A Rosa Entre Espinhos
Por Josiane Veiga
Capítulo I
Nota da Autora: Capitulo dedicado a minha filhinha Laura, a Mari (minha amiga fofa) e a Arthur...
Mil beijos especial a super ficwrite Esmeralda e as meninas do pandora
Mairi jogou por cima dos ombros cansados o latão de água quente. Mal podia suportar as próprias pernas. Felizmente, logo acabaria aquela atividade. Lavar os vestidos caríssimos de lady Dorothea era um inferno. Tinha primeiramente que esquentar a água, deixar de molho as barras e então passar sabonete de lilás no tecido. Ela era empregada na casa do lord Ian McGgregor desde criança, mas nunca se acostumara a rotina de escravo imposta pela governanta, à senhora Perpetua.
Órfã de pai e mãe, a linda moça de cabelos castanhos e olhos tão azuis quanto o céu nunca conhecera outra vida. Trabalhava dia e noite alheia ao que acontecia fora do seu mundinho que era a cozinha e eventualmente o lago da mansão se seu lord. Também não tinha idéia de como sua aparência era meiga e fascinante e como sua pele clara formava um conjunto perfeito com seu corpo exuberante. Mairi poderia facilmente sair da vida de empregada e torna-se amante de algum lord rico. Mas ela nunca sequer cogitou isso. Apesar de ser uma pobre moça, tinha caráter. E também nunca parou pra pensar no quanto sua vida era triste. Nunca tivera uma família, não conhecia o significado da palavra carinho. Tratada como um animal, ela se escondia pelos cantos, com medo de tudo.
Quase um ano antes, só uma pessoa havia quebrado a auto-proteção que a envolvia. O jovem Ben, rapaz belo, de cabelos escuros como a noite e olhos tão dominadores que quase a fizeram se apaixonar. Ela poderia dizer que eles foram simplesmente amigos, mas seria mentir ao próprio coração, pois ele sempre palpitava no peito quando o via chegando a mansão para entregar as verduras encomendadas na feira do pai de Ben. Mas então ela descobriu porque o jovem mancebo havia se aproximado dela, a empregada que limpava os ladrilhos: por causa da belíssima Lady Eleanor. Ele só havia firmado amizade com Mairi para se aproximar da noiva de lord Ian. Magoada, Mairi não conversou mais com Ben. Mas ela sempre carregou o peso de, mesmo involuntariamente, ter ajudado o rapaz a se aproximar de Eleanor.
Mairi sabia que eles haviam se tornado amantes, mas nunca falou nada disso a ninguém. Ela já tinha as tarefas cansativas da mansão dos McGgregor para se preocupar. Além disso, apesar de ser uma moça fina, Eleanor nunca havia lhe tratado mal. Até lhe sorrira certa vez.
A empregada também foi uma testemunha da tristeza de Eleanor no dia do seu casamento, e viu o corpo dela estirado no piso de concreto logo após o fim da festa de suas núpcias. Algumas pessoas diziam que ela havia se suicidado atirando-se da janela do quarto de casal ou que fora assaltada, já que o colar de diamantes que ela ganhou de noivado havia desaparecido, mas outras falavam que havia sido o lord Ian que a havia matado. A verdade nunca havia aparecido, mas a polícia ainda estava investigando.
Mairi não sabia o que pensar, pois não conhecia o lord pessoalmente. Ian havia saído de York muito jovem para estudar em Londres e havia retornado apenas há pouco tempo para se casar com a sua noiva prometida desde o nascimento. Mesmo agora que ele regressara nunca lhe foi permitido entrar na sala dos patrões ou se aproximar. Ela ficava apenas no porão ou nas salas em que se lavavam as roupas do castelo. E era nas lavanderias que ela acabou descobrindo a única coisa que sabia de seu lord: “ele tem um cheiro muito bom”, sempre pensava ela ao pegar as suas camisas para lavar.
- Já acabou, Mairi? - perguntou a governanta ao ver os olhos sonhadores da empregada.
- Ainda não, senhora Perpetua. Tenho que lavar os ladrilhos do quarto da senhora Dorothea e a biblioteca também.
Dorothea era a mãe de Ian. Mulher rígida, nunca lhe havia dirigido um olhar. Bom, era de se esperar, afinal, ela não passava de um bichinho medroso pela enorme casa.
- Pois vá logo! Parece até que não tem gratidão pela bondosa lady Dorothea, por ter recolhido você da rua e lhe dado um teto e comida! Deveria fazer seu serviço com mais rapidez, sua lerda!
- Estou indo! - disse e se moveu apressadamente. Demorou quase uma hora para limpar as ricas cerâmicas do quarto, e não pôde deixar de pensar que não precisava ser assim tão grata pelo acolhimento de lady Dorothea, já que não ganhava um centavo para tanto trabalho. Na verdade desconfiava que os ricos Lords pagassem sua labuta, mas o dinheiro parava nas mãos da governanta.
Pensando em seu quarto, e no quanto desejava sua estreita cama de colchão de palha, Mairi foi à biblioteca. Entrou cabisbaixa sem olhar direito o ambiente e se dirigiu a uma das prateleiras de livros, pegou um deles e o olhou sonhadora. Ivanhoé... era seu livro favorito. Aprenderá a ler com um bondoso reverendo que havia morado em York. Ele lhe havia ensinado na Bíblia, ela pegou gosto pela coisa e logo começou a tomar emprestados alguns livros do castelo e os levar para o quarto por algum tempo, mas depois sempre devolvia. Esse era seu modo de escapar da realidade, e com a leitura de Ivanhoé, ela até se apaixonou por Wilfred, personagem principal do livro. O autor escocês Walter Scott, se tornou seu autor favorito, e a história de Rowena e Wilfred, o casal de Ivanhoé , havia se tornado o seu casal preferido.
- Também gosto muito de Ivanhoé...
Ela quase derrubou o livro no chão de susto. Olhou para o canto de onde a voz havia saído e mal podia acreditar em seus olhos. O homem que havia falado era exatamente como ela imaginara o protagonista de Ivanhoé. Era Wilfred que estava à sua frente. Belo, alto... talvez sua cabeça chegasse ao queixo dele, tinha olhos negros, o corpo esbelto, definido entre o requintado traje. Além de uma presença dominante e marcante. Mairi sentiu as pernas adormecerem e ainda descrente, pensou se o amado herói não teria saído da história para se tornar seu príncipe encantado e tirá-la daquela sua vida miserável.
- Acabou a inspeção? -perguntou ele sorrindo.
Mairi ficou muitíssimo vermelha, e saindo de seu devaneio, guardou rapidamente o livro na prateleira.
- Me desculpe, senhor. Não percebi que estava no recinto.
- Não fique envergonhada. Você entrou e praticamente correu às prateleiras. Foi uma experiência especial observar seus olhos ao puxar dali Ivanhoé, que é meu livro preferido.
- Eu não pretendia danificá-lo...
- Ora, não se preocupe. Eu tenho vários livros de Walter Scott... Inclusive outro Ivanhoé, pode levar este com você se quiser...
Ela virou os olhos.
- Gostaria muito... mas não posso...se a senhora Perpetua o ver comigo, achará que eu roubei.- disse ajeitando a touca na cabeça.
O rapaz ficou encantado com a figura exótica à sua frente. “Linda como o sol e tão meiga, chega a ser difícil resistir.” ele pensou.
- Não se preocupe com ela. Sou o dono da casa e se estou dando-lhe algo, ela não tem nada que ver com isso.
Mairi abaixou os olhos, e com o livro nos braços, ia deixando a biblioteca, mas o rapaz a chamou.
- Espere! - disse ele.
Mairi estancou no lugar.
- Como se chama? - ele perguntou.
- Mairi... - disse tímida, pensando consigo que aquilo parecia uma brincadeira: um lord querendo saber seu nome.
- Mairi? Mairi... parece música.
Ela não pôde conter um leve sorriso.
Aquele, que só podia ser o lord Ian, teve ímpetos de pedir a jovem que tirasse a touca, para que pudesse ver-lhe os cabelos, pois de alguma forma, aquele moça lhe lembrara a Rowena do livro.
- Leu algum outro livro do senhor Scott, Mairi?
Ela negou com a cabeça.
- Então, pegue este também. - disse tirando um livro da gaveta na escrivaninha.
- Waverly... - falou ela, gaguejando um pouco.
Ela não tinha uma dicção muito boa, mas foi maravilhoso para Ian ver os olhos dela brilharem de ansiedade diante do livro. Ele nunca havia conhecido alguém como ela.
- Você vai gostar... - dizia Ian, mas naquele momento a senhora Perpetua entrou na biblioteca.
- Oh! Perdão, lord Ian! Eu não sabia que estava aqui. Mas por que essa desastrada está aqui o incomodando? Mairi, quantas vezes já disse para não incomodar os nobres!? Vamos!
Ian sentiu uma vontade louca de protegê-la, pois a governanta sempre foi muito dura com os criados, contudo, ele próprio não sabia bem como lidar com os empregados. Além do que se tratando de Perpetua, até James, o orgulhoso mordomo da família, parecia ter medo dela, mas precisava interferir de algum modo.
- Senhora Perpetua... - disse alto, ganhando a atenção da mulher. - Ela não está me incomodando. Inclusive, falávamos sobre Walter Scott e seus livros. Aliais, presenteei Mairi com dois livros e gostaria de pedir a senhora que a liberasse mais cedo de seus afazeres para que possa ler meus presentes.
A governanta arregalou os olhos, mas sem saída apenas consentiu com a cabeça, logo depois ela e Mairi se retiraram da biblioteca.
- Ele é lord Ian? - perguntou Mairi à senhora.
- Sim... - confimou - Pobre lord Ian, vive trancado naquela biblioteca desde a morte de lady Eleanor.
Ouvir aquilo entristeceu o coração da jovem empregada.
CONTINUA...