O vento nordeste soprava com força naqueles dias. As cerejeiras mostravam suas belas flores, e o ar ficara bem mais agradável. Independente de haver ou não sol, a colheita seria boa. As guerras continuavam, na ânsia de poder que corroía os homens daquela era.
Um pássaro mais afoito em seu telhado a fez abrir os olhos. Piscou algumas vezes até que se acostumou com a luz do dia. Espreguiçou-se sobre o futon antes de levantar-se. “Outro dia. Outro longo dia...” sentou-se devagar, amarrando os cabelos quase que imediatamente. Deveria sair cedo pra procurar algo com que se alimentar. Talvez devesse caçar, ou pescar...
Ficou pensando um pouco ainda. E lembrou-se do encontro estranho que tivera com Sesshoumaru. Ah, sim, pensava com freqüência neste dia. Fazia anos que não colocava seus olhos sobre ele, desde que a trouxera de volta. Não era indiferente a ele ( e nem ele a mim , pensou, convencida...). No entanto...
Sacudiu a cabeça, empurrando os pensamentos fúteis da mente. Não havia como vê-lo novamente. Soubera por Kaede que ele voltara ao castelo onde vivera antes. Tinha seu próprio reino, riu, debochada. “ Me pergunto o que ele estaria fazendo ali, no fim do inverno... O que poderia querer? Bem, eu não creio que sua rixa com InuYasha tenha acabado...irmãos brigando tanto...não se pode esperar nem fraternidade entre dois yokais, filhos de mesmo pai...Humm...Se bem que eu nunca me dei bem com o resto das encarnações de Naraku...Mas... ” fechou os olhos com força, ficando de pé, quase que marchando até a pequena varanda.
“Por que estou pensando nisso?”
Mas ela sabia, apenas não estava disposta a admitir. Queria nunca ter sentido antes.
— Bem, lamúrias não me levarão a lugar algum e nem me trarão alimento... — precipitou-se montanha abaixo, em sua pluma.
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— Senhor Sesshoumaru, porque voltamos a Musashi? Achei que não teria mais nenhum negócio por aqui... — reclamava Jaken, andando atrás de seu senhor.
O amo bonito estava parado próximo a um córrego, bebendo alguns goles de água. Olhou o sapo por cima do ombro.
— Eu não pedi que viesse comigo.
O sapinho abaixou a cabeça, chateado.
— Traga algo para comermos.
— Sim, senhor... — e adentrou o bosque, suspirando. “ Se ao menos Rin estivesse conosco, eu não estaria tão só...”
O yokai ergueu a cabeça prateada, sentindo um cheiro conhecido no ar. “ Então, está por aqui... ”
Continuou andando em direção à clareira pela qual passara antes. Ouvia movimentos rápidos e furtivos. E uma voz grave a praguejar. Um sorriso cínico brotou-lhe nos lábios.
Quando a avistou, ela estava ajoelhada, próxima a uma árvore. Havia algumas abelhas ao seu redor. Usava ainda o mesmo quimono de quando a vira na cachoeira. Os cabelos estavam presos por um pente dourado e as habituais plumas. O cheiro dela misturava-se com o do mel que ela estava tomando.
— Vejo que consegue defender-se destes insetos muito bem.
Ela assustou-se, deixando cair o favo que tinha nas mãos. E praguejou internamente.
— Por que você é assim, tão sutil em suas entradas? — sorriu forçadamente, franzindo o cenho. Brilhantes olhos escarlates voltaram-se pra ele. — O que faz aqui?
— Não é da sua conta.
Ela ficou de pé, terminando de comer o favo de mel. Se ela ficou aborrecida ou não, ele não saberia dizer.
— Então, eu soube que está muito bem estabelecido longe daqui. E onde estão a garota tagarela e seu puxa-saco?
— Por que eu deveria responder a este tipo de pergunta estúpida?
— Vejo que continua irritantemente orgulhoso. — lambeu os dedos. — Bem, eu não tenho tempo pra perder com você aqui.
Sesshoumaru riu por dentro. “Ela está fugindo?”. Ele deu um passo adiante e ela assustou-se.
— O que irá fazer de tão importante, Kagura, que não tenha tempo a perder? — seus olhos dourados estreitaram-se.
— Não é da sua conta. — rebateu ela, passando por ele.
Segurou-a pelo braço, trazendo-a de volta.
— Eu não disse que poderia ir, mulher insolente.
— E desde...
Sentiu as pernas bambearem ao senti-lo mover os lábios dele sobre os seus, de maneira possessiva e exigente. Os globos oculares quase saltaram fora da órbita. Oh, quem é este SesshouMaru? Seu coração desbaratava-se em batidas, como se fossem pregá-la no chão. A mão dele segurava firme seu pescoço, acomodando-se em seus cabelos, soltando-os.
— VOCÊ... é um atrevido... Sesshoumaru. — conseguiu falar quando ele a soltou.
— Creio que esta é uma qualidade sua... — seu hálito ainda estava próximo o bastante. Ela deu mais um passo para trás, ainda encarando-o desacreditada. Não que não tivesse gostado, apenas...Fora pega de surpresa. E não gostava de surpresas que não fossem feitas por ela mesma.
— Deveria comportar-se melhor. Não serei tão condescendente da próxima vez.
— Então, quer que haja uma segunda vez...? — objetou ele, irônico e erguendo uma sobrancelha.
— Eu não disse isso... — tentou corrigir-se. Ao vê-lo abeirar-se, puxou a pluma do cabelo; por uma fração de segundos, pensou tê-lo visto sorrir.
— Está fugindo? — Insistiu ele, estreitando o olhar de ouro.
— Acho que já ouvi isto antes... Não, não estou fugindo. — riu com um pouco de manha. — Apenas...— olhou-o curiosamente, tentando entender o porquê da atitude dele. — Precisa ficar longe de mim, acho que poderia matá-lo se fizer isto de novo.
— Pois não foi isto que senti.
Desta vez, ela sorriu mesmo.
— Bem, eu não minto. Foi bom revê-lo, até mais. — um vento forte levantou o mokomoko² dele. — E pare de me perseguir, isto já está ficando sem graça!
— Mulher atrevida. — murmurou.
Na verdade, nunca teve esperanças de acontecer. Ainda questionava seus motivos para trazê-la de volta. E um batia sempre, como se estivesse preso na mente. Queria estar com ela. E fora ela mesma que o fizera pensar assim. Maldição ! Desde quando isto vem acontecendo? Bem , se eu mat´-ala , tudo isto acabará... Sacudiu a cabeça. Era melhor voltar em seu caminho, na direção em que deixara Jaken.
Da próxima vez, era ele quem não seria condescendente.