Chapter Five - Lembranças Nubladas
"Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Tubal no empório celebrado,
Em sangüíneo caráter foi marcado
Pelos destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado
Dos irmãos, e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura."
by Bocage.
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Narrativa Onipresente
Renji estava parado, olhando fixamente para a Mansão. O treinamento deles havia se encerrado por hora, e um dia nublado se desenrolava a medida que as horas passavam. Pelo jeito, o Sol não daria as caras, e provavelmente até choveria.
Ele sentia frio, mesmo após tanto exercício. Ao seu redor, todos suavam, e ele mesmo podia sentir o suor deslizando por seu abdômen, mas ele sentia frio, muito frio. Os pêlos de sua nuca estavam todos eriçados, e ele não conseguia esquecer o que viu nos olhos de Rukia, naquela manhã.
Aquela sombra sinistra por trás dos olhos dela, como se a dor nunca fosse embora, e o sofrimento estivesse fluindo por todos os poros do pequeno corpo da garota. Ele conhecia aquela expressão, e também aquele sentimento. E, quando ela recitou o verso dos vaga-lumes, ele sentiu uma vontade imensa de chorar, como se facas estivessem perfurando seus órgãos internos.
O único resquício de uma lembrança que a cada dia se tornava mais enevoada.
Ele conhecia aquela canção, mas havia muito tempo desde a última vez que ele a escutou. Antes do sangue, antes do confinamento, antes das trevas. E também, antes da solidão inexpurgável.
Quando o dia ainda existia para ele, e nem tudo era dor e tristeza. Principalmente no Verão, que naquela época, era a estação favorita dele. O Sol forte, a brisa morna, o rio cintilando como se houvessem milhares de pedrinhas de diamante no fundo. Lá, ele se sentava na beira do rio, com os pés dentro d'agua. Ao seu lado, um fantasma sem rosto lhe sussurrava aquela canção.
Ele escutava a voz suave, e fitava o rio, sentindo o calor do Sol se espalhando pelo corpo. Ele sentia pena dos vaga-lumes, que brilhavam por poucas horas, antes de enfim morrer, apagando-se aos poucos. Ele imaginava o quão desesperador deveria ser a sensação de saber que sua luz está acabando, e que quando ela sumir, seu último sopro de vida também iria embora. Mesmo assim, aquela era uma lembrança agradável.
A única lembrança agradável que ele tinha.
Renji balançou a cabeça, fechando os olhos por segundos. Fazia tempo ele não pensava naquilo. Para se tornar forte, era necessário deixar certas coisas para trás, como lembranças e sentimentos. Mas, somente aquela lembrança não o havia deixado completamente. Talvez, por ela ainda existir, é que ele não se sentia tão miserável.
Renji respirou fundo, como se esperasse sentir aquele perfume único mais uma vez. Mas, somente o cheiro da chuva que estava para cair chegou aos seus sentidos. Ele abriu os olhos, tentando desanuviar a mente. Pensar naquela mulher sempre o deixava fragilizado.
A mãe que um dia ele teve, e que o levava para nadar no rio nos dias quentes de Verão.
Quando Renji abriu os olhos, viu a Mansão. Lembrou-se de Rukia, murmurando os versos, a boca pequena e delicada, os grandes olhos azuis, a silhueta esguia e quase infantil da menina. E, Renji percebeu que não sentia mais tanto frio quanto antes.
"Abarai!", era Ichigo quem o chamava. Renji se virou para olhá-lo. "Maldito Kurosaki, sempre interrompendo.", o ruivo pensou, mas sentiu um pouco de alívio. Pelo menos, aqueles pensamentos saíram de sua mente.
"O que foi?", ele perguntou a Ichigo.
"O Capitão tá chamando, lá dentro..", Ichigo disse, apontando para a Mansão. "Disse que é urgente."
Renji começou a caminhar para a Mansão, sendo seguido por Ichigo. No caminho, ele percebeu que os outros líderes também estavam indo para lá.
"Será que são novidades sobre a Guerra no Oeste?", Komamura disse, caminhando ao lado de Tousen.
"Provavelmente, afinal, Shuuhei retornou hoje.", o homem disse. Hisagi Shuuhei era seu vice-líder, e ele havia sido mandado para a Região Oeste para investigar os acontecimentos da guerra entre a família Matsumoto e os camponeses.
"Até que enfim aquela disputa terminou...", Ukitake comentou. "Quem terá saído vitorioso?"
"Ora, é óbvio que a família Matsumoto chacinou todos os camponeses...", Ichigo disse. "Eles tinham aquela tal arma-secreta, que tanto ficam se gabando."
"Está se referindo ao manipulador de Gelo, que a família Matsumoto contratou?", Renji perguntou.
"Ele não foi contratado... pelo que eu soube, ele se casou com uma das primas da matriarca, e entrou pra família. Claro, esse matrimônio foi uma armação, só pra ele lutar ao lado deles...". Ichigo disse.
"Como é que você sabe esse tipo de coisa?", Renji perguntou, arqueando uma sobrancelha. Ichigo deu um sorriso convencido.
"É claro que foi o Zangetsu quem contou essas coisas a ele.", Ukitake disse. Todos compreenderam, já que Zangetsu era muito ligado a Ichigo.
"E o que mais ele te contou?", Komamura perguntou ao rapaz.
"Parece que a família Shihouin encontrou uma vila de Shinigamis.", Ichigo disse. Todos pararam de caminhar, e olharam para ele, estupefatos com a informação.
"Shinigamis?! Mas isso é impossível! Eles sumiram há muito tempo, atravessaram o mar para outro continente...", Tousen disse, perplexo.
"E uma vila deles? Isso é mais improvável ainda!", Komamura concordou com ele.
"Só estou dizendo o que o velhote me contou. Mas, parece que os diplomatas estão tendo dificuldades em selar um acordo com os tais shinigamis... também acho que não passe de blefe deles, pra nos fazer recuar..", Ichigo disse.
"Realmente... se os Shihouin conseguissem se aliar a qualquer shinigami, essa guerra já estaria decidida. Não há como vencer os Deuses da Morte.", Ukitake comentou, e todos concordaram, entrando na Mansão.
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Por que será que ele não diz logo o que o incomoda?
Já faz um tempo que ele está andando de um lado para outro...
Estou quase ficando tonta.
Eu suspiro, audivelmente.
É, estou tentando chamar a atenção dele.
Giro os olhos ao perceber que não adiantou nada.
Ele continua caminhando, pra lá e pra cá.
As vezes, ele murmura alguma coisa.
Mas, não consigo escutar,
pois estou sentada,
e ele de pé,
do outro lado da sala.
Ah, naquela mesma sala onde conversamos antes.
Eu, o Ruivão, o Laranjão, o tal Mayuri e ele.
A sala onde ele disse que eu seria irmã dele.
Já percebi que esse é o cômodo que eu mais detesto nessa mansão idiota.
Ah, ok, já deu!
Não aguento mais!
"Eu não sei!", eu digo.
Em alto e bom som.
Ah, até que enfim!
Ele parou de caminhar e olhou pra mim.
"O quê?", ele pergunta.
"Antes que você pergunte como eu fiz aquilo, eu te respondo:
Eu não sei!", eu explico.
Então, ele olha pra mim.
Olha de verdade, dentro dos meus olhos,
como se estivesse tentando ler meus pensamentos.
"Eu estava esperando o seu fracasso.", ele me diz.
"É, eu já sabia.", eu digo.
Sim, eu sabia que ele estava me observando.
Sabia qual era o objetivo dele ao me fazer treinar.
Ele queria que eu baixasse a cabeça.
"Os nobres nunca baixam a cabeça. É isso que os torna nobres.",
eu digo a ele.
Ele mira os olhos, parecendo irritado.
"Você não é da nobreza.", ele diz.
"Agora eu sou.", eu digo a ele,
com um pequeno sorriso.
É lógico, ele tenta parecer que não se abalou com o que eu disse,
mas consigo perceber que ele está incomodado.
Os ombros dele estão tensos,
e os músculos do pescoço estão retesados,
como um arco prestes a lançar uma flecha.
"Aquele kidôu... como você..??", ele diz,
e então as palavras somem na boca dele.
Ele não olha pra mim.
"Eu já disse que não sei.", eu respondo.
Okay, eu estava mentindo.
Mas, como eu poderia dizer a ele
que uma voz me sussurrou aquelas palavras?
De certo, ele iria achar que estou mentindo.
Ou seja, dá no mesmo!
Alguém bate duas vezes na porta.
Ele abre uma fresta e alguém diz:
"Nosso enviado retornou."
Ele balança a cabeça, e ordena:
"Chame-os para a sala de reuniões."
E o outro cara vai embora.
Enfim, ele passa a mão nos cabelos,
e olha pra mim com o canto dos olhos.
Ele se vira, e abre a boca.
Mas, nenhuma palavra sai, e ele balança a cabeça.
"Fique aqui.", é tudo que ele me diz,
antes de sair da sala.
Eu arqueio uma sobrancelha.
Quantas vezes eu o obedeci desde que cheguei aqui?
Assim que os passos dele estão longe,
eu me levanto e saio da sala pela varanda.
Eu tenho mais o que fazer...
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Narrativa Onipresente
"E ela era linda! A mulher mais linda que já vi na vida!", um rapaz dizia. Ele tinha três riscos verticais no lado direito do rosto, cicatrizes de alguma batalha feroz. Do outro lado, havia o número "69" tatuado, que ninguém sabia exatamente o que significava. O rapaz tinha os cabelos curtos e arrepiados, de um negro tão escuro que chegava a ser azulado.
"E foi por isso que você se atrasou para voltar?", Madarami perguntou, com um sorriso malicioso no rosto.
"Por mim, não teria voltado nunca mais...", Hisagi murmurou. Madarami riu, balançando a cabeça careca.
De repente, ambos pararam de conversar, e se viraram para fitar os líderes se aproximando. Hisagi se aproximou do líder de sua equipe, Tousen Kaname.
"E o Capitão Kuchiki?", o homem perguntou ao seu vice-líder.
"Ainda não está aqui.", Hisagi respondeu.
"Pode nos adiantar alguma coisa sobre a guerra?", Komamura perguntou a ele. Hisagi pareceu pensar.
"Bem... como vocês já devem ter imaginado, a disputa na Região Oeste acabou, com uma vitória esmagadora dos Matsumoto.", Hisagi disse, e todos abanaram a cabeça, já imaginando aquilo. "Juro que nunca vi alguém com habilidades tão destruidoras quanto aquele Manipulador de Gelo..", o rapaz murmurou.
"Você o viu?", Tousen perguntou, surpreso.
"Sim, no último dia da batalha. Parece que ele foi mandado lá para dar um ponto final, de uma vez por todas. Ninguém sobreviveu depois que ele apareceu..", Hisagi disse, e um calafrio lhe percorreu a espinha.
Os outros apenas imaginaram como poderia ser o poder do tal Manipulador, já que nunca viram algo semelhante antes. De repente, eles viram o Capitão e Mayuri, se aproximando, e se curvaram levemente.
O feiticeiro se apressou a abrir a porta para o Capitão, que entrou sem ao menos olhar para eles. Quando todos entraram, Byakuya estava sentado em seu lugar. Os homens se ajeitaram, e Hisagi estava sentado na ponta oposta a de Byakuya, pronto para dar seu relatório.
Com um gesto de mão, Byakuya ordenou que ele falasse. Hisagi pigarreou antes de começar a falar.
"A disputa entre a família Matsumoto e os camponeses enfim terminou. Foram três meses de conflito, e há duas semanas atrás, o casamento entre Hinamori Momo, a última descendente viva dos Hinamori e prima em primeiro grau da Matriarca Matsumoto Rangiku, se casou com Hitsugaya Toushirou, um Manipulador de Gelo. E, foi graças a ação dele que a batalha teve um fim. Os poderes dele são algo fora do comum, eu nunca vi nada igual antes...", Hisagi disse.
Byakuya respirou fundo.
"E quais são as contagens finais dessa batalha?", Mayuri perguntou.
"Nenhum dos camponeses combatentes sobreviveu. E, o exército dos Matsumoto perdeu em torno de duzentos e cinquenta homens, o que é bastante se considerando que eram pobres camponeses, sem armamentos pesados. Mas, mesmo assim, o exército deles continua grande o suficiente para outras batalhas."
"E quais são os planos deles?", era Mayuri quem perguntava novamente. Hisagi se mexeu em seu lugar, e olhou furtivamente para Tousen.
"Aparentemente, a Matriarca pretende reorganizar a região, antes de tomar um próximo passo na guerra central. E também, eu soube que a Matriarca recebeu uma proposta de casamento...", Hisagi disse. Byakuya arqueou uma sobrancelha.
"Ichimaru Gin, eu presumo.", o Capitão enfim falou. Hisagi afirmou.
"Ele mandou o pedido oficial, que chegou há três dias atrás. Na verdade, fiquei sabendo disso depois que saí de lá, em uma casa de chá nas fronteiras da região. A notícia se espalhou rapidamente, já que a Matriarca também recebeu um pedido de casamento por parte de um homem que se auto-intitula "Deus das Flores-de-cerejeira".", Hisagi disse. "Pelo que descobri, ele é aliado da família Urahara, portanto é aliado do exército do Leste."
"Quem poderá ser esse homem?", Komamura verbalizou a dúvida de todos.
"Não descobri muito sobre ele... apenas que estudou sob a tutela de Yamamoto Genryuusai.", Hisagi disse. Todos os olhos se voltaram para Ukitake, que havia se inclinado sobre a mesa.
"Sob a tutela do Yamamoto-sama??", o homem de cabelos brancos disse, perplexo.
"Você foi um dos pupilos dele, não é?", Mayuri comentou, afinando os olhos. Ukitake sentou-se novamente, e ficou pensativo.
"Há muito tempo atrás. Mas, eu não fui o único.", Ukitake disse. Ele estava vasculhando sua memória, a procura de alguém que ele conheceu, que poderia ser esse tal "Deus das Flores-de-cerejeira". Mas, a única pessoa que lhe vinha a mente quando pensava na época de seu treinamento, era seu melhor amigo, que foi embora antes da conclusão do treinamento para se casar com uma mulher misteriosa.
"Sabe nos dizer mais alguma coisa sobre esse homem?", Tousen perguntou a Shuuhei.
"Bem... as pessoas da cidadela principal da Região Oeste diziam que o tal homem passou mais tempo bebendo nos bares do que no castelo Matsumoto em si... disseram que sempre recitava poesias, e vestia um quimono cor-de-rosa, adornado com desenhos de pétalas de cerejeira..", Hisagi disse. Os olhos de Ukitake se arregalaram.
"Impossível!!!", ele disse. Todos olharam para ele, e perceberam que Ukitake estava mais pálido que o normal.
"Algum problema?", Byakuya perguntou. Ukitake levantou o rosto, e fitou o Capitão.
"A descrição bate com a de um rapaz que de fato treinou comigo. Mas, ele se casou há muito tempo atrás...", Ukitake disse. "O nome dele era Shunsui. Kyouraku Shunsui."
"E ele é uma ameaça?", foi a pergunta feita por Byakuya.
"Talvez... o senhor conhece minhas habilidades. Posso dizer que as habilidades de Shunsui eram equivalentes às minhas. Ele também maneja um par de espadas.", Ukitake disse. Mayuri se virou para Byakuya, parecendo tenso. Apesar da aparência frágil de Ukitake, que estava constantemente doente, as habilidades dele eram consideravelmente formidáveis.
"E esse homem chamado Shunsui... você nunca mais o viu?", Byakuya perguntou. Ukitake ficou surpreso com a pergunta. Era raro o Capitão demonstrar interesse em fatos pessoais da vida de qualquer pessoa.
"Nunca mais. Ele nem chegou a concluir o treinamento. Ele foi embora, e eu nunca mais tive notícias dele.", Ukitake disse.
"Mayuri... quero que conte isso a Zangetsu. Depois, traga-o aqui.", Byakuya disse para o feiticeiro. Mayuri se levantou e saiu, curvando-se ao Capitão. "Mais alguma notícia sobre a Região Oeste?", Byakuya perguntou a Hisagi.
"Não, senhor. Isso foi tudo.", Hisagi disse. Byakuya respirou profundamente, e então cruzou as mãos, apoiando os cotovelos na mesa.
"Acredito que em duas semanas, a situação na Região Oeste já esteja estabilizada o suficiente para que aquela mulher possa decidir certas questões ainda pendentes. Se ela se casar com Ichimaru Gin, nossa situação se tornará extremamente favorável. Portanto, enviarei Tousen e Komamura para lá. Quero respostas daquela mulher. E, se possível, quero que descubram mais sobre o tal Manipulador de Gelo.", Byakuya disse. Os dois homens assentiram com a cabeça, acatando as ordens.
"E irei enviar Zangetsu e Zaraki para espiarem a Região Leste. Quero saber qual a extensão atual do exército dos Shihouin, e quem mais se aliou a eles. A prioridade de vocês dois será descobrir se eles realmente entraram em contato com uma Vila de Shinigamis. E, também quero saber mais sobre esse tal Shunsui, por isso, enviarei Ukitake e mais dois de seus homens para lá também."
Os homens concordaram, e então foram dispensados pelo Capitão. Ichigo e Renji eram os últimos a sair, e Byakuya ordenou que fossem buscar Rukia na outra sala:
"Quero que a tragam aqui.", ele ordenou. Os dois rapazes assentiram com a cabeça, e saíram. Caminhavam pelo corredor, Renji um pouco a frente.
"Por que só nós temos que escoltar a pirralha?", Ichigo resmungou.
"Eu não entendo qual o motivo da sua birra pela senhorita Kuchiki...", Renji disse, sem olhar para o rapaz. Ichigo revirou os olhos.
"Só não fui com a cara dela... além do mais, eu tenho os meus motivos.", foi a resposta do rapaz. Na opinião de Renji, Ichigo não estava acostumado a lidar com o sexo oposto, por isso não sabia como reagir a ela. Geralmente, o rapaz preferia resolver as coisas no braço, mas no caso de suas brigas com Rukia, ele não podia agir fisicamente com ela. Um pensamento nada apropriado se formou na mente do ruivo.
"Ou talvez seja por isso que ele ande tão mau-humorado. Alguém deveria mandá-lo para um prostíbulo, pra ver se ele fica um pouco mais animado.", Renji pensou.
"Só de pensar naquela voz irritante, e naquela expressão cínica, eu tenho vontade de socar alguém!", Ichigo disse, cerrando os dentes. A imagem da Rukia pentelha, puxando a orelha dele, jogando comida em seu rosto, xingando-o de diversas coisas, faziam o sangue dele ferver.
"Pois eu acho que você gosta dela. Só não percebeu ainda.", Renji disse, e quase riu ao olhar a expressão no rosto de Ichigo.
"QUÊ!! NUNCA!! Daonde você tirou uma idéia tão ridícula?!", Ichigo esbravejou.
"Não acho que seja tão ridículo assim. Afinal, você é um garoto, e ela é uma garota...", Renji disse. Atormentar Ichigo era realmente um dos hobbies favoritos dele.
"Abarai, ela é uma criança!", Ichigo disse, uma enorme veia saltando em sua testa.
"Falou o senhor de meia-idade.", Renji disse, e girou os olhos. "Você também ainda é uma criança, Kurosaki.", Renji disse, arqueando uma sobrancelha.
"Ora! Eu já tenho dezessete anos! Aquela menina deve ter... sei lá, uns doze anos!! E você não é muito mais velho que eu, Abarai!!", Ichigo disse.
"Quinze.", foi o que o ruivo disse, sem olhar para Ichigo.
"O quê?", o rapaz perguntou, sem entender.
"Eu quis dizer que a senhorita Kuchiki tem quinze anos. Vê, ela não é tão mais nova que você.", Renji disse, olhando para Ichigo. "E eu tenho dezenove anos, já sou maior de idade."
"O quê?!", Ichigo estava surpreso. "Mas... ela é tão pequena e magrela!", ele disse, sem acreditar que aquela menina bem menor que ele era apenas dois anos mais jovem.
"Bem, algumas pessoas tem a constituição mais franzina mesmo... além do mais, ouvi dizer que o treinamento nas Montanhas de Osorezan é parecido com o dos monges, então ela não deve ter sido muito bem alimentada durante a fase de crescimento.", Renji disse. Ichigo coçou a cabeça.
"E como é que você sabe essas coisas?", ele perguntou, caminhando ao lado de Renji.
"Zangetsu me contou.", o ruivo disse, e riu alto ao ver a expressão de Ichigo.
"Ele não me contou essas coisas!", o rapaz disse, indignado.
"Por acaso você estava curioso? Achei que você tinha dito que a senhorita Kuchiki o irritava...", Renji disse. Ichigo quis socá-lo. Ele odiava quando alguém usava as palavras dele contra ele mesmo.
Renji já estava satisfeito de atazanar Ichigo, e parou de caminhar. Ele bateu duas vezes na porta da sala, e quando não obteve resposta, ele deslizou a porta um pouco, e espiou dentro do cômodo. Estava vazio.
"Que estranho. O Capitão disse que ela estaria aqui...", ele disse, abrindo a porta completamente e olhando ao redor.
"A porta da varanda está aberta.", Ichigo disse, e olhou para o lado de fora. O céu ainda estava nublado, e o que de manhã era uma brisa fria agora era um vento gelado, que fazia as árvores balançaram freneticamente. Já passava do meio-dia.
"Será que ela saiu?", Renji perguntou. Ichigo deu de ombros. "Eu vou lá avisar ao Capitão que ela não está aqui.", e com isso, o ruivo saiu da sala pela porta de onde entraram e Ichigo ficou sozinho.
O rapaz continuou a observar a paisagem lá fora. A sua frente, bem lá adiante ficava o galpão onde o exército se alojava. Ichigo viu o poço de água, e lembranças da noite passada voltaram a sua mente.
A luz da Lua estava intensa, mas os olhos dela brilhavam com mais intensidade ainda. "Os olhos dela...", Ichigo murmurou. Rukia.
Ele jamais admitiria a alguém que a observava quando podia. Havia algo nela que fazia o peito dele palpitar estranhamente, e ele se sentia frustrado por não entender o que era. Quando ela olhava para ele, com aqueles grandes olhos azuis, ele sentia que estava afundando na imensidão contida neles. Ele podia ler os sentimentos dela como se ela fosse um livro aberto.
A solidão, a tristeza, o vazio que ela guardava e escondia por trás daquela língua ferina. Mesmo quando ela estava zangada, e suas sobrancelhas se encrispavam de raiva, ele ainda podia ver a tristeza lá dentro. E aquilo o deixava abalado.
Será que somente ele podia ver por trás daquela máscara? Será que mais alguém percebeu o quão infeliz ela realmente era?
Mas, Ichigo se repreendia por sentir aquilo. Afinal, ela era uma Kuchiki, e ele odiava todos os Kuchiki. Cada vez que ele se pegava pensando demais nela, uma voz no fundo da cabeça dele gritava. Era a consciência dele, relembrando-o daqueles fatos que não podem ser reparados.
Do motivo pelo qual ele estava ali, se preparando para uma guerra que não tinha a menor importância para ele. Obedecendo um homem que ele odiava. Aguentando toda a humilhação que ele sofria, mesmo ele sendo muito mais nobre e poderoso que qualquer um ali.
Ele sentia o ódio queimando sua alma, e tudo que ele queria era matar Byakuya. Justamente o irmão dela.
Quinze anos.
Exatamente a idade que ele tinha quando tudo aquilo aconteceu. Antes disso, a vida dele havia sido feliz. Ele vivia com sua família, no pequeno vilarejo de Karakura que ficava isolado no alto das Montanhas, sem se preocupar com as guerras estúpidas provocadas pela ganância dos nobres.
Mas, a vida só havia se tornado um inferno após os quinze anos. O que será que aconteceu nos quinze anos anteriores da vida de Rukia, para ela ser tão infeliz? Será que o treinamento nas montanhas de Osorezan havia sido tão horrível assim?
Mas naquela manhã, quando mencionaram o treinamento, ela não se mostrou abalada. Geralmente, quando se menciona a causa do trauma de uma pessoa, a reação dela é bem distinta. E, Ichigo reparou que a menina fitava as colinas, e enquanto ela fazia aquilo, os olhos dela pareciam os de um zumbi. Completamente sem vida, sem esperança. Ele teve vontade de abraçá-la naquela hora, e dizer que tudo ficaria bem, e que o que quer que fosse, já era passado.
Se Abarai não tivesse ido conversar com ela, Ichigo pensou que talvez ele realmente teria feito isso tudo.
De onde surgiu esse sentimento de proteção? É claro, Ichigo tinha duas irmãs mais novas que ele, e a princípio, ele pensou que talvez fosse isso, ele só quisesse protegê-la porque o sentimento de irmão-mais-velho dele estava retornando. Mas não era aquilo.
A garganta dele não secava, nem a respiração ficava presa em seus pulmões quando ele pensava nas irmãs. E também, ele não sentia aquela ansiedade no peito ao olhar para elas como ele sentia quando olhava para Rukia.
"Kurosaki! O Capitão nos mandou procurá-la!", Renji disse, um pouco ofegante. Ichigo deu uma última olhada no poço, e então fechou os olhos.
"Okay.", ele disse e se virou para o ruivo. "Por onde começamos?", ele perguntou.
"Eu tenho uma idéia...", Renji murmurou, e Ichigo olhou para ele.
"As colinas.", os dois disseram ao mesmo tempo.
Continua...
Nota da Autora: No começo, eu pensei em não inserir os elementos da história original de Bleach, como os termos (kidôu, shinigami, reiatsu, etc), mas essas palavras fluiram naturalmente enquanto eu escrevia a história.
No entanto, na minha fic eu as utilizo de uma forma um pouco diferente...
Realmente espero que o amadurecimento da Rukia esteja sendo percebido por vocês... ela começa como uma pirralha boca-suja, mas com o passar do tempo, ela cresce um pouco. Pelo menos alguns personagens têm percebido essa mudança (Renji e Ichigo).
Sim, na minha concepção, amadurecer é aceitar as suas tristezas ao invés de mascará-las. É por isso que a Rukia começa a ficar muito melancólica...
E, como é óbvio, essa fic é centrada na Rukia e no Byakuya. Personagens principais-secundários (isso existe?) que são o Renji e o Ichigo também têm sua história e pensamentos explorados aqui. Quanto aos demais personagens, irei escrever fics paralelas a essa.
Um exemplo é o encontro entre Hisagi e a mulher linda dele, enquanto ele espiava a Região Oeste... outros casais também surgirão, e a história deles também será contada nessas fics paralelas.
Rumo ao próximo capítulo!