AMANHÃ
por Nina Neviani
Capítulo VI - Uma tarde em família
Quem os visse naquela tarde não teria dúvida de que se tratava de uma pequena e feliz família fazendo compras. Entretanto, a única pessoa que realmente estava feliz era Athina. Aiolia e Marin estavam tensos demais, um com a presença do outro, para conseguirem se divertir.
A loja de roupas infantis não estava cheia, mas ainda assim Aiolia nem por um instante sequer tirava os olhos da filha. Marin, não estava disposta a dar qualquer brecha para que pudesse se apaixonar novamente por Aiolia, mas vê-lo tão angustiado apenas pelo fato da filha estar há mais de dez passos dele, fazia com que ela quisesse ajudá-lo. Por isso, quando Athina foi até o provador - sozinha, pois como ela não se cansava de dizer, já ia fazer 6 anos -, Marin disse na voz mais calma que conseguiu:
- Não se preocupe, Aiolia. Você não vai se perder dela novamente.
Aiolia não contava com o gesto espontâneo da japonesa. E tão sincero quanto ela tinha sido, falou:
- Obrigado, Marin. É que essa é a primeira vez que eu e Athina estamos em um lugar com muitas pessoas desde... aquele dia. - Ela assentiu. - E eu acho que não a agradeci corretamente. - ele respirou fundo, olhou nos olhos dela e disse. - Muito obrigado, Marin. Você não tem idéia do quanto eu fiquei aliviado quando vi a minha filha perfeitamente bem naquela sala me esperando.
Marin não esperava por essa demonstração de gratidão por parte do seu ex-namorado e por um momento não soube o que dizer. Ela ponderou que era em momentos assim que ele parecia com o Aiolia que ela conhecera. Justo e bondoso.
- Não foi nada.
Por estarem tão próximo um do outro, Marin, pela primeira vez desde que voltara à Grécia, se permitiu admitir, ainda que para si mesma, o quanto Aiolia estava bonito. Os seis anos o deixaram ainda mais charmoso.
Ela se surpreendeu ao ver o rosto de Aiolia se aproximando do dela. Mesmo a surpresa de perceber que Aiolia iria beijá-la sendo grande, não era forte o bastante a ponto de tirar-lhe a capacidade de impedir o beijo. Ela sabia que ele iria beijá-la e não iria fazer nada para impedir. E pior, ela
não queria impedir.
Ao mesmo tempo que sentiu o calor dos lábios de Aiolia, escutou a já tão querida voz da Athina:
- E o que vocês acham desse?
Os adultos se afastaram assustados. Athina estranhou a reação dos dois, e alheia ao que acabara de acontecer, perguntou:
- Está tudo bem? - Os dois fizeram que "sim" com a cabeça, mas mesmo assim não falaram nada. - É esse vestido não é muito bonito, mesmo. É melhor eu escolher outro.
Só então Aiolia percebeu que a filha queria uma opinião a respeito do vestido que escolhera. Sua filha tinha escolhido um vestido preto, e na opinião dele, adulto demais para alguém que ia fazer apenas seis anos. Irritado consigo mesmo por ter negligenciado a sua filha, pegou o primeiro vestido que viu e mostrou-o para a menina.
- Que tal esse?
Athina franziu a testa, e disse:
- Papai, esse vestido é rosa. Eu não gosto de rosa.
A voz da menina não tinha nem de longe um tom de afetação, ela parecia realmente preocupada com o fato do pai não ter lembrado que ela não gostava da cor.
Aiolia só então percebeu que tinha nas mãos um vestido cor de rosa.
- E o que você acha desse, Athina?
Marin mostrava um bonito vestido vermelho-escuro para a menina. Pela primeira vez naquele dia, Athina pareceu realmente interessada em uma roupa.
- Vou provar esse.
- Precisa de ajuda? - Marin se ofereceu, torcendo para que a menina aceitasse, pois não sabia como seria capaz de olhar para Aiolia depois de eles terem quase se beijado. Para aumentar o seu tormento, Athina riu e disse.
- Marin, eu vou fazer seis anos. Sou quase uma mocinha. - E dizendo isso, fechou o provador, como para dar ênfase a sua atitude independente.
A vendedora que os estivera auxiliando, estava novamente por perto e falou com um sorriso:
- A filha de vocês é linda. E tem atitude.
Aiolia ia explicar a situação, mas Marin foi mais rápida e cortou-o:
- Sim, ela é linda.
- Se precisarem de algo é só dizer. - A vendedora voltou a dar privacidade para a família.
Marin achou melhor deixar a vendedora pensar que Athina era sua filha. Seria embaraçoso dizer que ela não era mãe da menina, mas que mesmo assim estava beijando o pai da criança. E também ficava contente pelo fato de acharem que Athina podia ser filha dela. Porém, era triste saber que ela jamais poderia colocar no mundo uma criança tão maravilhosa como Athina. Não poderia colocar no mundo criança alguma.
Quando ela se atreveu a olhar para Aiolia ele estava tão confuso quanto ela com relação ao beijo. E ela que estava disposta a não se apaixonar novamente por ele.
Eles ficaram em silêncio por algum tempo e quando Aiolia ia começar a falar, Athina voltou a interromper-los:
- E esse? Eu gostei tanto dele.
E realmente a menina parecia ter se empolgado realmente com o vestido. E com razão, Aiolia pensou, a sua filha tinha conseguido ficar mais bonita ainda. O vermelho do vestido parecia destacar ainda mais a beleza da sua filha, especialmente os cabelos claros. E quem tinha achado o vestido tinha sido a Marin. Agora que sua filha passaria a falar todos os momentos do dia nela.
- Você está linda, Athina. - Marin disse.
Aiolia reforçou:
- Uma verdadeira princesa.
- Eu também gostei desse! Vou levar esse!
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O resto do dia passou rápido. O final do passeio foi na lanchonete onde os três lancharam, e novamente foram confundidos com uma família. O que fez com Aiolia e Marin ficassem ainda mais calados. Quem não se importou muito foi Athina, que para a surpresa do pai, estava mais falante do que nunca. Aiolia ponderava se toda essa mudança se dava por causa da Marin, ou será que era porque a sua filha sentia falta de uma presença feminina?
Todo um dia de agitação fez com que o sono chegasse mais cedo na Athina, na viagem de volta ela cochilou no banco de trás do carro. Como Marin tinha ido com o pai e a filha até a loja, Aiolia a levou até o apartamento que ela tinha alugado.
Quando Aiolia parou o carro na frente do prédio, nenhum dos dois sabia o que falar.
Foi Marin quem arriscou:
- Eu acho que nós nos deixamos levar... pelo momento. E esquecemos que não somos mais namorados.
- É?
- Sim. Acho que foi um lapso. E você?
- Concordo com você. Foi um lapso da nossa parte. Não vai mais acontecer. A nossa única relação agora é a Athina. Você é amiga dela, e me custa admitir, mas está se tornando importante para ela, e eu sou o pai dela. Apenas isso.
- Sim, apenas isso.
- Então... até o aniversário da Athina.
- Até.
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Marin olhava fixamente para o urso roxo. Ele por sua vez sorria e estava de braços abertos. Não que ela fosse aceitar o oferecimento de abraço, afinal aquele era o presente de aniversário da Athina. Lembrava do primeiro encontro das duas, quando a garota só parara de pensar na situação em que ela se encontrava quando vira o grande urso de pelúcia roxo.
A japonesa não conseguia entender se o destino estava sendo apenas cruel com ela ou se o fato de ela reencontrar com Aiolia e se encantar tanto com a filha tinha algum outro propósito que fugia do entendimento dela. Mas o pior era que agora ela não sentia mais tanta raiva de Aiolia como sentira quando o encontrara pela primeira vez, dias atrás. Era uma idiota, pois mesmo sabendo de tudo o que ele fizera, estava voltando a sentir algo por ele. Mas poderia deixar esse sentimento crescer novamente, ela já sofrera muito por Aiolia Priamos. Como ele mesmo dissera, a única relação dos dois de agora em diante seria Athina. Apenas a Athina.
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Aiolia colocou a filha na cama e depois de buscar as compras, voltou para a perto da Athina. Sorriu, ao se dar conta do quanto o sue bebê tinha crescido, nem parecia aquele bebê pré-maturo. Perto do aniversário de seis anos da sua filha ele ainda lembrava perfeitamente bem do dia do nascimento dela.
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20 de julho de 2001, Grécia.
Aiolia se distraiu do livro que lia por um momento e inconscientemente começou a pensar na Marin. Como seriam as coisas se quem estivesse esperando o filho dele fosse ela e não Thalassa? Por mais que ele tivesse ficado com raiva dela por tê-lo deixado sem dar uma explicação, ele ainda não pedia as esperanças de descobrir o motivo pelo qual ela foi embora tão abruptamente, ou melhor, ele buscava encontrar outro motivo que não fosse o óbvio. Que era que ela tinha o usado, por alguma razão. Não por causa de nota, porque além de eles nunca terem falado sobre a disciplina deles enquanto eles estavam juntos, Marin ela uma aluna excepcional. Talvez tivesse sido por...
- Ficar pensando nela, não vai trazê-la até aqui, Aiolia. Sou eu quem está esperando um filho seu, não a Marin. - Thalassa disse.
- Eu agradeceria se você não falasse o nome dela. Aliás, eu provavelmente não pensaria tanto nela, se você não fizesse questão de falar nela todo o dia!
- Você não é nada do que eu esperava, Aiolia Priamos. Nada!
- Óbvio que eu não sou. Se você tivesse entendido antes, nós não estaríamos nesse casamento fadado ao fracasso.
- Eu estava grávida. Aliás, eu ainda estou grávida, se você não percebeu. E eu só teria esse filho casada. Mas se você pensa que eu vou lhe dar o divórcio pra você ir correndo para aquela oriental... Ai!
- O que foi, Thalassa?
- O bebê.
- O bebê? Mas não pode ser... ainda faltam quase dois meses de gestação.
Ambos estavam assustados.
- Sim, faltam, mas... Aiiii! Me leva pro hospital.
No Hospital, enquanto Thalassa estava sendo atendida, um enfermeiro conversava com Aiolia. Obteve algumas informações sobre a Thalassa, e explicou que era possível o nervosismo da gestante afetar a gravidez. Aiolia sentiu-se mal. Era verdade que não amava Thalassa, e provavelmente nunca amaria. Mas aquela criança fora um descuido dos dois. Aquele bebê não pedira pra nascer... e não merecia sofrer porque os pais dele não conseguiam ficam sem brigar.
Assim, Aiolia começou a rezar como a muito não rezava para que seu filho se salvasse.
Várias horas depois, quando ele teve a notícia de que o bebê, ainda que pré-maturo tinha chances de sobreviver, e que era uma menina. Ele jurou que cuidaria daquela criança com a sua vida.
Ela, a partir dali seria a sua razão de viver.
Continua...