“O castelo continuava frio e escuro”, pensou Ian ao caminhar pelos corredores. O jovem moreno sempre se sentiu aliviado quando saiu dele, ainda criança, para estudar em Londres. Aquele lugar provocava nele calafrios. Era fantasmagórico e poderia fazer mesmo um homem forte como Ian se tornar em uma criança vendo vultos em todos os lugares.
Não! Agora não era mais uma criança, era um homem de quase trinta anos. Um homem que tinha vivido as mais diversas experiências e que também aprendera que sonhos de criança não são realidades! Aliais, deixou de ser criança antes da hora. A capital não era um lugar próprio para alguém ingênuo do interior. Mas aprendeu as lições lá ensinadas. Hoje não confiava em ninguém. Sabia que todas as pessoas sempre tinham uma segunda intenção e estava preparado para enfrentar os mais diversos ataques.
Ainda jovem, freqüentou muitos eventos na capital, sendo sempre convidado para os mais diversos motivos, e principalmente para as mães casamenteiras que sempre desejavam ver Ian casado com suas filhas. Mas tirando algum romance ardente, mas sem compromisso, com alguma mulher da vida, ele nunca se envolveu com ninguém. Respeitava Eleanor e a escolha de sua mãe, mesmo sem conhecer a noiva.
Aliais a conhecia. Mas apenas se lembrava dos lindos olhos azuis e dos cachos dourados que cascateavam pelas costas e também das bochechas rosadas e gordinhas. A ultima vez que a viu, ela não tinha mais que sete anos.
Quando retornou a York, vê-la não foi de todo desagradável. Eleanor se transformara na mulher mais linda da cidade. Inteligente, culta... A esposa perfeita. Mas a perfeição acabou quando seu melhor amigo lhe confidenciara, balbuciando nervoso, que seu anjo de candura na verdade era um demônio. Eleanor tinha um caso com um jovem, filho de um comerciante pobre. Ian o vira apenas uma vez. Era bonito, mas sabia que poderia fazer Eleanor o esquecer. Se assim ele o quisesse...
O problema é que ele não queria!
Estranhamente, a mulher perfeita não provocara nele aquele algo mais. Passar o resto da vida ao lado dela, vendo-a apenas falar em roupas e jóias pareceu tão fútil que ele se sentiu doente.
-Você sempre quis o impossível! Não existe uma mulher neste mundo que ache interessante ficar com um livro entre as mãos, sonhando com aventuras de personagens fictícios. Nossa natureza faz com que nos sentimos atraídas por jóias, bailes... Estas coisas que você tanto gosta são típicas dos homens. – dissera-lhe a mãe ao ouvi-lo dizer o porquê não gostaria de se casar com Eleanor.
A festa de noivado foi na mesma noite. O colar dado a ela (que agora se encontrava nas mãos do ladrão e assassino que a matou) foi o único gesto que Ian fez para demonstrar sentimentos que na verdade não sentia. Este mesmo colar figurava no pescoço de alguma antepassada de Ian pintada no retrato da direita no corredor.
-Lord...
Ele virou-se e sorriu. Mairi ajeitava a touca bege com as mãos sempre nervosas.
-O senhor deseja alguma coisa? Estava passando no corredor e o vi olhando tão estranhamente para a Milady do retrato.
Ele teve vontade de rir. Aquela menina deveria achar que ele era maluco. De repente uma idéia mais louca ainda passou pela sua cabeça.
-Eu desejo algo Mairi...
-Sim..e o que é?
Estranhamente a palavra “você” dançou em seus lábios. Loucura! Ian estava infectado com aquele castelo horrível. Ela era sua empregadinha. E uma moça inocente. Ele jamais usaria uma jovem como aquela. Ainda tinha caráter.
-Senhor...
-Quero sua amizade Mairi... Pode me dar isso?
Ela arregalou os olhos, mal acreditando nos seus ouvidos.
-Sim Milord, mas tem certeza que deseja isso? Sou apenas uma empregada. Com certeza Milord tem muitos amigos no seu próprio nível social.
Ele quase gargalhou. Como ela era ingênua se pensava que dentro da perversidade e falsidade da sociedade inglesa poderia haver amizade... bom, na verdade havia.
-Tenho um amigo. Quase um irmão. Ele se chama Allan. É de Londres e esta vindo à cidade para me ajudar a resolver um problema. Mas só tenho a ele... Preciso de alguém como você.
Ela sentiu-se tocada, mas tentou não levar as palavras dele muito a serio. Ele era um Lord, ela um nada. Talvez a tristeza que ele estivesse passando o fizesse falar aquelas palavras, mas ela não poderia levar em conta para não sofrer...
-Serei sua amiga, meu Milord, o que precisar de mim, é só pedir.
-Só quero alguém como você para conversar.
-Estarei sempre aqui.
Aquilo ecoou nos ouvidos dele. Nunca teve ninguém sempre disponível para ele. Uma amizade pura, sem preconceitos e exigências. Nunca tivera um relacionamento assim também, apesar de todo carinho que tinha por Allan, Ian nunca se sentiu completo com alguém. E aquela menina pobre fazia ele se sentir daquela maneira.
Mairi fez uma reverencia e se afastou e ele ficou olhando-a de costas.
Os cabelos dela! Que obsessão. Ele gostaria muito de saber a cor das madeixas. O formato. Se eram lisos ou ondulados. Mas aquela touca não deixava um fio à mostra. Deviam ser lindos. Como os olhos que eram azuis, os cabelos deveriam ser loiros, porque poucas mulheres tinham cabelos escuros com olhos claros. E a sobrancelha era tão fina que não poderia definir a cor.
Bobagem pensar nisso. Jamais veria seus cabelos. Mas sempre ela estaria ali, do lado dele. Dele! Mas e quando se casasse? Como estaria sempre disponível para ele com um marido para cuidar.. ou filhos? Uma estranha sensação de posse tomou conta dele ao imagina - lá segurando uma criança de outro homem... outro homem a possuindo...
Bateu o punho fechado no próprio maxilar. Agora não tinha mais duvidas, estava endoidando.
-Ian...
Ele virou-se em direção a bela mulher, que na faixa dos seus 40 anos ainda mantinha um rosto perfeito.
-Sim, minha mãe?
-Com quem estava conversando?
-Com Mairi.
-Com quem?
Engraçado que a menina trabalhava para eles desde criança, mas sua mãe não havia lhe guardado o nome. Às vezes Ian sentia raiva da sua própria família e poder social.
-A moça que faz a limpeza.
-Você falava com uma serva? Essa gente esta perdendo o respeito e não reconhece mais o sua posição? Irei falar com Perpetua para tomar providencias e a moça ser colocada no seu devido lugar.
Uma raiva descomunal se apoderou de Ian.
-Não fará isso não! O dono da casa sou eu! Falo com quem quiser e continuarei a ser eu que recriminarei ou não os meus empregados!
Dorothea não esperava aquela reação do seu pequeno Ian e se surpreendeu com a atitude dele. Mas como toda Lady não perdeu a compostura e apenas curvou a fonte se afastando.
Uma semana se passou. Mairi ia todos os dias levar chá a Ian e sempre conversavam sobre a vida no castelo e sobre literatura. Tinham uma estranha relação, falando às vezes apenas com o olhar. Era como se duas pessoas, tão distantes socialmente, pudessem estar próximas pela própria alma.
Era estranho para Ian que ele tivesse um relacionamento daqueles com uma empregada, sendo que era com sua esposa que sempre imaginava viver aquilo. Mas admitia que nunca se sentira tão bem ao lado de uma mulher, mesmo sem ter um relacionamento intimo com ela. Já Mairi estava apaixonada pelos olhos, pela voz do seu Lord... ele era seu Wilfred, que mesmo sendo impossível de ama-la, pelo menos a tratava com carinho e viera dos mundos distantes dos livros para fazer a vida dela ter um pouco de emoção.
Era hora do chá da tarde quando Mairi chegou com a bandeja à sala particular de Dorothea. A moça a estava servindo quando a mulher mais velha bateu com o leque em suas mãos, desta maneira derramando um pouco do liquido na toalha.
-Olha o que você fez sua estúpida! – disse a Lady dando um tapa no rosto de Mairi.
O choque de ter sido agredida foi imenso. Lady Dorothea mal falava com ela e nunca a havia agredido antes. Este papel sempre fora desempenhado por Perpetua.
-Perdão Senhora.
Tentando se recuperar ela pegou o pano que se encontrava em seu avental e passou sobre a toalha. Os olhos marejados de lagrimas lutavam para não chorar na frente da mulher. Quando Mairi estava terminando o seu trabalho Dorothea começou a falar.
-Escute bem aqui sua vermezinha! Não gosto que fale com o meu filho. Um escândalo de Ian engravidando uma empregadinha é tudo que eu não preciso agora.
-Como é que é mãe?
Dorothea enrubesceu ao ver o filho entrando pela porta. Mas não perdeu a compostura.
-Eu já lhe disse que sou eu quem decide com quem falo ou deixo de falar.
-Estou defendendo seus interesses. Esta nervoso pela morte de Eleanor, mas logo ira se recuperar e vai me agradecer.
Ian olhou para Mairi e percebeu que ela mantinha os olhos abaixados, mas a respiração entrecortada demonstrava claramente que ela estava quase chorando. Sentiu-se penalizado pela dor daquela menina. A sua menina que adorava seus livros e que era a única pessoa naquele lugar que ele demonstrava o mínimo de carinho. Ele colocou uma de suas mãos nos ombros dela e disse baixo.
-Pode sair Mairi.
Quando ela já havia deixado o quarto ele foi firme em falar:
-Mãe, se insistir em desobedecer minhas ordens novamente ira pagar muito caro.
Dorothea não se amedrontou.
-O que ira fazer?
-A mandarei para uma das fazendas. Se acha a vida monótona em York, morreria de tédio no meio do mato.
Aquilo sim não era agradável de ouvir.
-Não pode estar me ameaçando por causa de uma serva.
-Minha serva! Minhas ordens! Não admito ser desobedecido.
-Você é igual ao seu pai! Avassala tudo e impõe sua vontade!
-Esta se descrevendo e não ao papai, mãe! Aliais, não fará da minha vida a infelicidade que foi a dele.
Ela ficou muda com aquela afirmação. Ian havia descoberto de seu caso com o duque de HerShire ainda em Londres e a mandara para York a quase sete anos atrás. O pai de Ian acabara morrendo de decepção por aquilo. Mas enfim não fora sua culpa. Todas as damas de Londres tinham seu flerte fora dos casamentos, sempre tão rotineiros e chatos.
Sem resposta Ian saiu da sala e foi ate a cozinha. Mairi fervia o pano de limpar a casa com sabão. Ela mordia os lábios para não chorar e ele teve vontade de arrancá–la daquela cozinha fria e triste e a carregar ate um quarto onde ela poderia dormir e descansar sem que ninguém a perturbasse.
-Mairi, onde esta Perpetua?
Ela mantinha os olhos baixos quando respondeu:
-Ela estava na sala dando ordens ao senhor James.
Mal havia falado aquilo quando Perpetua entrou na sala.
-Senhora.. –ele disse cumprimentando-a.
-Senhor, o que faz aqui?
-Vim aqui para lhe pedir que contrate mais três meninas para ajudar no serviço de casa. Mairi é minha protegida agora!
-Não!
Surpreendentemente a negativa veio da mais nova “protegida” de Ian.
-Por favor Senhor, eu sempre trabalhei. O que as pessoas diriam se soubesse que estou vivendo na casa sem trabalhar. Seria minha desgraça.
Ian se recriminou mentalmente pela idéia estúpida. É claro que eles pensariam que ela era sua amante se ele a tirasse do trabalho pesado, mas não era aquilo que ela precisava. Ela só precisava diminuir no trabalho e não trabalhar feito um animal.
-Está certo Mairi. Quero que continue trabalhando, mas diminua sua carga. O trabalho será dividido.
Aquilo já era um sonho para Mairi. Havia muitas empregadas na casa, mas o trabalho pesado sempre ficava para ela. As outras apenas lavavam a louça ou faziam a comida. A limpeza era da exclusividade dela. Nunca pode reclamar já que se fosse despedida para onde iria? Teria que se prostituir nas ruas de York, e entre isso e a limpeza ela continuava a limpar os ladrilhos.
Ela estava tão feliz que não percebeu quando ele saiu da cozinha com a senhora Perpetua atrás dele.
-Senhor... – a governanta o chamou.
-Sim?
-Sei que não deveria me meter, mas Mairi é uma jovem boba, criada dentro dos muros deste castelo. Ela não conhece a vida. Isto que pro senhor é um ato de bondade, ou algo... algo sem importância, para ela pode ser o ponto que destruirá sua vida.
-O que quer dizer Senhora Perpetua?
-Isto que esta sentindo passara. Logo encontrara uma jovem Lady educada para ser uma boa esposa e o senhor se esquecera da menina que limpa o chão.
A mulher estava achando que ele tinha se apaixonado por Mairi? E ele que pensava que estava enlouquecendo... não... era a governanta que era uma demente. Ou não? Ele olhou por um canto da porta e viu Mairi arriando uma panela. Era linda... Ele havia achado aquilo desde o inicio... Mas não estava apaixonado... A havia conhecido há pouco tempo...aquilo não acontecia assim... ou acontecia?