
Mas passaram a porta do quarto de Ian.
A próxima porta era do quarto conjugado, que foi aberta. Os três entraram e Ian abriu as janelas. Seria o quarto usado por Eleanor se a mesma não tivesse sido brutalmente assassinada.
-Você preparou o mesmo de sempre para mim? –Allan perguntou.
-Não – respondeu Ian e deixando obvio que permitia que o loiro ficasse próximo a Mairi, disse – o seu fica de frente a esse. Venha comigo...
Os dois homens saíram do quarto e a deixaram sozinha. Mairi se aproximou da cama e sentou-se. Respirou fundo. Acostumaria-se a viver ali novamente? Acariciando o ventre ela pensou que pelo menos o filho ou filha teria um lugar para ter infância. Os gramados eram vastos, a planície próxima era segura e o lago calmo. Um lugar perfeito para uma criança. Pena que ela própria não pudera usufruir daquele paraíso.
Ainda pensava nisso quando Ian entrou no quarto. Ela assustou-se e imagens da ultima vez em que estiveram sozinhos veio a sua mente. Segurou a língua para não gritar.
-O que quer? – ela perguntou tentando aparentar frieza, mas afastando-se da cama e indo em direção ao lado oposto.
Ele a observou por alguns segundos e foi a porta de ligação. A abriu.
-Esta porta liga nossos quartos. Como casados não é de admirar que eu tivesse que lhe colocar num quarto conjugado. Mas não se preocupe...
Ian não terminou a frase. Caminhou em direção a ela e a viu dar um passo atrás, como se o temesse. Tentou se controlar. Se fosse mais jovem, com certeza choraria de desespero. Mairi, a mulher que ele amava não conseguia nem ficar sozinha do seu lado sem sentir vontade de sair correndo.
Então ele lhe estendeu uma chave. Ela assumiu uma postura interrogativa.
-Esta é a chave da porta de ligação. Ficará com você. Nunca abrirei essa porta Mairi, é você que fará, se algum dia, quiser.
-Nunca hei de querer.
-Mesmo assim, fique com ela.
Rapidamente, ela a pegou.
-Vou ficar. Mas não é para abrir a porta e sim para deixá-la trancada perpetuamente.
Molhando o lábio inferior com a língua, Ian não retrucou. Curvando-se em reverência, ele saiu pela porta que ligava seu quarto ao dela. Mairi correu atrás e fechou a porta com força, passando a chave. Logo depois, ela puxou uma mesa de centro de madeira contra a porta.
Sua mente estava dominada pelo pavor. Se parasse para raciocinar perceberia que Ian nada faria, mas precisava da precaução. Se ele quisesse usar aquela porta, a fechadura o deteria, e se mesmo assim ele conseguisse passar, a mesa seria um bom obstáculo.
Daria tempo de gritar por Allan... se necessário fosse.
ºººººººº
Ian ouviu o barulho do móvel ser arrastado. Encostou a cabeça na porta e fechou os olhos. Merecia aquilo! Então porque a magoa? Estava casado com a mulher que ele amava, há algumas horas e sua lua de mel era ouvir ela colocar barreiras entre eles.
Tentou se conformar. Assim seria sua vida. Mas ali há alguns meses teria um filho e esse filho seria o motivo de sua existência. O amaria mais que a própria vida. Esta criança lhe daria o conforto.
Uma batida na porta do corredor o puxou do torpor dos pensamentos. Virou-se, foi até ela e abriu.
-Sim? – perguntou a James
-Milord, o senhor Morris se encontra na ante-sala.
Steph Morris, o investigador, se encontrava novamente em sua casa? Traria alguma novidade?
-Leve-o até o escritório. Desço em seguida.
Fechou a porta e olhou o quarto, mas nada via. Estava com os pensamentos em outro lugar. Seu filho! Precisava provar sua inocência para viver ao lado daquela criança.
Pouco depois desceu as escadas e foi ao encontro de Morris. O encontrou sentado em uma cadeira, pequena demais para o homem grande.
-Morris. – chamou.
O outro se levantou e trocaram cumprimentos. Ian sentou-se em sua frente.
-Achei que houvesse esquecido de meu caso. Já faz um certo tempo desde que nos vimos pela ultima vez.
-É verdade Lord, mas garanto que estive fazendo minhas investigações. Aliais, aluguei uma casa próximo ao castelo para poder continuar a procurar pistas.
-Fico feliz de lhe ter como vizinho, mas não creio que achara algo por aqui. Nossa única pista é o maldito colar.
Morris não falou das provas que conseguiu que podiam incriminar seu principal suspeito. Isso seria antiético e também não queria acusar ninguém sem ter certeza. Mas o caso chegava próximo ao final. Ele tinha certeza.
-Bem Ian, eu só vim para lhe avisar que estou por perto. Espero sua autorização para andar pelas suas terras.
-Fique a vontade Steph. Espero que ache algo.
Os dois cumprimentaram-se novamente, agora em tom de despedida e Ian foi acompanhando Steph até a porta.
Mas os dois homens pararam ao chegarem próximo a saída do castelo. Mairi estava descendo as escadas. Ela havia tirado a roupa de viagem e se mostrava agora com um vestido de lã quente, mas que lhe evidenciava o ventre.
-Senhora... – Steph a cumprimentou fazendo uma reverência.
Ele ficou fascinado. Ela não era linda, mas tinha uma beleza exótica que chamava demais a atenção. Os cabelos presos eram de um tom escuro e o corpo era magro, apesar de ela estar grávida. Dois ou três meses, calculou o investigador. Mas o que mais se notava sobre ela eram os olhos. Os cílios eram excessivamente negros, como carvão e os olhos claros, num tom próximo ao mar. Um contraste maravilhoso, encantador.
-Morris, esta é minha esposa, Mairi. Mairi, este é Steph Morris, ele esta investigando o assassinato da falecida Eleanor.
Esposa? Bom, Eleanor já morrera a mais de um ano e com certeza o Lord poderia casar novamente. Mas mesmo assim foi algo chocante, já que Steph não sabia que Ian tinha uma noiva.
-É um prazer conhecê-la.
-O prazer é meu, Sr. Morris.
Era inevitável pensar onde Ian havia encontrado uma beldade daquelas, mas não esboçou nenhuma pergunta. Despediu-se do casal e saiu.
-Alguma novidade sobre o assassino? – perguntou Mairi a Ian quando ficaram sozinhos.
-Ainda não. Mas espero que ele o encontre logo.
-Você tem algum suspeito? – perguntou a mulher o encarando.
-Não, infelizmente.
Ela olhou o chão e depois voltou os olhos novamente a Ian.
-Onde esta Perpetua?
-Não tenho idéia. Saiu, pelo jeito.
-E sua mãe?
Ian franziu a testa. Não havia contado ainda a ela sobre a situação de sua mãe. Qual seria a reação de Mairi?
-Minha mãe não é mais a mesma, Mairi. – ele começou, medindo as palavras.
-Por quê? Ela virou bondosa, de repente?
Mairi falava inflamada pela magoa da humilhação que já fora exposta.
-Ela está louca. Tivemos que prende-la em seu quarto.
Mairi se arrependeu no ato pela amargura da voz. Não desejava mal a Dorothea, mesmo depois de tudo que passou nas mãos dela. Sentiu pena de Ian. Uma vontade de consolá-lo, encostar sua mão no ombro dele e dizer que lamentava. Mas não podia. Limitou-se a inclinar a cabeça para baixo e pronunciar:
-Sinto muito.
Foi quase um murmuro, mas ele se sentiu feliz por ela pelo menos não o odiar a tal ponto de desejar o mal para sua mãe. Mairi era uma grande mulher.
-Com licença – ela falou afastando-se.
Ele a viu sumir em direção a cozinha. Não foi atrás. Ela precisava de espaço.
Mairi só cruzou pela cozinha, pois foi mesmo em direção a ala que se aproximava do porão, onde ficavam os quartos dos empregados. O mais pequeno e frio fora ocupado por ela num passado já longínquo. Quando se aproximou da porta, sentiu uma estranha sensação de tristeza.
Abriu a porta e um rajado frio chocou-se contra seu rosto. O quarto continuava o mesmo. Ela entrou e fechou a porta. A cama de palha, o armarinho onde guardava seus parcos pertences e o pequeno tapete feito com tecidos velhos continuavam no mesmo lugar. Já fazia quase um ano que ela deixara a casa, mas pareciam poucos dias.
Caminhando até a cama, ela acariciou o colchão lentamente e sorriu ao pensar que aquela vida pobre pelo menos era calma. Nada é pior que a falta de paz, ela meditou.
Puxando o colchão para cima, ela encontrou o que fora buscar.
“Ivanhoé”
O livro de capa escura e grossa, dado por Ian no primeiro encontro com ele, e seu único bem, estava no mesmo lugar onde ela havia deixado. Relembrou quando foi expulsa da casa e pensara que não teria onde guardar o romance, portanto deixaria escondido embaixo do colchão. Deslizou os dedos pela capa e indagou a si mesma o porque de estar lá pegando aquele livro.
-Scott não tem culpa pelo que Ian fez... –ela filosofou sorrindo.
Aquele livro era importante demais para ela. Guardaria para sempre. Foi até o armário e pegou um pedaço de pano, o enrolou. O levaria escondido até seu aposento. Manteria Wilfred, Rebecca e Rowena , os personagens do clássico, bem a salvo de curiosos, no fundo do roupeiro.
Foi até a porta e a abriu. Estava saindo quando se chocou contra alguém. Gritou de susto. E agora? Descobririam seu tesouro?
Continua...