LIBERDADE
por Nina Neviani
beta-reader: Chiisana Hana
Todo sábado à noite, ele vai até aquela praia. Na primeira vez que foi, encontrou-a. Em todas as outras não. Mesmo assim, em todas as noites de sábado, ele vai até aquela praia deserta de Atenas.
O dia em que ele a conheceu havia sido um dia de treino como tantos outros, porém as hostilidades para com ele -
o irmão do traidor, como costumavam dizer - foram mais intensas do que as anteriores. Então, ele, mais cansado das acusações, do que revoltado com elas, resolveu pela primeira vez em anos sair do Santuário. Talvez o resto da cidade grega pudesse ajudar a suportar o fardo de ser irmão de quem era.
Ele não saberia dizer o que o levou justamente àquela praia, sabia apenas
que queria ficar sozinho. Queria esperar a raiva passar, sozinho, olhando o mar, pois sabia que no próximo treino os insultos a fariam retornar cada vez mais forte.
O desejo de solidão quase o fez deixar a praia quando ele percebeu que ela não era tão deserta como ele imaginara. Havia uma garota ruiva naquele mesmo lugar. Ele não sabia o que, mas essa garota parecia ter algo familiar.
Ela logo notou a presença dele e pareceu, por algum motivo, um pouco surpresa. Segundos depois, perguntou:
- Dia ruim?
Ele hesitou. Não sabia se devia falar com aquela desconhecida ou não. Porém, aquela sensação de conhecê-la de algum lugar, o fez responder:
-
Vida ruim. Mas como você sabe que eu não vivo um... momento alegre?
Ela deu de ombros antes de explicar.
- Só alguém que não estivesse feliz escolheria justamente esse lugar em Atenas para ir logo no sábado à noite. Essa praia inspira tristeza e melancolia.
Depois de algum tempo em silêncio, ela perguntou:
- Quer falar um pouco do seu dia ruim?
- É uma história complicada.
- Todos têm uma história complicada.
- Sabe o que é ser discriminado por algo que você não tem culpa?
- Como a nacionalidade ou pelo fato de ser mulher? - Ele assentiu e ela continuou - Sei.
- No meu caso diz respeito à família.
Ele balançou a cabeça como se não conseguisse compreender algo que todos compreendiam. Continuou.
- Eles não percebem que eu não tenho culpa de ser irmão de quem sou.
- Com certeza você não tem. Mas quem é o seu irmão?
- Não é, foi. Foi um... traidor.
- Você tem certeza disso?
- Eu queria não ter, porém existem provas.
- E o seu coração, o que diz?
- Pode parecer loucura, mas ele diz que o meu irmão é inocente.
- Isso é o que importa. Não deixe que apaguem as boas memórias que você tem dele.
Ele apenas assentiu. Ficaram em silêncio por mais algum tempo até que ele quebrou o silêncio, dizendo:
- Tem uma pessoa. Ela... ela me trata diferente. Eu não posso ver os olhos dela, mas algo me diz que neles não existe a hostilidade que existe no olhar dos demais.
Ele não percebeu, mas a voz dela tremeu um pouco ao perguntar:
- Você não pode ver os olhos dela?
- Não. Incrível, não acha? Eu não posso ver nem os olhos, nem o rosto da única pessoa que não me trata mal. A única pessoa viva pela qual eu não sou indiferente. Aliás, indiferença é o que eu não sinto mesmo por ela.
Ela voltou-se para o mar e disse:
- Sem dúvida, você tem uma história complicada.
Ele sorriu e concordou.
- Sim, eu tenho uma história complicada, mas como você disse, todos temos. E qual é a sua história complicada?
- Fica para um outro dia. Eu tenho que ir.
Ela se aproximou dele, beijou-o levemente e disse:
- Adeus.
E se foi.
Ele não sabia o nome dela, mas quando pensava nela, gostava de chamá-la de Liberdade.
Ele também não sabia para onde ela iria, mas talvez fosse justamente esse o motivo do fascínio que ela exercia nele. E ele jamais esqueceria o gosto dos lábios dela.
O que ele não sabia era que a Liberdade tinha que se esconder atrás de uma máscara.
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Fic inspirada na música
Miami do
Nek.
Agradecimentos especiais a Chiisana Hana, a minha espetacular beta.
Nina Neviani