AMANHÃ
por Nina Neviani
Capítulo III - Hoje
Julho 2007
Marin, mesmo horas depois do encontro com Aiolia e Athina, ainda estava muito abalada. Nunca imaginara que teria que passar por aquela situação: ver a filha do único homem que ela amara. A filha que ele tivera com outra mulher. Filha que ele concebera enquanto ainda estavam juntos. Aquela não fora a primeira vez que soubera da existência da menina, lembrava-se muito bem do dia que soubera que Aiolia tinha sido infiel.
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Dezembro de 2001
Fazia um ano que Marin tinha deixado a Grécia. Mesmo gostando muito do Japão sentia saudades da Grécia, especialmente da Shina e, óbvio, do Aiolia. Parecia que esse ano não tinha existido, pois continuava amando o professor de História com a mesma intensidade com que amava há um ano. Assim, depois de muito pensar tinha ponderado que talvez ele ainda a amasse, por isso, decidira que voltaria a Grécia, conversaria com Aiolia, explicaria os motivos que a levaram a deixar o país tão rapidamente. Quem sabe ele estivesse disposto a construir um futuro ao lado dela mesmo com a sua impossibilidade de ter filhos?
A primeira pessoa saber seria a sua melhor amiga, óbvio. Ligou para a amiga.
- Marin! Como você está?
As amigas sempre se falavam, apesar da distância.
- Estou ótima e você?
- Bem também!
- Shina, eu tenho uma novidade! Pretendo voltar para a Grécia!
- Isso é muito bom!
- Não adianta eu negar, eu ainda amo o Aiolia, quero conversar com ele explicar os meus motivos, quem sabe nós ainda temos uma chance?
A reação que Marin esperava da amiga não aconteceu. A japonesa esperava que Shina a incentivasse, entretanto, a italiana nada disse.
- Shina, o que foi? Até parece que você não gostou da novidade!
- Marin... Eu realmente queria não precisar contar... Como você nunca mais falou do Aiolia, eu achei melhor poupá-la...
- Poupar-me do quê?
- Marin, o Aiolia está casado. E tem uma filha.
- Ca.. casado?
- Sim.
- Com quem?
- Com a professora Thalassa.
Marin estava chocada, sempre fora muito claro que a professora de Matemática sentia muito mais do que admiração pelo professor de História, mas... e eles tinham uma filha! Em menos de um ano, Aiolia a esquecera completamente.
- Há quanto tempo eles estão casados?
- Dez meses, aproximadamente. E Marin, eu acho que essa é a pior parte, mas já que nos tocamos nesse assunto, eu tenho que contar tudo antes que eu perca a coragem.
- Pode dizer. - Afinal nada podia ser tão ruim assim.
Marin pôde ouvir a respiração mais forte da amiga.
- A filha deles tem cinco meses.
Como? Não era possível! A não ser que...
- Ela é mesmo filha do Aiolia?
- Dizem que ela é muito parecida com ele.
Vendo que a amiga não falava nada, Shina disse.
- Oh, Marin. Eu queria estar perto de você para poder apoiá-la.
- Tudo bem, Shina. Eu tenho que desligar.
E o fez sem esperar a resposta da amiga.
Marin se perguntava como poderia ter se enganado tanto em relação a uma pessoa como se enganara com Aiolia. Tudo o que eles tinham vivido para ele não passara de uma encenação! Se a filha dele tinha cinco meses, ela tinha nascido em julho então ela fora concebida em outubro ou até mesmo novembro. E ela e Aiolia tinham namorado até dezembro.
Ou seja, ele tinha tido um caso com a professora e com a aluna ao mesmo tempo. "E como era cínico! Toda aquela conversa de 'vamos esperar pelo casamento'!" Claro que ele podia esperar! Ele dormia com outra!
Marin decidiu que daquele dia em diante trataria de esquecer Aiolia Priamos.
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Julho de 2007
Não correria o risco de ver o pai e a filha novamente, mesmo Athina sendo a criança mais encantadora que ela já tinha conhecido. Ficaria na Grécia apenas o suficiente para resolver o que tinha para resolver e voltaria para o Japão o mais breve possível.
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Julho de 2007
Aiolia estava na cadeira de balanço que tantas vezes utilizara para embalar a filha. Agora, não precisava mais embalar a garota, entretanto preferia ter que fazê-lo a apenas observar o sono agitada de Athina.
"Não. Tudo de novo, não."
Imaginara que a filha já tinha superado a perda precoce da mãe. Ainda lembrava-se muito bem do tormento de ver a filha chorar pela mãe, e não poder fazer nada. Porém, fazia mais de um ano que Athina tinha parado de chamar pela mãe em seus sonhos. E ao que parecia tinha recomeçado justamente naquele dia.
Ouviu um murmúrio que não conseguiu identificar. Chegou mais perto do rostinho suado da garota, para entender o que a garota falara. Levou um choque quando entendeu o que a filha falava.
- Marin...
"Por que a Athina está chamando pela Marin?"
Pela experiência de outras tantas noites como essa, sabia que a filha respondia o que ele falava.
- Quem, Athina?
- Marin.
- O que tem a Marin, meu amor?
- Eu quero ver a Marin.
"Por que, dentre todas as mulheres da Grécia, justamente a Marin? Claro que quando ela quer, ela sabe ser muito amável, mas para logo depois abandonar..."
Aiolia tinha resolvido que esperaria mais uma hora, se a sua filha continuasse daquele jeito, ele daria um jeito de encontrar Marin. Quando ele e Athina tinham ficado sozinhos, ele prometera para si mesmo que faria o que pudesse para que a sua filha não sofresse, tentaria, de todas as formas possíveis, ser um bom pai. E não quebraria essa promessa por mulher alguma, muito menos pela Marin. Se fosse preciso para que a sua filha se sentisse melhor, ele passaria por cima do orgulho e pediria um favor à mulher que o abandonara.
Uma hora depois, Aiolia ainda via sua filha chamar pela Marin, o que o fez agir.
E sabia que só conseguiria encontrar Marin através de uma pessoa.
Shina.
A última vez que falara com a ex-aluna fora há quase quatro anos, quando o fato de ter sido professor da policial o ajudara quando ele tivera que enfrentar todo o processo de investigação da real causa do acidente que tirara a vida da mãe de Athina. Mesmo depois de tanto tempo ele ainda tinha o telefone da italiana e rezava para que ainda fosse o mesmo.
Sentiu que estava um passo mais perto de acabar com o sofrimento da sua filha quando Shina atendeu ao telefone.
- Shina, aqui é o Aiolia Priamos.
Houve um silêncio significativo do outro lado da linha. Aiolia não sabia o porquê, mas a italiana o culpava pelo término do relacionamento com a Marin. Entretanto, o relacionamento que ele tivera com a japonesa era insignificante naquele momento, o que importava era o que ele podia fazer pela filha.
- Pois não, professor?
- Eu preciso de um favor.
- Sim?
- Preciso que você me diga como entrar em contato com a Marin. Eu sei que ela está na Grécia.
- Sinto muito, professor, mas eu não posso...
- Pela Athina. - Ele a interrompeu. Sabia que a sua ex-aluna tinha um carinho especial pela Athina, afinal ela vira todo o sofrimento que a sua filha, então com pouco mais de dois anos, passara com a morte da mãe.
- Explique melhor.
- Hoje à tarde, eu e a Athina nos perdemos no shopping, e foi a Marin quem a encontrou e levou até a central de som, onde eu a encontrei. Eu desconheço o motivo, só sei que a Athina se impressionou muito com a Marin. Agora ela está tendo um sono agitado e fica chamando pela Marin.
- Da mesma maneira como ela fazia com a mãe?
- Sim.
Houve outro silêncio significativo, até que a policial disse.
- A Marin vai me matar, mas eu vou dar o número dela pra você. Pela Athina.
- Obrigado.
- Mas se você de alguma maneira magoar a minha amiga...
- A minha única preocupação é a minha filha.
Com o número de telefone nas mãos, ele ligou para aquela que ela um dia fora a pessoa mais importante do mundo para ele.
- Alô?
Aiolia teve a certeza de que poderia viver cem anos e não esqueceria aquela voz.
- Marin, sou eu, Aiolia.
- Aiolia?
- Sim. Marin, a Athina precisa de você.
Continua...