BEM MAIS QUE AMIGOS!
por Nina Neviani
beta-reader: Chiisana Hana
Capítulo X
Em poucos instantes eu tenho que me declarar para a mulher que estou afim e ainda não decidi como vou fazê-lo.
Não posso ser direto demais, porque a Minu - a mulher em questão - é uma romântica cabeça-dura.
Não posso ser meloso porque... na verdade, eu nunca conseguiria ser meloso, nem que a minha vida dependesse disso.
Eu ainda não tinha pensado no discurso ideal quando a Minu voltou. Pensei em ser direto e dizer de uma vez por todas que a amava e ponto. Mas não... Não seria bom a Minu descobrir tão cedo o "poder" que ela tem sobre mim, como a Pandora falou uma vez.
"Calma, Ikki Amamiya, vamos com calma."
Escolhi um outro assunto qualquer e disse:
- Como vão seus pés, Minu?
Ela pareceu surpresa por alguns instantes, mas então logo se recuperou, falando:
- Desde quando Ikki Amamiya se preocupa com alguém?
Uma pessoa normal responderia "Estou melhor, Ikki." ou "Estou pior, Ikki.". Mas ela não, ela sempre tinha que ser irritante.
"Será que ela me ama mesmo?"
Decidi que responderia a pergunta dela de forma que ela pudesse entender que eu gostava dela. Gostava dela como mulher, não apenas como amiga.
- Me preocupo apenas com as pessoas que são importantes para mim.
Depois dessa declaração eu esperava por algumas coisas. Ela poderia dizer que eu também era importante pra ela, ou perguntar se era realmente importante pra mim, ou - o que eu esperava que não acontecesse - rir da minha cara por suspeitar que eu estava apaixonado por ela. Entretanto, nada disso aconteceu. A Minu simplesmente caiu.
Caiu.
Não faço a menor idéia de como ela conseguiu levar um tombo daqueles na própria casa. Pensando melhor, acho que nem uma criança que estava começando a andar tropeçaria como ela tropeçou.
Porém, ela ainda estava no chão com os olhos fechados.
"Será que ela se machucou?"
- Tá tudo bem com você? - perguntei quando cheguei mais perto.
Ela parecia estar bem, mas poderia ter tido alguma fratura. Nunca se sabe.
Esse seria o meu futuro como namorado da Minu: namorado oficialmente, mas também teria outros encargos, como segurança, enfermeiro, anjo da guarda...
E tudo por quê? Porque a Minu Setsuna era a confusão em forma de gente.
Uma forma humana bem agradável, era verdade.
Nesse momento a Minu abriu os olhos e disse:
- Acho que não quebrei nada. Só consegui fazer com que os meus pés doessem mais ainda.
Sentei no chão, perto dos pés dela, e tive a certeza de que eles não estavam lesionados. Um pouco maltratados por causa dos sapatos assassinos do dia anterior e agora o esquerdo estava mais vermelho por causa da batida na mesinha de centro.
Minu tinha pés bonitos e pequenos. As unhas estavam impecavelmente esmaltadas.
Naquele momento, os pés dela não estavam na melhor forma. Para falar a verdade, eles estavam bem inchados, por isso comecei a massageá-los. Não para provocá-la ou qualquer outra coisa. Na verdade nem sei o que me levou a repetir a massagem de ontem. Quando vi já estava fazendo.
Quis rir quando a ouvi suspirar. Ao que parecia a minha inocente massagem afetava a Minu de outra maneira, que não o alívio da dor. Não resisti à vontade de provocá-la:
- Minu, não me diga que um simples toque meu no seu pé a afeta tanto ao ponto de te fazer suspirar?
Minu se levantou rápido e, um pouco indignada, falou:
- Óbvio que não. Eu tenho cócegas. Muitas cócegas.
Mentira n.º1 da noite. Em uma situação comum eu a teria provocado até que ela confessasse que não foi cócegas que ela sentiu, mas como eu era um homem às vésperas de se declarar, controlei - a muito custo - essa vontade. Apenas disse:
- Que eu saiba, pessoas que sentem cócegas, riem. Não suspiram.
- Pessoas que têm pés sadios e sentem cócegas, riem. Agora, pessoas que têm todos os músculos, ossos e nervos dos pés doendo por ter usado sapatos assassinos; pessoas que tiveram esses mesmos pés esmagados por uma pirralha pesada demais para a idade dela; e pessoas que, para completar, bateram esse mesmo pé na perna da mesa... Essas pessoas não riem quando sentem cócegas. Elas suspiram quando sentem cócegas. Entendeu?
Mentira nº2.
- Como eu poderia discordar? Já pensou em se associar ao Hyoga? Você daria uma ótima advogada. Ou pelo menos confundir os juízes. Porque, por mais absurda que seja a tese que você defende, os seus argumentos soam dramaticamente convincentes.
- Eu não acho que você tenha vindo até aqui para conseguir um sócio para o Hyoga. E nem para saber como estão os meus pés. Então, a que devo a honra da sua visita, Ikki Amamiya?
- Eu vim saber como você está... com relação ao fim do namoro.
- A tua amiga te conta tudo, hein?
- Quem? - De quem ela estava falando?
- A Heinstein. Não foi ela quem te contou?
- Não. E como a Pand sabe que você e o Aiolos terminaram?
- Hum... eu e ela tivemos uma conversinha. Como você soube, então?
Pandora e Minu tendo uma conversinha? Desde quando? Mas o que eu tinha que fazer era responder a pergunta da Minu.
- O Priamos me ligou.
- O Olos te ligou? Por quê?
Olos? Que apelido ridículo é esse? Mas, claro que só podia ser apelido daquele... imbecil. E eu novamente me pergunto como as mulheres podem se sentir atraídas por algo que elas vão chamar de "Olos"? Pensando bem, apelidos em geral já não algo muito masculino. Nomes másculos mesmo são aqueles que não dão margens para apelidos, como o meu por exemplo. Ikki.
Enfim... o "Olos" tinha me ligado e a Minu queria saber o motivo. O que eu poderia dizer? Que ele ligou pra dizer que sabia que eu amava a Minu desde o momento em que ele nos viu juntos pela primeira vez? Não, obrigado. Admitir que gostava da Minu já seria difícil, mas seria muito pior dizer que o Aiolos tinha percebido isso muito antes dela. O melhor seria dizer algo que ela pudesse se declarar primeiro. Claro!!!
- Ele acha que nós... combinamos.
Agora ela se declara dizendo:
"Sim, é verdade, Ikki. Você é sexy, bonito, bem-sucedido, enfim... irresistível, até mesmo pra mim. Eu amo você, Ikki."
Então ela me daria um beijo, e...
- E...?
"E"? Por que a cabeça dura da Minu não podia admitir logo que me amava?
- Você não vai facilitar mesmo, hein? - Perguntei.
- Não sei do que você está falando. - Ela teve a cara-de-pau de se fazer de desentendida.
Ok. Eu teria que me declarar primeiro? Paciência.
Mas por onde começar? Então tive uma lembrança que seria perfeita para ajudar na minha declaração.
- Certo. Você lembra do baile da minha formatura do colegial?
- Os piores dias da minha vida, eu procuro esquecer.
Pior dia? Por quê? Ela devia ter adorado. Ficou quase a noite inteira dançando com o Seiya. Melhor não tentar buscar respostas, pois a mente de Minu Setsuna sempre vai ser um mistério.
- Não importa. Vamos relembrar. Eu te convidei para ser o meu par...
Ela me interrompeu, dizendo:
- Peraí. Já que vamos fazer isso, vamos fazer direito. Você não me convidou para ser o seu par. Um dia, quando eu estava na sua casa fazendo um trabalho da escola com o Shun, você disse: "Minu, você vai ao baile comigo". E nem esperou uma resposta.
É, talvez tenha sido assim mesmo. Mas o que ela queria? Um buquê de flores junto com o convite? Eu nunca fui do tipo meloso. E foi bom mesmo eu não ter sido, já que ela me largou no meio do baile.
- Dá na mesma. Você foi ao baile comigo.
- E você reclamou a noite toda que eu pisava no seu pé.
- E pisava mesmo E foi só na primeira metade da noite, porque na segunda você foi correndo para os braços do Seiya.
Espero que ela tenha pisado no pé do Seiya tanto quanto pisou no meu.
- Eu não fui para os braços do Seiya. O Seiya, assim como eu, não era formando. Ele foi convidado para ir ao baile, e a menina que tinha convidado ele resolveu voltar com o namorado justamente naquela noite, e o Seiya ficou sem par. E veio me pedir se eu podia ser par dele, já que nenhuma das garotas dava bola pra ele, porque eram mais velhas.
- Você viu então a oportunidade perfeita de abandonar o seu par.
- Como se você tivesse encontrado alguma dificuldade para conseguir um par. Em menos de cinco minutos você já estava com outra garota. - Isso era verdade, eu pude até escolher com qual garota iria passar o resto da noite - Mas, afinal, o que tudo isso tem a ver com o presente?
Respirei fundo e disse:
- Eu ia pedir você em namoro naquela noite.
Eu esperei pela resposta da Minu.
Que não veio.
Esperei um pouco mais até dizer:
- Diga alguma coisa.
- Eu... eu pensei... eu pensei que...
Será que era algum efeito retardado da queda?
- Pensou que...? - Incentivei.
- Que você estivesse odiando dançar comigo.
Pelo contrário... Tudo bem que as pisadas no meu pé eram doloridas, mas no geral, a dança compensava.
- Eu estava tentando formular o pedido, mas cada vez que eu ia começar você pisava no meu pé.
- Era só você ter dito "Minu, quer namorar comigo?". Ou então, fizesse como você fez pra me convidar pro baile, chegasse e dissesse: "Minu, nós estamos namorando". Simples.
Simples? Desde quando algo com Minu Setsuna era simples?
- Não era tão simples assim. Eu tinha apenas dezessete anos e nunca tinha namorado sério. E além de tudo, você me assustava!
- Nossa, Amamiya, você sabe como pisotear o ego de uma mulher!
Não era isso o que eu queria dizer... Sorri, lembrando de qual era a maneira que ela me "assustava".
- Vou tentar me explicar melhor. Você era a amiga pentelha do meu irmão, era chata, irritante e me ignorava. O meu irmão, o Shiryu, o Hyoga, e o Seiya só viviam com você e faziam tudo o que você queria.
- Ei! Não era bem assim. É que eu era a única menina.
Ignorei-a.
- E mesmo eu tendo um bando de garotas aos meus pés...
- Convencido.
Convencido? Não. Era a mais pura verdade, desde cedo eu era objeto de desejo de muitas representantes do sexo oposto.
- Realista. E mesmo eu tendo um bando de garotas aos meus pés... era na chata da amiga do meu irmão que eu pensava.
- Você pensava em mim?
Bem mais do que eu gostaria.
- Você, por sua vez, só tinha olhos pro Seiya.
- Claro que não! Eu gostava..., quer dizer, eu pensava em você também. Eu nunca fui apaixonada pelo Seiya.
O quê???
Então... ela e o Seiya nunca...
Se ela nunca foi apaixonada pelo Seiya, então era mesmo verdade. Ela sempre gostou de mim!
Só isso bastava para deixar a noite maravilhosa. Fui para o sofá onde ela estava, e nós estávamos quase nos beijando quando ela disse, ao mesmo tempo em que me empurrava para o outro sofá:
- Não. Antes vamos deixar algumas coisas bem claras.
- E depois...?
- Não haverá um "depois" se as coisas não estiverem resolvidas entre nós. Sabemos que somos... han... muito compatíveis, agora precisamos conversar.
"Muito compatíveis"? Nós dois éramos bem mais do que muito compatíveis. Mas tudo bem... uns minutinhos a mais, uns minutinhos a menos... Agora que eu sabia que a Minu sempre foi apaixonada por mim, eu poderia fazer concessões. Contudo, não deixaria de provocá-la.
- Nem começou e já estamos discutindo a relação? Não sabia que você era assim, Minu!
- Ótimo. Agora você já sabe que a Minu de vinte e sete anos é assim. Vamos voltar a falar da Minu de dezesseis, aquela em que você pensava muito.
- Eu não disse que pensava muito. Eu disse que pensava.
- Eu sou jornalista, sei ler nas entrelinhas. Porque você pensava muito na Minu de dezesseis anos?
O que ela queria? Um declaração por escrito?
- Já disse. Porque você era chata, irritante e bonita.
- Você não tinha dito que me achava bonita.
- Eu pensei que você soubesse que sempre foi muito bonita.
- Eu achava que não... nenhum menino se interessava por mim.
Senti algo remotamente parecido com arrependimento. Se eu fosse menos orgulhoso, eu teria dito enquanto ainda éramos adolescentes que eu gostava dela. Não precisaria ameaçar os meninos da escola para que eles não mexessem com a Minu.
Assim, resolvi dizer a verdade.
- Bom... se interessar, eles se interessavam, mas...
- Mas, o que, Amamiya?
- Mas eles sabiam que eu gost... pensava em você. E você sabe, eu era respeitado.
Se bem que se ela fosse um pouco menos cabeça-dura, ela teria dado alguma pista de que gostava mim. Eu não era o único culpado.
- Eu podia ter desenvolvido algum trauma ou algo do tipo!
E essa será minha namorada... Bonita, inteligente, irritante, dramática, exagerada...
- Não seja dramática, Minu. Você devia me agradecer! Livrei você de alguns adolescentes idiotas cheios de hormônios.
A mais pura verdade. Talvez se não fosse eu, a essa hora ela já poderia ser mãe de um pré-adolescente, casada com um cara qualquer, enfim, uma vida lamentável da qual eu a livrei.
Voltando presente... Continuei:
- Falando em hormônios... Tudo está claro. Agora vamos para o "depois".
- Não ouse sair desse sofá! Ainda temos muito que conversar. E você não me pediu em namoro por quê?
Paciência... Paciência...
Sinceridade.
- Porque eu achava que você gostava do Seiya. Mas se a maioria das garotas do colégio era apaixonada por mim, você poderia, pelo menos, me achar interessante, e como nenhum outro garoto dava sinais de estar interessado em você... Só que o Seiya estalou os dedos e você foi correndo.
- E você passou todo esse tempo gostando de mim...
Exatamente. Mas só agora eu tinha notado isso.
- Não coloque palavras na minha boca. Nesses anos eu apenas continuei achando você irritante, chata e bonita.
- E você está aqui só porque me acha irritante, chata e bonita?
Eu ri do absurdo da situação. Eu, Ikki Amamiya, tendo que se declarar nos mínimos detalhes para uma jornalista esperta demais. O que me lembrava de torcer para nunca precisar ser realmente entrevistado por Minu Setsuna.
- Você está adorando tudo isso, não é? - falei.
- Estamos tendo uma conversa interessante.
Paciência... Paciência...
E mais uma dose de sinceridade.
- Ok, Setsuna. Eu admito: depois que nós nos beijamos pela primeira vez eu voltei a pensar em você.
- Pensar muito?
- Sim, Minu, pensar muito.
- Só pensar muito?
Ergui uma sobrancelha. Será que isso não bastava? Eu admitiria, mas teria volta.
- Eu voltei a gostar de você.
- Só gostar?
- Droga, Minu. Eu amo você! Satisfeita?
- Muito satisfeita! - Quando eu vi, ela já estava no meu colo, me abraçando pelo pescoço, e quase me beijando, quando chegou a hora da "volta".
- Perfeito. Agora você.
Minu, ainda no meu colo, abriu os olhos e meio confusa, perguntou:
- Como?
- Sim, você.
Minu sorriu e tentou me fazer desistir do meu propósito fazendo carinho no meu pescoço, enquanto dizia.
- Ikki... já falamos tudo o que tínhamos pra falar. Já podemos ir para o "depois".
- Pra que a pressa, Minu? Vamos esclarecer as coisas.
- Você me paga, Ikki.
- Prometo fazer cada minuto do "depois" valer muito a pena. Mas primeiro, você fala.
Entretanto, continuei com ela no meu colo. Afinal... assim era muito melhor.
- Certo. Eu acho que comecei a pensar...
- Muito? - provoquei.
- ... em você desde os meus quatorze anos.
Já fazia treze anos que a Minu gostava de mim? Se eu soubesse...
- Nossa, mesmo no auge da puberdade eu já era irresistível.
- Vai me deixar falar ou não?
- Se você gostava de mim, por que você me ignorava?
- Eu não ignorava. Eu era tímida. E tinha o meu orgulho, por isso não ficava correndo atrás de você como aquelas oferecidas da escola.
Então esse era o motivo pelo qual a Minu me olhava com aquele ar esnobe quando tinha alguma garota comigo!
- Você tinha ciúmes delas!
- E você tinha ciúmes do Seiya. Tem coisa pior?
É... melhor não comentar mais sobre esse assunto. Assim, disse:
- E você passou todo esse tempo gostando de mim.
- O limite do amor e do ódio é muito sutil. Digamos que eu passei os últimos treze anos nos dois lados desse limite.
- Ah, é? E o Sr. Perfeição? - Eu ainda não engolia direito o relacionamento dela com "Olos".
- E a Garota Angelical?
- Eu confundi as coisas. Namorar a Esmeralda foi um erro, assim como foi um erro você namorar o Aiolos.
- Eu não acho que tenha sido um erro o meu namoro com o Aiolos.
- Ah, não?
Será que eu precisaria lembrá-la do comportamento lamentável dele na noite anterior?
- Não. O Aiolos é uma pessoa maravilhosa. E agora que o nosso namoro acabou, nós nos tornamos amigos. É bom você se acostumar com ele.
- E é bom você se acostumar com a Pandora.
- Ah, não, Ikki! Eu não confio nela, ela vai dar em cima de você, do Seiya, do Shiryu, do Hyoga, do Shun, ou de qualquer outra coisa que ela suspeite ser do sexo masculino.
- Minu! A Pand é... sedutora por natureza. Mas ela gosta mesmo do Aiolos.
Outra decepção. Eu realmente admirava a Pandora pelo bom gosto dela, mas desde que ela disse que estava apaixonada pelo Aiolos, ela perdeu alguns pontos com a minha pessoa. Continuava sendo a minha melhor amiga, claro. Contudo, já não confiaria mais cegamente no bom gosto dela.
- Como você sabe?
- Eu sou o melhor amigo dela. E com relação à confiança que ela sempre tem, quando se referia ao Priamos, ela vacilava. Ontem, ela ficou morrendo de ciúmes de você, porque ela achava que o Aiolos iria preferir você a ela. Mas ainda assim, você não tem que se preocupar com o Seiya, Shiryu, Shun e Hyoga, ou com qualquer outra coisa que possa ser do sexo masculino. Você tem que se preocupar apenas comigo.
- E você me ama. Só a mim.
Mulheres...
- Convencida. Mas... tudo bem, você me ama também.
- Eu não disse isso.
Só que logo logo iria dizer...
- Mas eu sei, afinal quem não amaria um cara irresistível como eu?
- Sr. Irresistível, acho que já é "depois".
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Quinze dias depois...
Estava saindo do banho quando comecei a pensar no quanto a minha vida tinha mudado nos últimos quinze dias. Dias incríveis, eu tinha que confessar. E a causadora de tudo.
Minu Setsuna.
Minha namorada.
Tinha demorado um pouco... Mais de dez anos, mas finalmente ela era a minha namorada.
E finalmente mesmo, já que eu não pretendia deixá-la escapar. E já tinha tomado algumas medidas quanto a vida dela, como por exemplo, livrá-la - assim como o resto da cidade - do perigo que era o carro antigo dela. Ela deu-o de entrada por um carro novo. Claro, que qualquer loja de veículos normal não aceitaria o carro da Minu nem como entrada de um patinete, mas - sem a Minu saber - dei uma "colaboração" na compra. Assim, a Minu teve a impressão de que o carro dela valia um bom dinheirinho. Nunca pensei que fosse fazer algo assim apenas para não decepcionar uma mulher, porém a mulher em questão era a Minu. E se tratando dela... eu poderia tentar ser um pouco melhor. E ela aos poucos ia mudando a minha maneira de ver o mundo. Por exemplo, sem que ela tivesse dito uma palavra sequer sobre o assunto, o fato de ser pai já não me assustava tanto.
Mas em que diabos eu estou pensando?
Ser pai?
Uma coisa de cada vez, Ikki Amamiya.
Para afastar esses pensamentos obscuros da minha cabeça, acabei de me vestir e liguei pra Minu.
- Alô?
- Sou eu.
Escutei um som parecido com o de algo sendo derrubado. Sorri, a Minu estava se arrumando. Eu nunca tinha conhecido alguém tão desastrada como ela.
- Ótimo, Ikki. Eu te amo, você me ama. Agora eu tenho que acabar de me arrumar, senão vou chegar atrasada ao encontro.
- Você sempre chega atrasada. Só estou ligando pra dizer que o plano está de pé.
- Ok. Até logo.
- Até. E Minu?
- Sim?
- Você tem razão, mesmo você sendo a mulher mais irritante do mundo, eu te amo.
Uma das outras coisas que eu tinha aprendido, era que deixar o orgulho de lado e admitir que a amava tinha o seu lado bom.
- Eu também te amo.
Peguei a chave do carro, a carteira e o celular e fui para o "encontro" para colocar o "plano" em prática. Encontro que seria no lugar onde nos reuníamos antes de passarmos a freqüentar o pub indicado pelo Aiolos. A escolha desse lugar fazia parte do plano. E o plano consistia simplesmente em chocar os nossos amigos. Nenhum - nem mesmo meu irmão - sabia que eu e a Minu estávamos namorando. Não foi fácil despistar o Shun. Nesses quinze dias, nós nos falamos duas vezes. Ambas por telefone. Ela tinha dito que eu parecia diferente, menos irritando e mais bem humorado, e perguntou se estava tudo bem. Desconversei e não disse que eu e a Minu tínhamos acertado as nossas divergências.
Acertado muito bem, aliás.
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Quando cheguei no barzinho, o casal Suiyama e Hyoga e Eire já estavam. Cumprimentei-os normalmente e logo Shun e June e o casal Ogawara também se juntaram a nós. Só faltava a Minu.
- A Minu está atrasada novamente? - Seiya perguntou. E somente agora eu percebia que não havia nenhum interesse oculto da parte dele. Eles eram apenas amigos. E nada mais.
- Estamos falando da Minu, Seiya, ela sempre se atrasa. - Hyoga disse, e olhou pra mim, provavelmente esperando por alguma contribuição minha. Já que eu sempre implicava com ela.
Eu, entretanto, não disse nada. Hyoga estranhou, no entanto, não fez nenhum comentário.
- É verdade que ela e o Aiolos se separaram? - Shunrei indagou.
- É verdade. - Disse, rápido demais. Teria que me controlar ou estragaria o plano. Para não suspeitarem de nada, emendei - A Pandora me disse.
- Pois é, - a enfermeira do grupo continuou - eu e o Shiryu encontramos com os dois na semana passada. E ele disse que ele a Minu tinham terminado.
- Ele e a sua amiga pareciam muito bem, Ikki. - Shiryu acrescentou.
Antes que eu pudesse dizer algo, ela chegou:
- Minu! - Seiya disse.
- Por onde você andou? - Eire perguntou, já que a Minu tinha feito de tudo para evitar falar com a amiga, ou poderia colocar o nosso plano em perigo.
- Oi, Minu. - Eu disse na minha voz mais comum. Porém, quase ri quando os nossos amigos se viraram espantados pra mim. Eu nunca cumprimentava a Minu, e quando o fazia sem nenhuma sombra de sarcasmo ou provocação, então.
- Oi, Ikki! Tudo bom? - A Minu respondeu normalmente.
- Tudo e com você?
- Tudo bem também.
A Minu veio sentar na cadeira vaga - que era ao meu lado. Levantei e puxei a cadeira para ela sentar, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo entre mim e a Minu.
Shiryu se manifestou, meio hesitante:
- Está tudo bem com vocês?
- Está sim. Por quê? - Foi a Minu quem respondeu.
Shunrei, por debaixo da mesa, deu uma cotovelada no marido, que rapidamente disse:
- É... Nada não.
Começamos a conversar como fazíamos em todos os encontros. Claro que sempre que podíamos, eu e a Minu tentávamos confundir os nossos amigos, fosse eu pegando na mão da Minu ou ela cochichando algo no meu ouvido. Obviamente, nenhum desses gestos passou despercebido ao resto do grupo. Algum tempo depois, achamos que já poderíamos chegar ao ápice da nossa atuação.
Afastei o cabelo do rosto da Minu, num gesto previamente ensaiado. Ela virou para me olhar, também num movimento já ensaiado. Então nos beijamos.
O pessoal ficou alguns instantes sem saber o que dizer, até que começaram a rir, assobiar e bater palmas, quando não faziam tudo isso ao mesmo tempo. Escutei o meu irmão dizer algo como "até que enfim".
- Então, gostaram da surpresa? - Perguntei
- Eu ainda não acredito que você não me contou, Minu! - Eire parecia realmente chocada pelo fato de a Minu não ter contado nada pra ela.
- Se eu contasse estragaria a surpresa.
- Vocês estão há quanto tempo juntos? - June perguntou
- Quinze dias. - Nós dois respondemos ao mesmo tempo.
A Minu chegou mais perto de mim, e eu a abracei.
- Conte-nos, Ikki. Como está sendo a sua vida de homem sério? - Hyoga perguntou.
- Tenho que admitir que está melhor do que eu esperava.
O resto da noite passou enquanto conversávamos tanto sobre o casamento e a lua-de-mel do Seiya e da Saori, quanto do meu entendimento com a Minu.
Beijei a Minu no pescoço. Eu não seria mais orgulhoso e admitiria o que eu sentia. Porque, por mais que eu tivesse tentado enganar a mim mesmo, eu sempre fui apaixonado pela amiga chata, irritante e bonita do meu irmão.
A minha Minu Setsuna.
FIM!