Porém nas últimas doze horas, eu nada pude fazer além de esperar.
E para mim não há nada que possa ser considerado mais passivo do que o ato de esperar.
E para piorar um pouco mais, eu não sabia o que exatamente esperar.
Que um raio caísse na cabeça da Minu e que assim ela percebesse que o meloso, chato, velho e, agora, infiel Aiolos Priamos não era o homem certo para ela?
Talvez.
A campanha "Separe a Minu do Aiolos" tinha sido planejada essencialmente para o dia do casamento do Seiya - ontem. Entretanto, o Ogawara já estava casado e o Aiolos ainda não estava com a Pand, e muito menos a Minu, comigo.
Eu estou - sozinho - no meu apartamento, sem ter nada o que fazer além de pensar na Minu.
E eu que pensava que o Seiya seria a principal pedra no meu caminho, mas não... O Ogawara já era o mais novo milionário da cidade (Hyoga tinha me contado que o casamento dele com a Saori tinha sido em comunhão total de bens), e eu a Minu ainda não estávamos juntos.
O Seiya começou a atrapalhar há muito tempo. Quando eu estava me formando no colegial, convidei a Minu para ser o meu par no baile. Ela aceitou. Até aí, tudo dentro do planejado. Só que uma formanda - que provavelmente era cega ou louca - convidou o Seiya para ser o par dela. Na metade da festa, a garota percebeu que o Seiya é quase um ser de outro mundo e mandou ele pastar.
E pra quem ele foi correndo?
Minu Setsuna. Meu par.
E a Minu me largou para ser o par do Seiya.
Se eu fosse uma pessoa vingativa...
Pelo menos, tudo isso aconteceu antes de eu pedi-la em namoro. Óbvio que depois dessa grotesca demonstração de mau gosto (me trocar pelo Seiya) eu desencanei de querer namorá-la.
Até agora.
O tempo passou e eles nunca assumiram o romance. O Seiya, por algum milagre do destino, conseguiu arranjar quem deseje cumprir a pena de passar o resto da vida ao lado dele, ou pelo menos, tentar fazê-lo.
Assim, Seiya com alguém, Minu solteira, eu solteiro: não haveria nenhum empecilho para eu e a Minu ficarmos juntos.
Mas quando uma pedra sai do caminho, outra surge.
Aiolos Priamos.
O cara mais chato da face da terra.
Mas que, por alguma razão, encantou a Minu. Talvez ela tenha um péssimo gosto e não consiga ser normal como as outras mulheres, ou seja, ter uma queda por mim.
Se esse fosse realmente o caso, o que me restava fazer era desencanar da Minu.
A droga era que eu já tinha tentado e não tinha conseguido tirar a Minu da minha cabeça. Eu não sei o que ela tem, mas ela me irrita e me atrai ao mesmo tempo. E depois do aniversário dela, ela, definitivamente, me atrai. Aliás, era melhor não pensar muito na noite do meu aniversário para o meu próprio bem.
Quando estava me levantando do sofá - já que não poderia passar o domingo inteiro pensando na jornalista mais irritante da cidade - o telefone tocou.
- Ikki Amamiya.
- Amamiya, aqui é o Aiolos.
A pedra nº 2.
Como não somos nem remotamente amigos, o telefonema só poderia ter dois motivos: Pandora ou Minu. Como foi ele quem me ligou, desconfio que o motivo seja a Pand.
- O que foi? A Pand esqueceu de dar o número do telefone dela, ontem?
- Não. Mesmo porque eu já tinha o número dela desde o Congresso.
- O que é, então?
- A Minu.
- Se você for falar algo sobre o fato de eu tê-la ajudado no jardim...
- Não é nada disso, Amamiya.
Só porque eu ia dizer umas boas verdades para ele.
Ele continuou:
- Se você parar de falar e me deixar falar, você vai saber porque eu te liguei.
- Desembucha.
- Eu e a Minu, amigavelmente, terminamos o nosso relacionamento.
- Era de se admirar que depois do seu descaso de ontem, ela continuasse com você.
Escutei o Aiolos respirar forte.
- Acontece, Amamiya, é que tanto você quando a Minu são cabeças-duras demais para perceberem que se amam.
- O quê? Quem disse que eu...
- Desde o primeiro dia em que eu vi vocês dois juntos, e senti na pele a sua implicância gratuita, eu percebi que você gosta da Minu mais do que um amigo gostaria.
Tá, talvez eu tivesse implicado com ele em parte porque ele era o namorado da Minu. Só que ainda assim, ele era chato, meloso, velho...
Mas ele tinha dito "se amam", então...
- Como você sabe que ela gosta de mim?
- Ela me disse.
Involuntariamente, apertei mais firme o telefone. Se, por um acaso, esse telefonema fosse uma piada do Priamos, o mundo teria um professor de História a menos.
- Como assim, ela te disse?
- Por que você não pergunta pra ela? Vá até a casa dela, Ikki. Por um momento apenas, parem de implicar um com o outro e conversem.
- Você está falando sério?
- Claro, e quanto mais cedo você desligar esse telefone, mais cedo eu vou poder ir para a casa da Pand.
- Certo.
- Até mais, Ikki.
- Até mais, Aiolos.
Pedra nº2 fora do caminho.
A Minu gosta de mim.
Segundo o Aiolos, me ama.
Já fico feliz em saber que ela não me odeia.
Claro que ela não seria tão diferente das outras mulheres assim.
Afinal ela é uma mulher, e assim, basta eu usar o meu charme.
Ela não vai resistir e vai revelar que me ama.
Vai ser fácil!
Tomei um banho, me arrumei e fui para o apartamento da Minu.
Decidi subir pelas escadas e assim fui pensando num discurso aceitável para quando a Minu declarasse que me amava. Não podia ser muito direto, porque a Minu era uma cabeça-dura romântica. Mas também não podia ser meloso, porque eu não ia trair a minha natureza.
Quando me dei conta já estava na porta do apartamento da Minu.
Respirei fundo. Tentei não me lembrar da última vez que estive ali, seria muito mais fácil sem as lembranças de um certo pijama do Mickey.
Afastando as lembranças, apertei a campainha.
Não demorou muito, a Minu atendeu. Quase suspirei de alívio quando vi que ela não estava com o famigerado pijama.
Hora de usar o charme.
- Oi, Minu.
- Você disse "oi"!
Sorri sabendo que já tinha conseguido alguns pontos a meu favor.
- Olá. - Uma ruiva disse.
Estava tão "concentrado" na Minu, que só então percebi que uma ruiva estava com a Minu. Era inegavelmente bonita, mas também estava inegavelmente grávida.
Sem querer pensei em como seria a Minu grávida.
Bonita, com certeza.
Irritante, com certeza.
Sexy,... Mas no que eu estava pensando?
Nós não estávamos nem namorando. Casamento já era um terreno nebuloso para mim.
Filhos, então!
Minu apresentou a ruiva.
- Ikki, essa é Marin Priamos, minha chefe e cunhada do Aiolos. Marin, esse é Ikki Amamiya, meu amigo.
Ah... E não era que os Priamos tinham bom gosto?
Cumprimentei a Marin, que era muito simpática.
Para uma Priamos.
- É um prazer conhecê-lo, Ikki. Mas, infelizmente, eu já estava de saída.
- O prazer foi todo meu. Até um outro dia, Marin.
- Obrigada pelo bolo, Minu. - A ruiva agradeceu.
- De nada. Que levar um pedaço para o Aiolia?
- Não precisa. E se eu levar, o seu amigo fica sem. Você me acompanha até o elevador, o Aiolia não quer que eu ande de escadas.
- Claro. Ikki, entre e fique à vontade. - A Minu falou.
E saiu com a amiga.
Respirei fundo, era a hora da verdade.
Eu conquistaria a Minu Setsuna de uma vez por todas, ou eu não me chamava Ikki Amamiya.