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› Autor: +Nah
› Gênero: Drama (Tragédia) / Romance e Novela.
› Classificação: 12+
› Adicionado em: 30/06/07
› Comentários/Favoritos 2/2
› Caracteres: 6.779
› Exibições: 294
Keitaro estava ansioso, num táxi. Pedira para que o motorista o levasse para o hospital o mais rápido possível. Havia dez minutos que seu telefone tocara, avisando que sua esposa encontrava-se na UTI do hospital municipal. O táxi chegou finalmente, depois de uma viagem que parecera durar horas para o rapaz.
Quando entrou, um médico informou-o de que o caso da esposa era gravíssimo, pois na batida, órgãos vitais haviam sido atingidos. Ela passaria por uma cirurgia complicadíssima, e poucas chances havia de sobreviver. Apesar de tê-lo dito com todos os eufemismos que os médicos têm, Keitaro ficou arrasado.
Esperou durante todo o tempo que a cirurgia demorou, o que significou quase oito horas. Sua vista doía, seu corpo pedia por energia e todo ele pedia por alguma notícia.
- Sr. Keitaro Urashima? – chamou uma enfermeira, com uma prancheta nas mãos.
- Sim?
- A sua esposa quer falar com você.
Keitaro levantou-se de pronto, esquecendo o sono e a exaustão. Naru estava deitada na cama de cirurgia, abatida e com sangue no lençol que a cobria, e uns poucos hematomas no rosto, que deformavam-lhe a beleza natural. Keitaro sentiu o coração apertar e doer horrivelmente.
- Naru...
A moça abriu os olhos, e sorriu levemente, como se apenas aquele gesto já lhe custasse sua energia remanescente e vontade.
- Keitaro... – murmurou.
- Naru, meu amor, por que fez isso?
Ela fechou as sobrancelhas levemente.
- Não me chame de amor...
- Do que está falando?
Ela hesitou em responder, respirando com dificuldade. Resumiu tudo em uma só palavra.
- Motoko...
Keitaro sentiu que tremia.
- Naru... me desculpe... – falou, cabisbaixo.
- Eu quero – ela respirou novamente – que vocês sejam felizes.
- Não diga isso...
- Adeus, Keitaro.
Naru fechou os olhos, com um sorriso de paz nos lábios. Keitaro se aproximou, pegando a mão da moça e quis abraçá-la, mas teve medo de machucá-la.
- Naru...
- Eu te amo.
O sopro de vida que havia em Naru expiou. A mão que Keitaro segurava ficou leve e sem vida. Ficou muito tempo parado, e sentiu o corpo da esposa esfriar, enquanto todas as lembranças, boas e más, que tinha com ela passavam por sua mente.
Ficou a cargo de Keitaro avisar os parentes, e planejar o enterro da esposa. Muito sofreu, e seus amigos consolavam-no como podiam. Ganhou muitos presentes, flores, cartões, palavras amigas de coragem e amizade. Quis parar de pensar em Naru, quis esvaziar a mente. Mas o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi em avisar as meninas da pensão. Apesar de nunca mais terem aparecido por lá, Naru ainda mantivera contato com elas, mandando cartas e escrevendo e-mails.
Sabia que não podia ligar para elas e dizer “Naru morreu”, e sim que teria que escrever uma carta a elas, ou avisá-las pessoalmente. A perspectiva de ver Motoko o fez estremecer de leve. Como seria sua vida dali para frente, sem Naru? Apesar dos problemas que tinham, ela era a família que ele conhecia. Como não tinham filhos, eram a única companhia um do outro, compartilhando problemas e alegrias.
Decidiu que escreveria uma carta e as chamaria para o enterro. Começou a escrever, mas não conseguiu continuar por muito mais tempo. Começou a chorar, e era verdade que eram as primeiras lágrimas que derramava por Naru, e talvez a primeira vez que se desse conta de o quanto ela era importante para ele. Decidiu que iria avisá-las pessoalmente, assim que pudesse.
E nessa decisão ficou, mas que só se concretizou um mês depois. Pegou um trem, e desejou que a viagem durasse para sempre. Estava pálido, abatido, e principalmente saudoso. Não queria contar para elas, nem reencontrar Motoko, mas sabia que aquele momento não mais poderia ser adiado.
Foi recebido com alegria, mas logo a expressão triste e seu semblante grave deram a notícia por ele. As palavras que disse, informando sobre Naru, foram mera redundância e formalidade. A abstinência de Naru, a expressão grave e o terno preto que Keitaro usava já denunciavam o ocorrido.
Motoko, não a viu. Soube pelas meninas da pensão que ela passava muito tempo confinada no quarto, infeliz.
Ficou muito tempo na pensão, onde encontrou paz, tranqüilidade. Embora a infelicidade entre as meninas fosse quase palpável e isso também afetasse seu espírito, sentiu-se sereno pela primeira vez, desde que Naru falecera.
Fazia semana que estava lá, e a chuva caía torrencialmente. Era fim de tarde, e o sol já se escondera por detrás do horizonte, deixando Keitaro à mercê daquelas lágrimas abundantes. Encharcado até a alma, ele não se importava realmente. Tudo o que queria era estar em paz, e tentar afastar a tristeza que sentia.
- Keitaro, vem jantar – chamou Kaolla, sorridente.
- Já me vou – respondeu ele.
Kaolla saiu, ainda sorrindo. Foi para a pensão, deixando Keitaro sozinho. Um vulto de mulher apareceu ao longe, e se aproximava a passos lentos e calculados. Um vulto esguio e delicado, que Keitaro demorou a reconhecer. O rosto sereno de Motoko mal era reconhecível no meio da escuridão.
Olharam-se longamente, num misto de saudade, arrependimento e curiosidade. Continuava linda, talvez um pouco pálida, mas ele mesmo sabia que não estava em melhor estado. Os cabelos lisos caíam-lhe no ombro e emolduravam o rosto de semblante triste. Era a primeira vez que viam-se em anos.
- Keitaro – disse Motoko, saudando-o.
- Motoko – Keitaro retribuiu a saudação.
Ela passou por ele a passos mais lentos ainda, como se quisesse apreciar cada segundo daquele encontro. Keitaro observou tristemente a silhueta de Motoko desaparecer na escuridão, à medida que relembrava os momentos felizes que passara junto com Naru. Fazia isso com freqüência, cada vez que sentia-se infeliz, mas isso apenas o fazia entristecer-se mais.
- Motoko-chan... – murmurou, a voz mal ouvida no meio da chuva.
O vulto de Motoko parou. Virou-se para ele, a uma distância razoável, de onde não se podia ver a expressão de seu rosto.
- O que foi?
Keitaro teve um sobressalto. Não percebera que tinha chamado pela moça, em seu devaneio.
- Nada, desculpe. Besteira minha.
Motoko assentiu com a cabeça, e se despediu. Keitaro desejou que tudo tivesse sido diferente entre eles.
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